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Diploma de universidade renomada influência na hora da contratação

As grifes do ensino superior ainda abrem as portas para os estágios e as vagas de trainees mais cobiçados. Não é o único jeito de chegar lá -algumas empresas estão mudando, mas cursar uma faculdade renomada, como a pública USP ou a particular Eaesp-FGV, ajuda muito na hora de obter o primeiro emprego.

Leia mais:
- Diploma com grife ajuda a começar bem
- Alunos atestam facilidade
- Só escola não dá para garantir qualidade
- Cursos preparam aspirantes
- Jogos avaliam candidatos
- Tímido tem menos chance de ser escolhido
- Seleção é pior que vestibular
- Trainee "roda" na empresa
- Estágio ruim exige reação
- Procuradoria adverte escolas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Diploma com grife ajuda a começar bem

As grifes do ensino superior ainda abrem as portas para os estágios e as vagas de trainees mais cobiçados. Não é o único jeito de chegar lá -algumas empresas estão mudando, mas cursar uma faculdade renomada, como a pública USP ou a particular Eaesp-FGV, ajuda muito na hora de obter o primeiro emprego.

Muitos recrutadores não admitem que escolhem pela faculdade, outros têm em suas equipes alunos de escolas não renomadas, mas o quadro de dirigentes, dentro das companhias, quase sempre é composto por ex-universitários de instituições famosas.

A Folha fez um levantamento com 68 grandes empresas, e o resultado é que 66% do primeiro escalão é composto por pessoal proveniente de universidades tidas como de primeira linha ou que frequentou cursos no exterior.

Selecionadores que dão peso à marca do diploma consideram que esses alunos têm boa for- mação cultural e qualidades como espírito de liderança, flexibilidade e raciocínio rápido.

Uma das empresas que selecionam pelo poder de fogo do curso é a Pirelli, segundo o questionário respondido para a Folha. Para a empresa, a experiência demonstra que alunos de universidades conceituadas possuem o perfil indicado para as suas vagas.

O diretor de assuntos corporativos da indústria farmacêutica Eli Lilly do Brasil, Devaney Baccarin, concorda. "A bagagem cultural e a tradição da faculdade são itens importantes quando procuramos um candidato para o estágio." Para ter objetividade na busca, a companhia organizou uma lista de nove faculdades, nas quais são caçados os talentos: ESPM, FGV, Instituto Mauá, Mackenzie, Oswaldo Cruz, PUC, Puccamp, Unicamp e USP .

A empresa de planos de saúde Samcil limita sua busca a três faculdades particulares: Universidade de Mogi das Cruzes, Osec e Unisa. "São ótimas instituições. Se abrirmos demais o leque, acabamos não conhecendo a fundo o perfil dos alunos", declara João José Storarri, responsável pela área de desenvolvimento de patrimônio humano e de qualidade.

A exclusão pode acontecer na hora de divulgar as vagas. Algumas empresas colocam cartazes somente em certas faculdades -é o caso da Visa do Brasil. "A solicitação por uma universidade se dá devido ao perfil do estudante", explica Maria Cecília Loverro, vice-presidente de recursos humanos (RH).

Segundo ela, os alunos das faculdades selecionadas têm a visão do negócio como um todo e conseguem aplicar na prática aquilo que aprendem. "Mas temos gente com todas as formações, pois todos os currículos são enviados para o recrutamento", afirma.

O fundador do Grupo Catho, Thomas Case, diz que a universidade ajuda na triagem. "São toneladas de formandos no mercado, e as empresas têm de selecionar o melhor." Para ele, a vantagem de um aluno da USP, por exemplo, é a dificuldade do vestibular. "É uma peneira por onde passam somente os brilhantes."

Irene Ferreira Azevedo, da KPMG, empresa de RH, reforça. "O nome da escola é 80%. Ingressar nas mais concorridas é difícil. Pressupõe-se que as pessoas estejam mais bem treinadas."

