Escolas de idiomas abrem cursos exclusivos para maiores
de 55
Como levar
o neto à Disney sem falar inglês? A corretora aposentada
Glória Aparecida Cardoso Harmonia, 56, transformou em solução
- e em atividade- o que para muitos poderia ser um problema: começou,
há duas semanas, a estudar o idioma em uma escola criada
especialmente para pessoas acima dos 55 anos, a Convivial, em
São Paulo, inaugurada neste mês.
"Acho
que, no ano que vem, já consigo ir", conta Glória,
que já faz parte da chamada terceira idade. Ao contrário
do que o senso comum crê em relação às
dificuldades de aprendizado nesta fase da vida, Glória
conta que está "costurando muito bem" as novas
informações que recebe. Sua colega das aulas de
inglês, a florista Gilda Maria Aulicino, 57, que já
foi à Espanha fazer curso de especialização,
também está confiante. "Antes, sempre que aparecia
algo nos Estados Unidos ou na Inglaterra, ficava sem coragem de
ir. Agora, espero logo enfrentar um desafio assim."
Esses cursos
são novidades nas escolas, mas são oferecidos há,
pelo menos, cinco anos nas chamadas universidades abertas à
terceira idade (caso da Unifesp - Universidade Federal de São
Paulo) e também são promovidos pelos centros de
extensão cultural das instituições de ensino
superior como a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC),
a estadual do Rio de Janeiro e a PUC do Paraná.
Nessas instituições,
a demanda aumentou nos últimos anos. Na UFSC, a procura
pelos cursos de inglês e espanhol cresceu cerca de 15% no
último ano. Na Unifesp, as turmas de inglês têm
cerca de 50 pessoas na fila de espera. Mais que ocupação
do tempo livre, os alunos "maduros" têm encontrado
os mais variados motivos para continuar o aprendizado.
A assistente
administrativa aposentada Cristina Smallwood, 63, começou
o curso de italiano para poder se corresponder com a avó
italiana do namorado da filha; o representante de vendas aposentado
Wilton Gomes Corrêa, 66, quer entender melhor as letras
de suas músicas italianas preferidas. Ambos estudam no
Centro de Estudos Prisma, do Colégio Santa Maria, em São
Paulo, em uma turma dedicada à maturidade.
Justamente
por não serem obrigados, maiores de 55 que encaram essa
empreitada demonstram uma característica importante: determinação.
"Não é raro os mais velhos sentirem dificuldade
de enfrentar situações novas; se fazem isso, é
porque possuem bastante força de vontade, o que já
é um indício de boa saúde", diz o geriatra
João Toniolo Neto.
Como explica
o médico, a partir dos 55 anos -o marco oficialmente reconhecido
como o início da terceira idade- o organismo não
responde aos estímulos da mesma forma. "Existe uma
discreta perda da memória de fixação, que
é a utilizada para registrar novas informações,
além de redução na acuidade visual e auditiva",
segundo Toniolo. Essas diferenças no ritmo de aprendizado
acabam mostrando algumas vantagens das aulas exclusivas, seja
nas escolas de idioma, seja nos programas para a terceira idade
das universidades.
"Não
me adaptaria a uma classe com pessoas mais jovens, elas fazem
muita bagunça, fica difícil concentrar-se",
conta Glória. Gilda Aulicino também não se
sente à vontade. "Os jovens têm o raciocínio
muito rápido, acho que não conseguiria acompanhá-los."
Para a dona-de-casa Nilsa Comparini Moretti, 72, estar em um grupo
em que todos estão na mesma faixa etária "traz
mais conforto". "A gente pode trocar idéias sobre
assuntos comuns." Fortuna Ambrósio Pesso de Vasconcelos,
61, está na mesma turma de italiano que Nilsa e concorda:
"Além das afinidades, o ritmo da aula fica adequado
a todos da turma".
A psicóloga
Maria Célia de Abreu, especializada no atendimento à
terceira idade, no entanto, alerta para o possível isolamento
que pode surgir nesses grupos. "Se o idoso tem a chance de
conviver com jovens em outras atividades de sua vida, ainda que
seja em família, é muito interessante participar
desses grupos exclusivos à sua faixa etária. Mas,
se ele tem pouca oportunidade de manter relações
intergeracionais, seria melhor procurar uma turma heterogênea,
pois a falta de contato próximo com pessoas mais jovens
pode gerar ainda mais exclusão."
