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Moda estimula o surgimento de novos cursos
Só o
Senac atrai com seus cursos livres até 6 mil pessoas a cada
ano; o investimento total passa dos R$ 6 milhões. Sintoma
de um mundo globalizado, as ofertas de cursos de moda dirigidos
às áreas de negócios seguem em ritmo crescente.
A preocupação maior tem sido atender às necessidades
de toda a cadeia. Se o São Paulo Fashion Week (SPFW) trouxe
visibilidade aos estilistas e inseriu o Brasil no mapa da moda mundial
- se não em volume, pelo menos em estilo e conceito - o business
representa a maior possibilidade de mercado aos profissionais.
"Achar
um estilista é a coisa mais fácil; o difícil
é encontrar, por exemplo, quem entenda de distribuição",
diz a consultora Luiza Bomeny, representante no Brasil da italiana
Marangoni. A consultora Miriam Levinbook faz coro. "As pessoas
vão trabalhar nas confecções pensando no glamour
das passarelas."
Miriam lembra
que na ânsia de atingirem o status de um Alexandre Herchcovitch,
aspirantes desprezam o mercado como um todo. A comparação
com o estilista, egresso de uma faculdade de Moda, é usada
pela consultora para enfatizar a importância do varejo. "A
porcentagem dos que podem consumir roupa da C&A, da Riachuelo
e das Pernambucanas é infinitamente maior", pondera.
Miriam lembra que hoje todas essas organizações trabalham
com a figura do coordenador de moda, carreira das mais cobiçadas.
As escolas se
esforçam para atender à demanda de um setor que, conforme
o BNDES, é o que mais emprega em relação ao
capital investido. De cada R$ 10 milhões, seriam 1.575 vagas
no segmento de moda, ante 959 no comércio, 626 na construção
civil e 52 no de telefonia.
No Senac, que
atrai com seus cursos livres até 6 mil pessoas a cada ano,
20% dos programas já são focados em negócios.
São workshops, oficinas e programas nas empresas, ou "in
company". A verba anual para todos os cursos de moda, o que
inclui a faculdade, já passa dos R$ 6 milhões.
A instituição
abriu, no mês passado, a uma só vez, cinco novos cursos
na área têxtil: computação gráfica
aplicada à estamparia; desenvolvimento de produtos; desenho
de estamparia para o segmento de cama e mesa; criação
de motivos; cores e desenhos em estampas. O objetivo é auxiliar
o dia-a-dia de consultores de moda, estilistas, gerentes de produto,
compradores, assistentes de compra e representantes em questão
delicada: o relacionamento com os fornecedores. Como saber se o
preço cobrado é justo se não se sabe identificar
que tipo de tintas, fibras e maquinário foram usados na fabricação
do tecido?
A necessidade
dos assuntos é detectada a partir do relacionamento com executivos
que ocupam postos-chave nas empresas. Um termômetro e tanto.
Que o diga Olavo Bertoni, gerente comercial da Camasmie, indústria
especializada em jacquard para decoração e que há
dois anos passou a fabricá-lo também para o segmento
de moda. Como vestir uma pessoa não é o mesmo que
"vestir" um sofá, começaram os problemas.
"Não existia no mercado um engenheiro de produto apto
a resolver a questão do encolhimento", conta Bertoni.
"Aprendemos a duras penas que cada desenho se comporta de maneira
diferente."
Os desafios
foram sanados e a Camasmie obteve a carta-patente para o desenvolvimento
do jeans-jacquard até 2011. Por conta das dificuldades, a
Camasmie, que chegou a desenvolver tecidos para 12 estilistas na
edição de inverno da SPFW, na de verão optou
apenas por Marcelo Sommer.
Para a consultora
Patricia Suplicy, da Oficina de Moda, tudo pode ser uma questão
de linguagem. Seu trabalho é ajudar fiações,
tecelagens e malharias a melhorar o diálogo entre profissionais
das áreas técnicas e de criação, universos
tão distintos. "O estilista precisa de pessoa que traduza
sua vontade ao setor têxtil e vice-versa", aposta ela,
que ministra cursos adequando as duas visões.
Os cursos de
moda foram impulsionados pela entrada dos produtos importados. "Quando
comecei minha carreira no ramo têxtil, qualquer coisa, mesmo
sem qualidade, vendia", conta Miriam Levinbook, com duas décadas
e meia de atuação no setor. Nas confecções
era típica, prática que ainda persiste nas pequenas,
uma única pessoa encarregar-se de todo o processo. "Compravam
uma máquina, as linhas, os tecidos, desenhavam a coleção
e ainda faziam a propaganda", lembra André Robic, diretor
executivo do Instituto Brasileiro de Moda (IBModa). Anacronismo,
destaca André, que não encontra vez nos tempos atuais,
em que montar uma confecção é tarefa que não
sai por menos de R$ 200 mil e requer profissionalismo. Na ânsia
de controlar a empresa inteira, eram arremedos de Glauber Rocha
e seu propagado - e muito mais bem-sucedido - uma idéia na
cabeça e uma câmera na mão.
(Gazeta Mercantil
- 08/08/02)
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