(Folha de S. Paulo - 30/09/02

 

Alunos atestam facilidade

Os estudantes de universidades bem conceituadas concordam que os caminhos acabam se abrindo para eles. Aluno do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e estagiário da Johnson & Johnson, Gustavo Militao Pontes, 22, afirma já ter trabalhado em empresas que somente buscam estudantes do instituto. "Há companhias que montam escritórios ao lado da escola."

Para V.N., 21 (que pediu para não ser identificada), formada pela USP e estagiária de uma multinacional do setor alimentício, o currículo se valoriza. "Até sei de empresas que têm filtro bem claro, só buscam FGV e USP", diz.

Outros são excluídos porque a faculdade não está entre as mais conhecidas. Quando se formou, na Faculdade de Direito de Bauru, a advogada E.C., 27, tentou entrar em programas de trainees de bancos. Não conseguiu porque seu curso não estava na relação das preferidas. Ela desistiu do setor privado e hoje é delegada.

Ângela Mariana da Silva, 20, estudante de publicidade na Universidade São Marcos, diz que tem problemas "porque a faculdade não é tradicional no ramo".

Alguns conseguem reverter expectativas, como Greicy Montedello, 23, estudante de direito na UniFMU (Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas). Ela estagia na Unisys, multinacional do setor de tecnologia. "Aqui, em nenhum momento o critério de faculdade pública ou privada foi cogitado."

(Folha de S. Paulo - 30/09/02

 

Só escola não dá para garantir qualidade

O desempenho de um profissional não tem relação apenas com o seu curso, mas também com o seu esforço pessoal. Pelo menos, é isso o que defendem os consultores e as empresas que dizem não considerar a grife do diploma como um dos fatores decisivos de seleção de funcionários.

"Os recrutadores querem mostrar às empresas que estudantes que não vieram de uma faculdade de primeira linha podem ter o mesmo potencial e apresentar espírito de equipe e liderança", diz Luiz Gonzaga Bertelli, presidente-executivo do CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola).

A gerente da área de desenvolvimento do Unibanco, Isabel Armani, faz coro. "Só o nome da faculdade não é determinante. Se foi no passado, hoje não é mais." Na opinião da doutora em educação pela USP (Universidade de São Paulo) Cleide Almeida, até o conceito de "faculdade de primeira ou de segunda linha" é preconceito inventado pelo mercado.

Alexandra Souza Queiroz, gerente de atendimento do Nube (Núcleo Brasileiro de Estágios), diz que a faculdade sozinha não garante mais competência no trabalho. "Isso não existe. Temos estudantes excelentes e ótimos profissionais que não provêm de escolas de primeira linha."

Gabriel Mário Rodrigues, presidente do Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo) e reitor da Universidade Anhembi Morumbi, afirma que o mercado criou um marketing em torno de alguns nomes. "Sabemos que as públicas, assim como a Eaesp-FGV e a PUC, acabam destacando-se pela imagem que o mercado estipula."

Uma forma de compensar a graduação numa universidade pouco conceituada é apresentar qualidades adicionais: inglês fluente, informática, trabalhos voluntários, participação em workshops e projetos universitários com resultados significativos.

"Isso tudo é analisado também na hora de escolher o estagiário. Já a experiência não é um item procurado por nós. Queremos desenvolver o candidato, e o importante é que ele seja bem formado, tenha se dedicado aos estudos", diz Guilherme Cavalieri, diretor de RH da multinacional farmacêutica Boehringer Ingelheim.

No exterior, a fama do curso também conta. De acordo com Seme Arone, diretor de marketing do Nube, em países como os Estados Unidos, o contrato com o futuro profissional é assinado antes mesmo que o estudante termine os seus estudos. "Alunos de Harvard ou da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, já saem com emprego", afirma Arone.

(Folha de S. Paulo - 30/09/02

 

Cursos preparam aspirantes

Diferentes cursos tentam ajudar os jovens que querem passar numa seleção para trainees. A Fundação Getúlio Vargas criou o "Executivo Júnior", cuja primeira turma começa em março de 2003. As aulas são para recém-formados e para quem cursa o último ano de qualquer faculdade.

