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O principal pré-requisito para ser
piloto é não ter medo
Figura mitológica
alada, Ícaro é a mais recorrente imagem para conquistas
espaciais. Se a superação de limites está ocasionalmente
associada a desastres, essa ligação tem origem na
própria lenda. Maravilhado com seu poder de voar, Ícaro
rumou em direção ao Sol, o que derreteu a cera que
mantinha atadas a seu corpo as penas que permitiam a façanha.
Ícaro, como os sete tripulantes do Columbia, não teve
a menor chance. É uma história que astronautas e pilotos
de prova conhecem melhor do que ninguém. Mas medo não
é uma palavra que se ouve nesses ambientes.
"O camarada
não pode ter restrições quanto a se colocar
em situações difíceis", diz Luiz Carlos
Rodrigues, 57, piloto de prova chefe da Embraer, maior fabricante
brasileira de aviões e uma das grandes empresas do mundo
no setor. "Ele precisa gostar do desafio, de enfrentar o desconhecido.
Você não sabe exatamente o que vai encarar quando sai
para pilotar um protótipo."
A formação
tradicional de um piloto de prova é pela via militar. "Dos
22 pilotos que temos aqui na Embraer, metade tem formação
militar", diz Rodrigues, ele mesmo uma cria da AFA (Academia
da Força Aérea). Voando desde os 20 anos, deixou o
serviço militar há oito para trabalhar na Embraer.
Normalmente,
a carreira exige estudo e aplicação. "Para atingir
essa condição, o piloto da FAB (Força Aérea
Brasileira) necessita concluir o curso de formação
de oficiais-aviadores da AFA, que dura quatro anos. Também
é preciso passar pelos cursos operacionais de formação
de caça, líder de elemento e líder de esquadrilha
-mais três anos, no mínimo- e apresentar um currículo
que o credencie a ser recomendado para prestar concurso de seleção
para o curso de ensaios em vôo", conta o tenente-coronel-aviador
Airton Manoel Rodrigues, 43, chefe da Divisão de Ensaios
em Vôo do CTA (Centro Técnico Aeronáutico).
O curso de especialização no CTA consome mais de 45
semanas.
"O Código
Brasileiro de Aeronáutica exige que o piloto tenha sua formação
em escolas tradicionais", afirma Luiz Carlos Rodrigues. Além
da Academia da Força Aérea, é possível
fazer, no exterior, cursos especializados na formação
de pilotos civis. "Meia dúzia dos nossos pilotos aqui
na Embraer veio da escola inglesa." Os outros são engenheiros
que aprenderam na própria empresa o trabalho de pilotagem,
no contato com os outros pilotos e com as próprias aeronaves.
"Eles ainda não estão habilitados para voar,
mas têm toda a formação e a capacidade necessárias."
A formação,
entretanto, não garante um bom piloto de prova. Esse profissional,
que voa não só em aviões militares de alto
desempenho mas também faz testes nos troncudos modelos da
aviação civil, precisa acima de tudo ser capaz de
se apaixonar pelo avião. "O camarada que quer ser piloto
de prova tem que gostar de avião -de cada detalhe do avião.
Ele precisa ter uma percepção aguçada da aeronave",
afirma o piloto de prova chefe da Embraer.
É tarefa
desses aviadores, por exemplo, realizar as missões que eles
chamam de "vôo de abertura de envelope", um procedimento
arriscado em que eles devem testar os limites da aeronave. "O
objetivo é testar as velocidades mais altas e observar possíveis
fenômenos na estrutura, como o desprendimento de partes do
avião."
É preciso
estômago para acelerar um avião até que ele
ameace cair aos pedaços. É bem verdade que o piloto
nunca está sozinho -além de um engenheiro, que geralmente
o acompanha nos vôos, há uma outra aeronave, voando
em proximidade e acompanhando o desempenho do veículo em
teste. Mas também é fato que, se há um problema
incontornável a bordo da aeronave, os vizinhos pouco podem
fazer a respeito.
"Tudo o
que a nave que está acompanhando pode fazer é avisar
o piloto sobre a altitude", explica Luiz Carlos Rodrigues.
Se o avião não estiver alto o suficiente, pode não
haver tempo para uma descida segura da tripulação
com o uso de pára-quedas. Nesse caso, quanto menor a altura,
maior o tombo.
É rara,
de qualquer maneira, a ocorrência de um episódio desses,
em que a nave é perdida e abandonada. Desde a fundação
da Embraer, em 1969, apenas um protótipo foi perdido nessas
circunstâncias, um Tucano (avião militar), em 1982.
"Essa é uma estatística bem favorável",
diz Luiz Carlos Rodrigues.
A rotina dos
pilotos não envolve somente o sensível vôo de
protótipos. O grosso do trabalho consiste no teste de cada
avião que sai da linha de montagem. "Antes de entregarmos
avião para o cliente, precisamos ter a certeza de que está
funcionando de acordo com as especificações",
afirma. "Esse é o vôo de produção."
