Brasileiros têm várias opções de bolsa para se inscrever em 2008

O começo do ano é o melhor momento para se decidir enfrentar o processo de seleção para uma bolsa de estudos de pós-graduação no exterior. A tarefa não é das mais fáceis. A concorrência lembra a relação candidato/vaga encontrada nos vestibulares, a lista de documentos a serem apresentados é extensa e trabalhosa e os testes dificílimos. Mas o retorno garantido no upgrade da carreira e a possibilidade de obter apoio para atenuar um gasto anual que pode partir dos US$ 40 mil, dependendo da faculdade, do curso e das despesas pessoais valem a participação nessa verdadeira maratona.

Para Alina Correa, diretora-geral do portal Universia Brasil, o fato de o país ter entrado definitivamente na rota das instituições estrangeiras, 2008 deve registrar um crescimento no número de vagas oferecidas a estudantes brasileiros. "Nos últimos três anos, o mercado se aqueceu em razão da globalização e do crescimento da América Latina como um todo no cenário internacional, com o aumento de investimentos de companhias estrangeiras. Outro ponto diz respeito à evolução ocorrida dentro do processo de educação continuada de executivos, onde a formação deixou de se esgotar com a conclusão do curso de graduação", diz.

A percepção da executiva é de que o número de programas ofertados no portal cresce ano a ano. Em 2006, afirma, foram cerca de 160. No ano passado, 250, e embora não tenha previsão para 2008, Correa acredita que neste ano o ritmo deverá se manter e apresentar crescimento sobre 2007. A demanda registrada pelo portal Universia é alta. A média mensal de acessos no canal específico para bolsas e financiamentos do website, que permite ao usuário localizar oportunidades de bolsas de estudo por país, curso e seu perfil, soma 5,5 milhões ao mês.

Na avaliação de Thaís Xavier, diretora-executiva da Fundação Estudar, não apenas a América Latina, mas o Brasil também se tornou foco das instituições estrangeiras. "Muitas universidades norte-americanas criaram agenda fixa para recrutamento de estudantes brasileiros, muito pelo fato da excelência do profissional daqui ser reconhecida internacionalmente", afirma.

Além da Estudar, a Fundação Konrad Adenauer e o Instituto Ling, entre outros, já estão com o processo de seleção de bolsas de estudos aberto para várias instituições internacionais, desde que o interessado já tenha recebido a aprovação da faculdade estrangeira.

Já a Fundação Carolina, de origem espanhola, que sempre destinou bolsas de estudo para executivos latino-americanos, a partir deste ano, investirá também em brasileiros interessados em cursos de graduação e de curta duração, afirma a diretora do Universia.

Além de bolsas para escolas estrangeiras, a Fundação Estudar também oferece bolsas para alguns cursos ministrados por escolas brasileiras, como programa de mestrado na Fundação Getúlio Vargas (Eaesp), mestrado em administração na PUC do Rio de Janeiro, e mestrado em administração, no Coppead.

O advogado Rodrigo Vella, hoje sócio do escritório Vella Buosi Advogados, participou de um processo na Fundação Estudar quatro anos atrás ao mesmo tempo em que tentava ser aprovado para o tão sonhado LL.M. (Master in Laws), na Georgetown University (EUA). "Foi um período longo e difícil. Lembro que muitas pessoas próximas chegavam a me desestimular pelo grau de dificuldade do processo. Mas ao fim tive a certeza de que foi muito bem montado. O saldo não poderia ter sido melhor, foi extremamente compensador e faria tudo novamente", relembra Vella, cuja pós foi iniciada em 2003.

Segundo Vella, por conta do LL.M. ele pôde prestar e ser admitido no BAR (equivalente à OAB no Brasil, mas com caráter estadual) e trabalhar num escritório em Nova York por três anos. De volta ao Brasil em 2006, investiu na abertura de seu próprio escritório especializado em fusões e aquisições, mercado de capitais e mercado internacional. "O processo de obtenção de bolsa é muito rico. No meu caso, ampliou muito minha rede de contatos e desenvolveu meu lado empreendedor. O fato de eu ter estudado e trabalhado no exterior, numa universidade muito reconhecida serviu ainda como um grande diferencial na minha carreira e imagem", diz. Vella é hoje, dentro da Fundação Estudar, um dos entrevistadores de candidatos no processo de seleção para bolsas de estudo.

