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Escola
pública precisa oferecer orientação profissional
Julia Dietrich
“Diante do Programa Universidade para Todos
(ProUni) e das ações afirmativas, a escola pública
deve voltar a pensar em uma maneira de auxiliar o estudante a escolher
sua formação universitária”. A constatação
é do pedagogo e diretor do Núcleo de Atendimento e
Consultoria em Educação (Nace) Silvio Bock.
Atualmente, reuniões em grupo, testes, dinâmicas,
estágios e seções de psicoterapia são
instrumentos utilizados para ajudar o estudante que sai do ensino
médio a escolher a carreira que deseja seguir. A decisão
não é nada simples e fica ainda mais complicada para
o estudante com menor poder de renda. Além de menor acesso
à universidade, ele encontra grande dificuldade ao buscar
ajuda na hora de decidir qual carreira seguir.
Bock conta que há 20 anos a rede pública
de ensino de São Paulo oferecia orientação
profissional aos alunos, porém, por uma crítica teórica
e pela própria redução de custos, a ação
deixou de ser realizada. Hoje, ele diz que o ensino público,
além de sua característica deterioração,
também carece de mecanismos que permitam ao estudante olhar
para si mesmo e decidir sobre sua futura vida profissional.
Seja de escola particular ou pública, o estudante
padece dos mesmos males “pré-vestibulandos” e
do início da fase adulta. Ansiedade, indecisão e medo
são os sintomas mais comuns da faixa etária. “Por
isso a orientação é necessária. É
uma época em que o jovem deve se concentrar na sua própria
pessoa, entender suas vontades, desejos e angústias. Pensar
sobre o próprio mercado de trabalho e sobre as inúmeras
profissões existentes”, explica Bock.
Escolher uma profissão é tão
difícil que muitos universitários deixam os cursos
logo nos primeiros anos. Segundo um estudo da Universidade de São
Paulo (USP), 44,5% dos alunos abandonam os cursos no primeiro semestre.
Mais de 30% desistem por não gostarem do curso e 13,4% o
largam por insatisfação com o mercado de trabalho
e com a carreira que iriam seguir.
O coordenador educacional do Colégio Móbile,
Blaidi Sant’anna, vê a orientação profissional
como a hora em que o jovem pode refletir sobre sua própria
vida. Por isso, a escola particular, localizada na zona sul da cidade
de São Paulo (SP), oferece no contra-turno escolar o serviço
de orientação. O trabalho começa ainda no primeiro
ano do Ensino Médio, fazendo com que os alunos, durante o
curso regular, pesquisem as diversas profissões que existem
e façam análises dos diferentes campos de trabalho
e mercado. No terceiro ano, eles se reúnem após as
aulas em grupos para discutir as dificuldades que encontram no processo
e intensificar as atividades do processo de orientação
profissional. Também nesta época, eles fazem visitas
às principais universidades da cidade, acompanhados pelos
ex-alunos da escola que estão cursando diferentes carreiras
nas instituições.
Para Sant’anna é fundamental que os
alunos possam ver no ensino superior a possibilidade de abertura
dos leques profissionais e não o contrário. “Nós
tentamos mostrar que alguém que curse psicologia não
tem que necessariamente trabalhar na área clínica.
Eles fazem levantamento de histórias sobre pessoas que migraram
de áreas, mesmo seguindo cursos universitários que
determinariam outra atividade profissional”, explica.
No Colégio Suíço-brasileiro,
também da zona sul paulistana, a escolha profissional é
trabalhada como um percurso a ser caminhado. Lá, também
desde o primeiro ano do Ensino Médio, os jovens começam
a discutir os campos de profissão existentes e a pensar sobre
com o que gostariam de trabalhar. Na 10ª série (equivalente
ao segundo ano do ensino médio), os jovens passam então
por um estágio de um mês, acompanhando profissionais
ou trabalhando em empresas de acordo com a vontade que apresentam.
“Nesse período eles deixam de ter aulas na escola,
mas são supervisionados por um professor. Ao final do processo,
apresentam um relatório de estágio e trocam as experiências
vividas com os colegas”, conta o coordenador do programa de
estágios da escola, Rogério Jorge.
Jorge explica que o contato com a vida do trabalho
ainda na adolescência possibilita que reavaliem suas decisões
que, muitas vezes, seguem aquilo determinado pelos pais. “Alunos
que são filhos de empresários, por exemplo, muitas
vezes voltam do processo de estágio entendendo que não
é com aquilo que gostariam de trabalhar. Outras vezes, porém,
saem certos da escolha que farão”, observa.
Porém, em ambas as escolas a mensalidade
não é algo a ser pago com facilidade pela população
brasileira que, majoritariamente, freqüenta o ensino público.
Por isso, Bock pontua a idéia de que o aluno da rede pública
passa por uma dupla-exclusão. “Embora seja super a
favor das ações afirmativas, vejo que permanece a
sensação de que a universidade é uma dádiva,
um presente e não um direito. E, por isso, é como
se o jovem mal pudesse escolher aquilo que quer fazer da sua vida”.
Ele explica que vê os jovens das escolas públicas
reproduzindo o slogan “o que vier está bom”.
“Eles não percebem que a escolha profissional é
um direito do cidadão”, reitera. Na mesma perspectiva,
Sant’anna pontua que a escola pública deve centrar
esforços em fazer o estudante discutir as diferentes profissões.
“Com poucos recursos a rede pública pode montar grupos
de discussões e realizar atividades de pesquisas”,
observa. Em São Paulo, as universidades públicas e
algumas privadas realizam visitas guiadas com os estudantes e na
USP e na Pontifícia Católica de São Paulo (PUC-SP),
por exemplo, existe serviço de orientação profissional
gratuito.
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