Para Nadir
Aparecida de Matos Nogueira, coordenadora da Universidade Aberta
à Terceira Idade da Unifesp, "todo o conteúdo
deve ser ministrado lentamente, caso contrário, os alunos
se perdem". Os coordenadores pedagógicos das novas
escolas, além da redução no ritmo das aulas,
apostam na mudança de metodologia: fazer com que os alunos
aprendam a nova língua com atividades do dia-a-dia, para
eles, faz com que fixem melhor o conteúdo.
"Trabalhamos
pouca gramática. A idéia é que o aluno converse
e aplique o idioma na rotina", diz Marcelo Biancalana, coordenador
pedagógico da Convivial. Maria Teresa Manzione Zanzotti,
do Colégio Santa Maria, explica que os alunos "maduros"
preferem as vivências às atividades realizadas com
áudio e vídeo. Nas duas escolas, espaços
como a cozinha, a sala de estar e o jardim são utilizados
pelo menos em metade do período da aula. "Vou para
as aulas como se fosse visitar os amigos", afirma Glória.
Se, por um
lado, o declínio na memória de fixação
pode ser um empecilho, por outro, as informações
do passado -incluindo idiomas aprendidos- podem vir à tona
com esse novo estímulo, segundo Paulo Henrique Bertolucci,
chefe do Setor de Neurologia do Comportamento da Unifesp. "E
vale para qualquer idade: se o professor utiliza outras formas
de fixação de conteúdo além das tradicionais,
mas que tenham a ver com aquilo que o aluno gosta, o aprendizado
fica mais fácil", diz Bertolucci.
Estela Maria
Ribeiro da Silva, 59, que trabalha com o marido advogado, estava
há dez anos sem estudar inglês. Retomou os estudos
com uma professora particular da escola Build Up, que prepara
as aulas de um jeito diferente: "Sempre lemos algum livro
de arte em sala e vamos a exposições", diz.
O aprendizado, então, é estimulado pelo interesse
pessoal: as artes plásticas são a grande paixão
de Estela. "Logo que retomei as aulas, percebi quanto tudo
ainda estava na minha memória."
(Folha
de S. Paulo)
Idosos trocam experiências com os mais jovens
Quando chegou
à sala de aula com um livro de inglês de 20 anos
atrás, o engenheiro industrial aposentado Luiz Kanashiro,
62, diz que os outros alunos da classe "tiraram um "pêlo'"
dele. A gíria usada por Kanashiro dá uma idéia
de como ele reagiu às brincadeiras: "Não liguei,
somos todos colegas, e realmente aquele livro já tinha
passado do tempo".
Os que "tiraram
um onda" de Kanashiro têm em média 30 anos menos
que ele e é justamente essa diferença de idade que
estimula o aposentado. "Estar em um sala com jovens não
é entrave nenhum. Existe uma troca de experiências
muito interessante. Eles gostam de saber por que eu continuo estudando
até hoje, querem saber o que já fiz na vida",
conta Kanashiro, que fala espanhol fluentemente, estuda inglês
na Cultura Inglesa há dez anos e não sente que o
ritmo das aulas é muito acelerado para ele. "Dou conta,
sem problemas."
Além
de se considerar um exemplo entre os jovens -"já que
muitos deles vêem o quanto eu me dedico, pois não
falto e faço todos os exercícios"-, Kanashiro
aprende bastante com eles. "Dá para eu me manter sempre
atualizado. Eles falam de cinema, de teatro, de música,
e eu acabo me inteirando sobre o que acontece de novo na área
cultural", conta Kanashiro, que perdeu "o receio"
da tecnologia impulsionado pelos outros alunos.
"Os jovens
deitam e rolam em frente a um computador. Não dava para
eu pedir a um colega que ficasse lendo meus e-mails e abrindo
programas. Então, passei a me interessar pelo assunto e
garanto que aprendi bastante", diz. "Não quero
parar nunca de me aperfeiçoar no idioma."
(Folha
de S. Paulo)