A executiva Julia Chen compartilha experiência semelhante. Depois que saiu do país para cursar seu MBA, bancado pelo Instituto Ling, na Universidade de Chicago, ela não voltou mais para cá. A carreira de Julia no mercado financeiro começou ainda no segundo ano da FEA-USP, quando ela ingressou como estagiária no CCF Brasil e foi efetivada pouco tempo depois como analista. Antes de partir para os Estados Unidos, a executiva trabalhava no Banco Votorantim. Já decidida e aprovada no MBA no exterior, buscou uma bolsa de estudos no Instituto Ling porque o investimento que havia destinado para o estudo não daria para cobrir todas as despesas.

"O processo foi semelhante ao de uma entrevista para emprego. Tinha uma primeira fase, com análise do currículo, experiências profissionais, pessoais e documentação e depois dinâmicas de grupo e entrevistas", relembra.

Quando terminou o MBA em Chicago, Julia foi convidada pelo Unibanco para trabalhar em Nova York, na mesa de operações da renda fixa internacional. Mais de dois anos depois, o Itaú comprou seu passe e a convidou para abrir o escritório da Itaú Corretora, em Hong Kong, de onde ela concedeu entrevista para o Valor por email. "Achei que seria um grande desafio a ser vencido e aceitei o convite."

Para a executiva do Itaú, o saldo obtido foi definitivamente positivo em todos os sentidos. "Com a bolsa de estudos pude realizar o curso, ampliar o networking e ter acesso às ultimas tendências e pesquisas relacionadas aos campos do trabalho de finanças, recursos humanos e marketing, entre outros", relata entusiasmada.

As histórias de Julia e Vella, que conseguiram bons empregos no exterior logo que terminaram a pós, não são exemplos isolados. Segundo a executiva da Fundação Estudar, dos 364 bolsistas já apoiados pela instituição, entre 20 a 25 não retornaram ainda ao Brasil e estão morando e trabalhando ou nos Estados Unidos ou em algum país da Europa. Para Thaís Xavier, ao contrário dos últimos anos, quando apenas bolsas para MBA e LL.M. eram muito procuradas por executivos brasileiros, atualmente profissionais de áreas diferentes como relações internacionais, políticas públicas e educação passaram também a buscar bolsas de estudo para complementarem sua qualificação profissional.

De olho na movimentação do mercado, o Instituto Ling fechou uma parceria diferente com a Georgetown University e que já está com o processo de seleção aberto para este ano também. Trata-se do curso The Global Competitiveness Leadership Program, com duração de 16 semanas, com mais de 600 horas. Voltado para o desenvolvimento de lideranças nos setores público e privado na América Latina, o curso é destinado a profissionais graduados em qualquer área. A bolsa é integral e a passagem aérea é bancada pelo próprio instituto, segundo Sandra Moscovich, coordenadora do Instituto Ling. "Selecionamos dois candidatos para a própria universidade fazer o teste final e para nossa surpresa os dois foram aprovados e deverão começar o curso ainda neste mês", diz a executiva da instituição, que oferece bolsas para outros cursos também.

Quem prefere estudar na Alemanha, pode procurar a Fundação Konrad Adenauer, com sede no Rio de Janeiro. Não é preciso ser descendente de alemão, mas é preciso dominar um nível específico do idioma assim que sair a aceitação da bolsa. Segundo Wilhelm Hofmeister, presidente da instituição, ele próprio um ex-bolsista dela, quem viaja com bolsa de estudos da Adenauer tem ainda a possibilidade de participar de seminários culturais e profissionais, realizados na Alemanha e também viajar. "Nosso processo de seleção é realizado não apenas por professores alemães que vêm ao Brasil para essa finalidade, como também por professores de instituições renomadas daqui", diz.

Apesar de janeiro ser o melhor mês para pensar em buscar uma bolsa de estudos para estudar fora do Brasil, a melhor época na vida para investir nesse sonho, segundo Vella, é quando ainda não se criou raízes profundas tanto na área profissional como pessoal. "Tenho planos de fazer doutorado, mas será no Brasil. Já tenho dois filhos e agora tenho meu próprio escritório, são vínculos muito fortes que não me permitem um afastamento mesmo que temporário."

(Valor)

 
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