Disputada, profissão de advogado vive "era de extremos"

De um lado, a defesa de causas importantes, recompensada com gordos salários. De outro, a banalização da profissão, com propostas de trabalho com rendimentos de R$ 500 ao mês. Na balança do mercado, profissionais de direito se equilibram e buscam diferenciais para vencer a concorrência.

Leia mais:
- Disputada, profissão de advogado vive "era de extremos"
- OAB-SP diz que exame nunca reprovou tanto
- Mercado põe novatos na "balança"
- Ameaça a juízes faz candidato repensar opção
- Escritórios se espalham e mudam perfil
- Carreira atrai escolas como a FGV

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Disputada, profissão de advogado vive "era de extremos"

De um lado, a defesa de causas importantes, recompensada com gordos salários. De outro, a banalização da profissão, com propostas de trabalho com rendimentos de R$ 500 ao mês. Na balança do mercado, profissionais de direito se equilibram e buscam diferenciais para vencer a concorrência.

Só na cidade de São Paulo, segundo a OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil), há 81.453 advogados. Em 2002, conforme estimativa do Ministério da Educação baseada no Provão, o Estado ganhou quase 27 mil bacharéis em direito. Neste ano, devem ser 76 mil os formandos no país todo.

Ser aprovado em um concurso público, conseguir emprego em uma grande companhia ou escritório e arriscar-se a abrir uma firma de advocacia são, segundo consultores e profissionais da área, as únicas chances de sobreviver nesse mercado competitivo.

Quem progride é bem recompensado. Diretores jurídicos, segundo pesquisa do Datafolha, têm, em média, o terceiro maior salário em empresas privadas de médio e grande porte em São Paulo (R$ 16 mil), atrás apenas de presidentes e vice-presidentes.

Para quem começa, no entanto, a história é outra. "Fui a várias entrevistas. Quando falavam o salário, eu desistia. Das 8h às 18h, R$ 500, R$ 600. E isso bruto, fora o que você vai gastar", conta o advogado Flávio Fadel, 26.

Enquanto estuda para um concurso para delegado federal, ele firmou uma parceria com um colega que tem escritório: consegue clientes e divide os lucros. "Há meses em que dá para tirar R$ 2.000, em outros, nem R$ 500."

Se o objetivo é atuar em um grande escritório, o ideal é começar como estagiário forma preferida de contratar. "O advogado é criado na casa", explica Tércio Chiavassa, 30, que passou pelo processo no Pinheiro Neto Advogados, que tem 57 sócios e cerca de 300 advogados contratados.

(Folha de S. Paulo - 06/04/03)

 

OAB-SP diz que exame nunca reprovou tanto

A OAB-SP estima que somente cerca de 20% dos candidatos inscritos no exame realizado em janeiro de 2003 tenham sido aprovados.

No Estado de São Paulo, são feitos três testes por ano. Apesar de os resultados individuais já terem sido anunciados, a entidade ainda não divulgou estatísticas referentes aos últimos dois exames.

O último índice divulgado, o da prova de abril do ano passado, foi o pior desde a criação do exame, em 1973, 81% dos 14.221 inscritos foram reprovados.

Segundo o presidente da entidade, Carlos Miguel Aidar, a aprovação no exame de janeiro deve ser a menor entre os testes já realizados nessa época do ano. Desta vez só cerca de 30% dos inscritos passaram para a segunda fase da prova.

Tradicionalmente, os melhores resultados do exame ocorrem em janeiro, pois nesse mês participam mais candidatos que prestam a prova pela primeira vez. "O exame nunca reprovou tanto. Em 2001, ele ficou mais difícil e, de lá pra cá, está mantendo o nível. Aumentou o número de reprovados porque o ensino jurídico piorou", afirma Aidar.

Recém-formado, Gustavo Pinheiro, 25, tentou agora o exame e não passou. Já com "ares" de advogado, entrou com recurso na OAB-SP solicitando revisão de prova. "Eles estão dificultando [a prova" por causa da grande quantidade de faculdades."

(Folha de S. Paulo - 06/04/03)

 

Mercado põe novatos na "balança"

Enquanto não conseguem a colocação que desejam, bacharéis em direito se submetem a funções que não exigem o título.

Sonhando com a magistratura estadual, Solange Gonçalves, 30, passa sete horas por dia atuando na área administrativa e de vendas de uma editora. "Não é fácil, mas é um degrau para alcançar o que quero." Segundo ela, optar por advogar não vale a pena para quem quer passar em concurso. "O salário não é bom, e o trabalho é desgastante. Não sobra tempo para estudar o necessário."

O Tribunal de Justiça de São Paulo e o Ministério Público Estadual informam que, em geral, o número de aprovados é inferior ao número de vagas existentes. Os concursos têm provas orais, discursivas e de múltipla escolha -segundo as instituições, o preparo costuma contar mais que a experiência profissional.

Sylvia Helena de Barros, 23, diz que seu objetivo é ser juíza na região Norte do país. Por enquanto, trabalha em um cursinho -toma conta de uma sala de estudos. Durante o expediente, diz ela, sobra até um tempinho para estudar. "Acabei de me formar e tenho paciência. Vou estudar tanto que vou acabar passando", afirma.