"Cada vez mais os universitários reclamam da falta de instrução para encarar as seleções. Além de ensinar como lidar com dinâmicas e entrevistas, o curso vai passar noções de administração de empresas", diz Ricardo Spinelli, do FGV Management.

A carga horária está prevista para 400 horas. O curso pode durar de um a dois anos, e o valor das mensalidades deve variar de R$ 300 a R$ 350.

Outra possibilidade são os cursos de organizações que fazem a ponte entre empresas e estudantes. Para quem ainda está na faculdade e quer um estágio, o CIEE oferece de graça cursos de informática e de idiomas.

Na Career Center, os estudantes ou os recém-formados podem se inscrever no programa "Jovem em Início de Carreira". São 15 horas, divididas em três meses. Entre os tópicos, é ensinado como organizar o currículo e como portar-se em uma entrevista. O custo não foi divulgado.

Career Center: www.careercenter.com.br; CIEE: www.ciee.org.br; Fundação Getúlio Vargas: www.fgv.br/fgvmanagement.

(Folha de S. Paulo - 30/09/02

 

Jogos avaliam candidatos

As técnicas de psicologia social evoluíram após a Segunda Guerra e começaram a ser utilizadas em processos seletivos da década de 70. As dinâmicas de grupo passaram a ser usadas no Brasil nessa época. Hoje é improvável que um profissional consiga o primeiro emprego em uma grande empresa sem passar por elas.

Essa forma de avaliação se tornou a principal peneira da seleção, pois permite avaliar um número grande de candidatos em pouco tempo, se comparada com as técnicas tradicionais.

Em geral, a dinâmica acontece após uma prova de línguas ou de conhecimentos gerais e precede as entrevistas pessoais. Os candidatos são divididos em grupos de dez a 15 pessoas. Enfrentam situações-limite por um período de pelo menos quatro horas, no qual todas as reações são analisadas.

"Como o jovem muitas vezes não tem experiência, ele participa de dinâmicas que avaliam competências", explica a diretora da Career Center, Karin Parodi. Defendida com unhas e dentes pelos profissionais de recursos humanos, entre os estudantes a dinâmica é vista com um misto de medo com desconfiança.

A administradora recém-formada Renata Fzterling, 23, calcula ter participado de mais de oito dinâmicas. Afirma ter saído humilhada em pelo menos 70% delas. Fzterling sentiu-se ofendida ao ter de simular uma discussão, "que incluía xingamentos", situação que diz evitar no dia-a-dia. Em outra ocasião, teve de compor uma música com o nome da empresa e depois representá-la, cantando e dançando.

Na opinião da administradora, as dinâmicas intimidam o candidato e impedem que ele se mostre como realmente é. Não é o que pensa o consultor John Cymbaum. Segundo ele, o caráter lúdico dos jogos deixa as pessoas mais autênticas.

Cymbaum discorda das críticas dos estudantes, que dizem faltar critérios nas brincadeiras. "Apesar de parecerem esdrúxulos, esses jogos podem ter por trás uma técnica solidificada", afirma.

Luciana Guedes Pinto, gerente técnica da Companhia de Talentos, explica que os critérios não são tão subjetivos quanto parecem. Segundo ela, cada tarefa é montada com o objetivo de avaliar o nível que os candidatos têm em competências predefinidas.

Cada pessoa é analisada tendo como parâmetro as qualidades determinadas pelo perfil que a empresa busca. Interação com o grupo, capacidade de argumentação, nível de agressividade e de flexibilidade são sempre observados, apesar de cada dinâmica ter um alvo próprio.

Para um cargo de gerente de vendas, um determinado nível de agressividade é positivo. Para uma posição administrativa, essa mesma atitude é negativa. Luciana conta ter avaliado uma candidata em duas situações. Numa, a pessoa concorria a uma vaga de trainee e não passou por falta de liderança. Em outra ocasião, a mesma candidata concorria a uma vaga técnica e foi reprovada por excesso de liderança.

