Escolas buscam os economistas do futuro

Dados do Ministério da Educação (MEC) mostram que caiu a procura por cursos de Economia nas escolas de ensino superior. Para continuar atraindo alunos, faculdades renomadas na área como a Unicamp, FGV, USP e PUC estão reformulando os currículos para oferecer um curso que forme economistas em sintonia com o novo quadro financeiro mundial.

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Escolas buscam os economistas do futuro

O ibope dos economistas não anda muito bom. Pelo menos, para boa parte dos jovens que estão escolhendo sua profissão no país. Os números do MEC comprovam que a carreira anda perdendo espaço na preferência da nova geração em relação a cursos correlatos, como o de administração de empresas.

Até os alunos que têm um gosto especial pela matéria, parecem estar mais interessados em abreviar o caminho para o mercado de trabalho, do que em ditar soluções para a economia brasileira.

Preocupadas com essa evasão nos cursos econômicos, as melhores escolas do país estão flexibilizando currículos e tentando novas formas de resgatar o interesse dos estudantes. E essa preocupação não está restrita ao meio acadêmico.

Na última quarta-feira, durante o XV Congresso Brasileiro de Economistas, um dos pontos levantados pela Comissão de Valorização Profissional e Mercado de Trabalho (CVPM) do Conselho federal de Economia, foi justamente uma proposta de mudança curricular nos cursos. "O economista é hoje o mico leão dourado das profissões", diz Nilton Pedro da Silva, coordenador da comissão. "Mas a sociedade ainda irá reagir para preserva-lo".

A constatação de que em muitas empresas os economistas estão perdendo espaço para engenheiros e administradores não é nova. Mas o que a categoria não quer é que isso afugente os futuros profissionais. A reação das instituições de ensino a essa questão tem sido mostrar que além de uma boa base analítica e matemática, que se equipara à dos engenheiros, os alunos em seus cursos poderão encontrar matérias relacionadas à realidade do mercado de trabalho.

A chefe do departamento de economia da Faculdade de Economia e Administração (FEA), na Universidade de São Paulo (USP), Elisabeth Farina, diz que hoje o seu curso já oferece 30 matérias optativas, que tem o objetivo de fazer essa ponte com o mercado. "Estamos sempre criando novas disciplinas e apostando nessa flexibilidade", diz.

O curso da USP está entre os 12 do país que conseguiram obter a pontuação máxima, a letra A no Provão do MEC, desde que a avaliação começou em 1999. A escola forma hoje 120 economistas por ano.

"A demanda vem caindo porque os cursos de economia perderam o foco nos anos 80, mas estamos passando por um momento de reestruturação", admite Roberto Ellery, coordenador do curso de economia da Universidade de Brasília (UNB), também nota A consecutiva no Provão. Ele conta que cursos novos, como o de relações internacionais, estão atraindo mais candidatos, apesar do prestígio do curso de economia da UNB, criado há 40 anos. "Eles acreditam que esses cursos abrem mais possibilidades de emprego", diz.

O economista, ex-ministro da Educação, ex-reitor da Unicamp, Paulo Renato Souza acredita que essa troca de papéis entre administradores e economistas não é um problema. "Pedro Malan é engenheiro, Luiz Gonzaga Belluzo e João Manuel Cardoso de Mello são advogados", diz. Para ele, o fundamental é ter vocação.

Antonio Freitas, diretor das faculdades IBMEC, do Rio, acredita que muitas vezes o aluno entra no curso de economia sem saber direito o que irá encontrar. "A maioria não quer ser um Simonsen", diz. Tornar-se um economista teórico, uma referência para a sociedade, afinal, não é fácil. "Isso demandará cursos de pós-graduação, além de um bom marketing pessoal e os jovens têm pressa", diz. "No nosso caso, quase 90% dos estudantes querem atuar no mercado financeiro", conta.

Por esta razão, o curso do IBMEC, também quatro vezes nota A no Provão, tem aumentado o número de matérias sobre finanças e mercado de capitais. Freitas vê hoje boas opções de trabalho para os alunos nas áreas de planejamento das companhias, em diversos setores, em especial no de serviços. Para ele, prospectar os valores do dólar em relação às exportações para o próximo ano, por exemplo, é uma coisa que um economista saberá fazer melhor.

A economista Ana Novaes, que trabalhou por cinco anos no Banco Mundial e que hoje é conselheira da Companhia de Concessões Rodoviárias, diz que a intuição do economista é uma característica insubstituível. No seu doutorado, na Universidade de Berkeley (EUA), ela conviveu com vários colegas engenheiros. "Nós economistas temos o raciocínio mais lógico, não apenas matemático e essa é uma grande diferença", diz. Ana, que já deu aula de macroeconomia na PUC do Rio, diz que os bons cursos, de fato ficaram mais "matematizados" e formais.

Ana acredita que o economista, cada vez mais, precisará contar com uma formação filosófica e jurídica ampla. Ela mesma decidiu afastar-se do mercado financeiro no último semestre para cursar direito na PUC-Rio. "Às vezes os economistas criam planos, que depois irão esbarrar em questões jurídicas", diz. "Uma formação completa será fundamental para quem for lidar com questões públicas". Vale lembrar que a área governamental sempre será um bom campo de trabalho para esses profissionais.

"O comportamento ético e o comprometimento social são essenciais também para quem decidir atuar em empresas", lembra a professora Maria Alejandra Caporale Madi, coordenadora do curso de graduação da Unicamp, criado há 30 anos e um dos mais concorridos do país. São 22 candidatos disputando uma das 105 vagas anuais. Ela defende uma formação mais pluralista e diz que a escola, desde 1998, vem reformulando o conteúdo do curso para reforçar a sua base em história, economia internacional e brasileira.

É com este mesmo intuito de formar economistas com uma formação mais plural, que a FGV está lançando no próximo ano a sua faculdade de economia. À frente dessa missão está Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda de São Paulo. Formado em administração de empresas, na própria FGV, ele tem percorrido escolas e cursinhos com o intuito de assinalar para os jovens a importância da missão "cívica" dos economistas. "Está na hora do jovem reinventar a utopia", diz.

Na opinião de Nakano, as escolas esvaziaram o debate entre os estudantes. Ele critica o processo passivo de aprendizado dos alunos nas salas de aula e defende uma aplicação mais prática do pensamento lógico e filosófico na economia. Na nova escola, ele pretende incentivar pesquisas e estudos de casos brasileiros. Sua peregrinação em prol da retomada do interesse do jovem pela profissão, parece estar surtindo efeito. O curso já conta com 500 inscritos para disputar as primeiras 50 vagas.

O fato da nova geração estar privilegiando os cursos de administração em detrimento dos cursos de economia não é um fenômeno brasileiro. O economista José Sheinkman, que atualmente ministra aulas no curso de graduação em economia na Universidade de Princeton, diz que nos Estados Unidos, a preferência tem sido a mesma. "Mesmo aqueles que se formam em economia, depois fazem um MBA ou mestrado em políticas públicas e acabam mudando de área", diz. Não vão trabalhar como economistas.

Ele acredita que hoje as ciências econômicas vivem um momento bastante frutífero, importando idéias da sociologia, psicologia e antropologia. "Através dessa troca de informações, estamos conseguindo exportar idéias de toda natureza". Isso vem contribuindo para abrir novas frentes de trabalho junto a áreas como educação, meio ambiente, entretenimento, entre outras. "Existem muitos caminhos a seguir", diz.

(Valor Econômico – 15/09/03)

 
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