Segundo o diretor da Faculdade de Direito da USP, professor Eduardo Cesar Silveira Vita Marchi, enquanto nas melhores faculdades os alunos são disputados por grandes empresas, nas demais restaria a opção dos concursos públicos.

"Infelizmente há muita gente despreparada, que não consegue passar", afirma.

(Folha de S. Paulo - 06/04/03)

 

Ameaça a juízes faz candidato repensar opção

Ela foi estagiária em um presídio e sonhava ser promotora de Justiça de uma vara de execuções criminais. Não quer mais. Agora, diz que será advogada de empresas, na área comercial.

O que mudou não foi o sonho, nem o ideal, diz Luciana Tudisco, 22, que se formou em dezembro. Foi o medo que ficou mais forte.

Os assassinatos de juízes que lidavam diretamente com o direito penal e com criminosos Alexandre Martins de Castro Filho, da Vara de Execuções Penais de Vitória (ES), e o juiz-corregedor de Presidente Prudente (SP), Antonio José Machado Dias tornaram-se tema constante em cursinhos preparatórios para concursos.

"Perdi o gosto pelo direito penal depois do que aconteceu. É uma inversão de valores, não compensa", afirma.

A advogada Tatiana Bescio Telles, 22, que estuda para concursos, conta que, depois de aprovada, se puder escolher, evitará a área criminal. "Sou apaixonada por direito penal, mas estou com um pouco de medo", revela.

Para Solange Gonçalves, 30, que quer ser juíza, os eventos dão mais força para insistir. "Eu sempre soube dos riscos, só não tinha a dimensão deles." O bacharel Gustavo Pinheiro, que foi aluno da mulher de Machado Dias, em Presidente Prudente, e quer ser juiz federal, concorda. "Dá medo, não há segurança, mas não desisto."

Em cursinhos, professores, alguns deles juízes, dedicaram aulas inteiras ao assunto. "Foi até bom, pois alguns dos outros candidatos desistiram. Mas quem tem um ideal de justiça não se desvia", afirma Sylvia Helena de Barros, 23, que tentará concurso para magistratura.

O penalista Damásio de Jesus, que tem um cursinho, diz que é muito pequeno o número de alunos que pensam de fato em desistir.

(Folha de S. Paulo - 06/04/03)

 

Escritórios se espalham e mudam perfil

O aumento da competitividade no mercado jurídico faz as sociedades de advogados crescerem em número -em média, surgem no Estado cerca de 70 sociedades por mês, segundo a OAB-SP- e em tamanho, ganhando perfil empresarial, com departamentos de marketing, recursos humanos, gestão financeira e qualidade.

Em grandes e médios escritórios, ocorre movimento para formar os chamados "escritórios horizontais": novos sócios, com diferentes especializações, são agregados para que a sociedade possa atender causas de um maior número de ramos do direito.

Nos pequenos, advogados se reúnem para dividir clientes e contas. Ricardo Gaertner, 27, que era advogado contratado, resolveu abrir uma sociedade com um colega quando se deu conta de que dez horas de seu trabalho rendiam ao seu empregador valor equivalente ao seu salário mensal.

"No mercado de direito, a mais-valia é muito grande. Abrir escritório é difícil, é um período complicado. O importante é planejar."

Segundo o consultor de comunicação jurídica Rodrigo Bertozzi, os médios escritórios -alguns até com certificação ISO 9001- têm chances de prestar um serviço personalizado e podem tomar clientes dos grandes. "A tendência é ser melhor, não maior."

Com o novo perfil, os escritórios têm procurado profissionais com a chamada postura proativa: não têm todas as respostas, mas sabem encontrá-las. Conhecimentos de áreas como economia e administração são valorizados. "Quem sabe administração tem um "upgrade'", afirma Orlando Giacomo Filho, 63, presidente da Comissão das Sociedades de Advogados da OAB-SP.

A advogada Adriana Stamato, 30, que trabalha como consultora em direito tributário no Amaro, Stuber e Advogados Associados, conta que cursou administração e que chegou a trabalhar como administradora. "Aprendi a me colocar no lugar do cliente, discutir menos e ir logo para a prática. Em negócios, não há tempo para enrolação", avalia ela.

(Folha de S. Paulo - 06/04/03)

 

Carreira atrai escolas como a FGV

Mesmo inundado de profissionais, o mercado jurídico desperta o interesse de escolas de outras áreas, como a FGV-SP e o Ibmec.

A Fundação Getulio Vargas, que já mantém cursos de especialização e de educação continuada em direito, aguarda a autorização do MEC para a abertura de uma graduação. "O mercado já possui boas escolas, o que falta são profissionais que entendam outras áreas, como economia e administração", diz Leandro Silveira, 27, coordenador-executivo da Escola de Direito de São Paulo da FGV.

"A idéia é romper com o perfil do advogado passivo. Queremos alguém capaz de discutir todos os aspectos de um negócio", afirma.

O Ibmec, que tem especializações em direito societário e mercado financeiro, planeja a criação de cursos em outras áreas do direito até o final deste ano.

A escola do penalista Damásio de Jesus, 67, que há 33 anos tem um curso preparatório para concursos, começou a oferecer neste ano também a graduação. "Não é mais um curso. Temos um método em que o aluno é atuante", diz.

(Folha de S. Paulo - 06/04/03)

 
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