"É desvio de percepção dar à dinâmica de grupo um caráter decisório", diz o filósofo e doutor em educação Mário Sérgio Cortella. Para ele, os valores mudaram, e o trabalho passou a ser coletivo. Antes a seleção se concentrava em habilidades individuais. "Pessoas que hoje ocupam a primeira linha das empresas seriam excluídas se fossem avaliadas por dinâmicas."

(Folha de S. Paulo - 30/09/02)

 

Tímido tem menos chance de ser escolhido

A dinâmica de grupo feita com universitários é um processo de massa, no qual se destaca quem tem mais chances. É o que afirmam os especialistas.

Luciana Guedes Pinto, gerente técnica da Companhia de Talentos, diz que, para ter mais chances, o candidato tímido precisa dar sua opinião em momentos significativos. "Se a pessoa não se posiciona, será que ela não é desse mesmo jeito no dia-a-dia?"

Karin Parodi, diretora da Career Center, aconselha os introvertidos a treinarem na frente do espelho e a se esforçarem para aparecer mais. John Cymbaum, consultor da Career Center e do LaboreDomus, diz que os calados tendem a não ser selecionados.

A timidez pode mesmo atrapalhar, concorda Débora Mathies, gerente da área de seleção e desenvolvimento de carreira do Banco Real. O analista de recursos humanos da Universidade Mackenzie, Cássio Nascimento Silva, observa que, entre os alunos selecionados, estão sempre os mais desinibidos, que sabem interagir e têm uma personalidade marcante. "O mercado não terá espaço para pessoas não-interativas."

O estudante do 8º semestre de desenho industrial no Mackenzie Paulo da Silveira Lobo, 22, diz que as empresas não têm interesse em contratar alguém que não tenha ambição de apresentar uma idéia ou expor seu trabalho.

A administradora de empresas Renata Fzterling diz ter amigas que ficam nervosas. "Todo o preparo de colégio, faculdade, conhecimento de línguas e estudos no exterior é anulado em duas horas de dinâmica", afirma.

A má experiência pode criar traumas, observa a coordenadora de estágios da PUC, Ivone Dias Gomes. Mas algumas vagas exigem um perfil mais introspectivo, ressalta ela, que acredita haver espaço para tímidos e desinibidos.

O consultor de recursos humanos da Avaya, Thiago Lícias de Oliveira, prefere estagiários tímidos em vagas que exijam mais concentração, como as de pesquisa e desenvolvimento.

(Folha de S. Paulo - 30/09/02)

 

Seleção é pior que vestibular

Receber boa remuneração, trabalhar no exterior, ser reconhecido pelo mercado, obter treinamento e benefícios de primeira e começar a carreira numa companhia de renome. Essas são algumas das vantagens de ser trainee de grandes empresas.

Para chegar lá, o caminho é árduo: além de passar por uma bateria de provas, entrevistas e dinâmicas de grupo, é preciso enfrentar a concorrência-muito além do vestibular mais disputado.

Em 2001, a empresa campeã na concorrência foi o Grupo Abril, com 2.600 candidatos por vaga. Na Parmalat, havia 1.100 pretendentes a cada cargo. A American Express teve 8.000 inscritos, que competiram por oito lugares, e o Citibank contou com 20 mil currículos para 20 contratações.

O curso de medicina na Unesp, o mais concorrido em 2001 entre as três universidades públicas paulistas (USP, Unesp e Unicamp), teve 97,3 candidatos por vaga. Quem passa no funil é recompensado. Os salários dos trainees nas maiores companhias varia de R$ 2.000 a R$ 3.000.

"Ao longo do processo, percebemos que ficam aqueles que têm conteúdo, não necessariamente os que falam mais na dinâmica", diz Sílvia Mansur de Oliveira, 25, formada em economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e trainee da American Express.