Mesmo num país
sem guerras ou grandes incidentes internos, como é o caso
do Brasil, os pilotos de prova civis e militares não ficam
atrás de suas contrapartes em nações mais belicosas.
"Os pilotos de ensaio realizam no dia-a-dia as mesmas tarefas
que realizariam durante um esforço de guerra", explica
Airton Manoel Rodrigues. "Com certeza, a única diferença
será a intensidade e urgência dos vôos.
Por isso, a
Divisão de Ensaios em Vôo constitui uma reserva à
disposição dos Comandos Operacionais. Os pilotos de
ensaio estão disponíveis para cumprir sua destinação
constitucional em combate."
Qual é
a graça que os manobráveis caças têm
que os grandes aviões comerciais não têm? "A
sensação de vôo", responde Marcos César
Pontes, 39, major-aviador da Força Aérea Brasileira
e o homem escalado para se tornar o primeiro astronauta brasileiro
no espaço. "Existe uma grande diferença entre
os dois tipos. Uma aeronave grande dá a você a satisfação
da tecnologia dos instrumentos e da aviônica. Além
disso, você tem a responsabilidade de ter passageiros. No
caso da aviação de caça, você tem mais
manobrabilidade, maior liberdade em 'sentir' o que o vôo tem
a oferecer."
No Brasil, o
privilégio de experimentar as emoções dessa
carreira é limitado aos homens. Mas não por muito
tempo. A Academia da Força Aérea, localizada em Pirassununga,
no interior do Estado de São Paulo, está recebendo
neste ano suas primeiras 20 cadetes-aviadoras, selecionadas entre
3.400 candidatas. "Considerando a formação exigida
para a realização do Curso de Ensaios em Vôo,
só haverá candidatas ao curso na modalidade de piloto
em pouco mais de uma década", diz Airton Manoel Rodrigues.
Ao contrário
do que alguns podem imaginar, não é preciso ser nenhum
super-herói para ser piloto de caça -ou astronauta.
Está tudo na cabeça. Pontes, com 1,68 m e 73 kg, parece
ser o sujeito mais pacato do mundo. Mas, por trás de sua
fala mansa e de suas descrições metódicas,
precisas, pode-se vislumbrar o espírito de Ícaro -a
vontade de desbravar fronteiras, sem se deixar atormentar pelos
riscos.
No ar, não
há muito tempo para se preocupar com a própria vida.
"Já tive algumas panes interessantes", ele diz
num tom irônico. "Também já passei por
algumas situações táticas de alto risco imediato.
Já estive a ponto de ejetar algumas vezes. Mas não
dá tempo para temer pela vida. Apenas para tentar salvá-la",
diz o astronauta. "Todos os pilotos de combate, em especial
os de caça e de ensaio em vôo, já passaram por
situações difíceis, em que a sobrevivência
foi colocada em risco", diz Airton Manoel Rodrigues.
Pontes, que
foi piloto de prova durante a maior parte da sua carreira, está
agora se preparando para um vôo maior -a bordo de um ônibus
espacial da Nasa (Administração Nacional de Aeronáutica
e Espaço). Ele está desde 1998 treinando no Centro
Espacial Johnson, em Houston, e já está certificado
para voar. Falta só os americanos agendarem a data do primeiro
vôo dele -o que só vai acontecer se o Brasil resolver
seu atual impasse com relação à sua participação
na ISS (Estação Espacial Internacional), um dos embaraços
do novo governo .
Depois da tragédia
com o Columbia, em 1º de fevereiro, a Nasa não vai mandar
ninguém para o espaço tão cedo. A perda dos
sete astronautas abalou todo o mundo, e Pontes foi pego no meio
do turbilhão, em Houston. Ele lamentou a morte de seus colegas,
mas parecia já vacinado contra esse tipo de episódio.
"A gente conhece os riscos. Foi uma das coisas que aprendi
com a vida de piloto. Nos tempos de Academia eu perdi um grande
amigo num acidente. A gente precisa passar por cima e seguir em
frente."
Há uma
lição a ser tirada de desgraças como a do Columbia,
especificamente com a recente onda do turismo espacial. "É
um aviso de que a atividade ainda tem riscos altos. O que as pessoas
fazem com a vida delas é direito de cada uma. O que não
é aceitável é causar aumento de riscos aos
outros", diz Pontes.
Por ora, o espaço
é restrito aos Ícaros modernos, mas isso pode mudar.
"Os sistemas espaciais estão se desenvolvendo bastante.
No futuro, o turismo espacial vai ser uma coisa normal, com baixo
risco e sem influência sobre as tripulações."
O astronauta brasileiro é o único no país a
possuir o "brevê espacial".
No fundo, esses
ases da aviação têm amor pelo vôo e pelas
máquinas que proporcionam a vitória sobre os limites
que a natureza impõe ao homem. Aos novos Ícaros pouco
importa se astronáutica ou aeronáutica. "O que
vale é o espírito de conquista."
(Folha de
S. Paulo - 25/02/03)
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