Ela pôde desenvolver projetos no exterior com apenas seis meses de empresa. "A responsabilidade é grande, mas vemos isso como algo muito positivo, que nos dá visibilidade e oportunidade para aprender", completa.

Segundo Eliana Sabbadini Pierozzi, coordenadora do programa de trainees e estágios da Telesp Celular, "só passa quem é bom de fato". No ano passado, foram 5.500 inscritos para 34 vagas.

Mas as experiências dos iniciantes também têm seu lado desgastante. Em um levantamento feito há dois anos pela Companhia de Talentos com dez grandes empresas, os trainees contaram sobre as falhas nos programas: 31% reclamaram de dificuldades como desorganização e resistência dos profissionais em atendê-los; 27% apontaram promessas não cumpridas; 23% disseram que alguns programas são desestruturados; e 19% sentiram falta de supervisão.

Uma das peculiaridades que a maioria das empresas implementou foi a busca por profissionais generalistas. São jovens que, ao final do treinamento, terão compreendido o funcionamento da empresa, pois terão passado por todos os departamentos.

A intenção é fazer com que os iniciantes aprendam sobre as mais diversas atividades. O engenheiro Eduardo Marques, 23, entrou para o programa da Unilever no ano passado. Depois de passar por várias áreas, atualmente está no departamento de RH. "Só no final do programa seremos alocados para a área final."

(Folha de S. Paulo - 30/09/02)

 

Trainee "roda" na empresa

Contratados para serem futuros gestores dentro das companhias, os trainees, em geral, terminam os programas com conhecimentos sobre todas as áreas.

"O investimento nos jovens é muito grande. Queremos que ocupem cargos estratégicos no futuro", afirma Flávio Pesiguelo, gerente de planejamento e desenvolvimento de RH da Natura. No caso da empresa, o programa dura 13 meses. Eles começam no setor de vendas e até saem com as promotoras. Depois de dois meses, vão para outras áreas.

"Temos a visão macro do negócio. Quando estivermos no setor final, já saberemos a realidade das áreas", diz a trainee da empresa Francine Soares da Cunha, 25.

Outro que está experimentando os diferentes setores da empresa é o trainee do Citibank Geraldo Godoy Júnior, 24. "Fui para vendas, e a próxima área pode ser a de marketing ou a financeira."

Na maioria das companhias, os ex-universitários fazem cursos, são acompanhados pela diretoria e têm oportunidade de desenvolver trabalhos fora do país. Foi o que aconteceu com o engenheiro Eduardo Marques, 23, trainee da Unilever. Já nos primeiros meses, ele viajou para o México, onde participou de um projeto para a área de vendas e distribuição da multinacional.

A ascensão nas empresas também é significativa. "Na American Express, vários gerentes foram trainees", conta Salvador Evangelista, vice-presidente de RH.

(Folha de S. Paulo - 30/09/02)

 

Estágio ruim exige reação

Nem todo mundo consegue ter o primeiro emprego em uma multinacional ou em uma companhia reconhecida, com salário alto e muitas regalias. Um problema comum num estágio fraco é a empresa utilizar o universitário como mão-de-obra barata, mas qualificada. Outro ponto é trabalhar numa área que não tenha relação com a formação do futuro profissional.

Consultores dizem que uma má experiência pode ser também resultado de falta de perseverança do estudante, caso ele mantenha uma posição conformista diante dos problemas encontrados.

Para conseguir o primeiro estágio, os estudantes aceitam trabalhar até de graça, principalmente se ele for uma etapa obrigatória para a obtenção do diploma. O estudante de desenho industrial Fábio Freitas, 23, fez um estágio na área de marketing em uma empresa de embalagens de vidro. Durante o programa, Freitas preenchia fichas e fazia contato com clientes e fornecedores. "De criação, que é a minha área, não tinha muita coisa", afirma.

Além do trabalho burocrático, o estudante diz ter sofrido assédio moral. Ele conta que a chefe implicava com qualquer coisa. Como exemplo, cita o dia em que foi repreendido por estar arrumando os ícones do computador.

Mesmo com a pressão diária da superiora que, em tese, deveria orientá-lo, Freitas pensou muitas vezes antes de pedir demissão, pois era bem remunerado. O estudante diz que não teve dificuldades para conseguir outra oportunidade.

Segundo ele, chegou a recusar ofertas de grandes empresas por não serem da sua área de atuação. Atualmente, declara-se satisfeito com um estágio que faz na área de criação de uma empresa de design gráfico.

Só a Universidade Mackenzie, onde Freitas estuda, recebeu mais de 10 mil ofertas de estágio em 2001. Cerca de 70% delas seriam de trabalhos que utilizam o aluno como mão-de-obra barata, estima o analista de RH da universidade, Cássio Nascimento Silva.

A coordenadora de estágios da Eaesp-FGV, Christina Dias Leite, observa que os alunos que tiveram uma experiência ruim com empresas se tornaram mais perspicazes na negociação.

Estudantes ouvidos pela Folha disseram que estágios ruins ajudaram no amadurecimento e os deixaram mais bem preparados para escolher onde trabalhar.

A.A.C., 23, estudante de administração da Eaesp-FGV, concorda. Ela passou por duas situações negativas, uma delas na área pública, mas afirma que não se arrepende. "Faria tudo de novo."

Em uma de suas experiências, na Prefeitura de São Paulo, não ganhava bolsa-auxílio. Na área pública, diz, quem é concursado deixa tudo na mão do estagiário. Em um estágio anterior, numa consultoria privada, A. era remunerada.

Em compensação, nem sequer tinha nome. Os colegas a chamavam de "estagiária", e suas idéias e seus projetos eram barrados pelo chefe, que a sobrecarregava com serviços administrativos.

(Folha de S. Paulo - 30/09/02)

 

Procuradoria adverte escolas

No início do mês passado, 1.500 estabelecimentos de ensino superior receberam uma notificação da Procuradoria do Trabalho. O objetivo da convocação foi advertir faculdades, universidades e agentes de integração da Grande São Paulo e da Baixada Santista contra estágios considerados irregulares.

Essas instituições podem ser multadas caso intermedeiem estágios que se revelem contrários à legislação. Pela lei, o estágio deve ser uma atividade prática complementar ao estudo técnico ou universitário. Precisa ser feito na mesma área da formação teórica.

A empresa que mantém estagiários sem a devida regulamentação também corre riscos. Se um dos estudantes se queixar ao Ministério do Trabalho ou se a fiscalização concluir que a atividade é um trabalho como outro qualquer, a empresa pode ser obrigada a contratar o universitário e a pagar, com multa, todos os encargos legais previstos na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).

A notificação da Procuradoria Regional do Trabalho gerou uma reação das faculdades e das universidades. Elas anunciaram a intenção de formar um conselho com o objetivo de aumentar a vigilância às empresas responsáveis pela contratação de estagiários.

Dezoito instituições, lideradas pela PUC (Pontifícia Universidade Católica), uniram-se para, segundo elas, tentar combater o uso do estágio como mão-de-obra qualificada e barata.

Mas, muitas vezes, é o aluno que insiste na experiência, mesmo quando a universidade ou a faculdade desaprovam, de acordo com a coordenadora de estágios da PUC, Ivone Dias Gomes.

A procuradora responsável por expedir a notificação às universidades, Denise Lapolla de Aguiar Andrade, afirma que os próprios estudantes já assimilaram a distorção provocada pelo mercado.

Os alunos vêem o estágio como um trabalho informal e como uma fonte de renda, que, em muitos casos, ajuda a financiar os estudos, diz a procuradora. Andrade conta ter recebido uma série de ligações de estudantes revoltados com a atitude do Ministério Público de reprimir o estágio irregular.

A procuradora aconselha ao estudante que se considere explorado que denuncie a empresa ao Ministério do Trabalho. "Se o que o universitário está fazendo não é estágio, ele tem direito a todos os benefícios da CLT."

(Folha de S. Paulo - 30/09/02)