Estudantes tornam-se empresários antes do término da graduação

Uma nova geração de empreendedores está surgindo no país. Ainda cursando a graduação, esse estudantes realizam pesquisa científica e alguns já montaram sua própria empresa.

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    - Universidade estimula, mas precocidade causa preocupação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ainda estudantes e já empresários

Tony Minoru Tamura Lopes, 20 anos. Rodrigo Carvalho Rezende, 23 anos. Wagner Yukio Matsushita, 24 anos. Todos estudantes. Todos empresários. Todos sócios da ToGo, empresa de software criada nos corredores do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (IC/Unicamp) em agosto do ano passado. A receita anual do pequeno empreendimento chegará a R$ 150 mil, o dobro do faturamento obtido nos poucos meses de vida em 2003. Lopes, Rezende e Matsushita e outros jovens formam um novo perfil, a dos estudantes-empreendedores, envolvidos com pesquisa, inovação e, sobretudo, com disposição de criar o próprio emprego.

É verdade que a infra-estrutura para criar empresas ligadas ao mercado de tecnologia da informação é infinitamente menor do que a necessária para a criação de outros tipos de negócios. Mas não quando se fala de capital intelectual. A nova geração de empreendedores faz parte de uma elite do ensino superior brasileiro, estágio alcançado por apenas 1% a 2% da população. César Gon, proprietário da Ci&T, empresa que hoje emprega 200 pessoas e deve faturar mais de R$ 15 milhões em 2004, faz parte da chamada primeira geração de “filhas da Unicamp”, legenda que ficou conhecida depois que o reitor da universidade, Carlos Henrique de Brito Cruz, fez um levantamento para identificar ex-alunos que se tornaram empresários.

Descobriu que as tais ‘filhas’ respondem hoje por um faturamento de R$ 1 bilhão por ano. “É a participação da universidade não apenas na formação de quadros acadêmicos e políticos, mas na formação de empreendedores”, diz Cruz. Nesse rastro pululam novos empreendedores, o que de certa forma alimenta o desenvolvimento tecnológico brasileiro dentro da chamada Nova Economia.

O próprio Gon lembra que parte do interesse em abrir um negócio assentava-se na possibilidade de criar inovações, conceito em voga em nosso tempo. “Qual era a opção? Ser empregado de uma multinacional onde receberia tudo pronto e sequer teria o direito de discutir um problema? Isso não me parecia muito desafiador”, diz Gon.

Tiago Macedo Dias e Daniel Felix Ferber concluíram o curso em 2003 e continuam no ambiente acadêmico. O projeto para iniciação científica foi o impulso inicial. “A pesquisa acadêmica dentro da graduação foi importante para apreender o conhecimento científico, base para a construção de uma empresa com inteligência”, explica Ferber. Ambos respondem agora pela Locus Tecnologia e Otimização, empresa que nasceu desta experiência.

O software criado pelos dois foi desenvolvido para o Hospital de Clínicas da Unicamp. Tem a função de organizar a escala dos funcionários da enfermaria, operação complicada que leva tempo e nem sempre satisfaz a todos. O sistema, que já integra o portfólio da Locus, recebe informações sobre todos os funcionários, como, por exemplo, dias em que preferem folgar ou os horários ou dias em que estão indisponíveis.

O software processa os dados e cria uma opção de escala que respeita as necessidades pessoais, mas com isonomia na carga de trabalho. O modelo matemático aplicado ao software foi desenvolvido ainda durante a iniciação científica – demonstração clara sobre como pesquisas podem virar produtos. Este é umaspecto deste novo momento: o esforço de aproximar o mundo acadêmico
da realidade econômica.

Ferber desenvolve agora, durante o mestrado, outro projeto: um software que dirá a uma companhia telefônica como otimizar uma rede, ou como tornar mais próximos os clientes de uma central telefônica. O projeto é desenvolvido em parceria com o Centro de Pesquisa em Telecomunicações (CPqD), de Campinas. PRECOCIDADE. Uma característica comum entre estas empresas é a precocidade.

A ToGo talvez seja um exemplo extremo. Os três sócios ainda estão na graduação, mas criaram uma empresa para cumprir dois contratos. Criada em agosto do ano passado, a ToGo desenvolve hoje três sistemas para a Magnetti Marelli, uma das grandes autopeças do País, para controle de qualidade, acompanhamento do retorno de peças de clientes e ajuda na gestão de projetos – nesta última área, a pequena ToGo participará de uma concorrência mundial da Marelli.

O segundo cliente é a Fundação Bradesco, na qual a ToGo se encarregará de criar sistemas de supervisão das unidades escolares espalhadas por todo o País, auxiliar no desenvolvimento de componentes de software e um terceiro projeto, a criação de um portal para alunos e professores. TonyMinoru Tamura, companheiro de Rezende no curso e na empresa, destaca o fato de a universidade estimular o empreendedorismo, o que pode ofertar à própria universidade futuros acordos de cooperação. Parece conversa de multinacionais, mas a pequenina ToGo tem no “planos de negócio” a perspectiva de, em breve, fechar um acordo de “cooperação técnico-científica” na qual se dispõe a financiar bolsas de estudos para alunos da universidade. “Acho que este será um investimento necessário nos próximos anos”, diz Rezende.

Os três sócios sabem que empresas de base tecnológica não sobrevivem muito tempo sem investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Nada inferior a 15% do faturamento é razoável neste negócio. Esse parece ser o tal ciclo virtuoso, agora abreviado.

(O Estado de S. Paulo)

 

Universidade estimula, mas precocidade causa preocupação

O professor e diretor do Instituto de Computação da Unicamp, Ricardo Anido, não se conforma com a precocidade com que alunos buscam negócios mesmo com a formação ainda inicial e parcial. Embora a universidade estimule essa postura, Anido confessa preocupação com a pressa.

A própria universidade mantém atenção em relação aos estágios, problema difícil de controlar. A solução passa por acordos com empresas, que se dispõem a criar
laboratórios no ambiente da universidade. Neste caso, afirma Anido, os estágios podem ser melhor acompanhados. A regra interna é a de que estudante primeiranista não pode fazer estágio, para evitar dois problemas. O primeiro é o uso de mão-de-obra barata por parte das empresas, que em geral montam uma tropa de olheiros para atrair jovens talentos.

O segundo e mais problemático é o envolvimento do aluno em trabalhos que roubam parte do tempo necessário ao estudo. Mais importante do que o estágio é a iniciação científica. “Esta é uma forma muito eficaz de colocar o aluno na prática da pesquisa. Isso o ajuda a não ter medo e enfrentar problemas e de buscar uma solução”, afirma Anido. O resultado é a construção de produtos a partir de trabalhos iniciados nestas pesquisas. A grade do curso, de acordo com Anido, também ajuda na criação dos empreendedores, com 30% das horas-aula preenchidas com disciplinas eletivas. O IC tenta trazer para o curso a disciplina empreendedorismo . “Não se trata de forçar os alunos a serem empreendedores, mas mostrar uma possibilidade”, comenta Anido.

Ex-vendedor, Norival Bonamichi tornou-se o mais novo exemplo de empreendedor brasileiro. O presidente da Ouro Fino Saúde Animal, empresa de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, vai receber o 7.º prêmio Empreendedor do Ano. Como Master of Business do concurso organizado pela Ernst & Young, Bonamichi será o representante brasileiro na escolha mundial em 2005, em Montecarlo. Bonamichi começou como vendedor. Depois, passou a distribuir produtos veterinários na região de Ribeirão Preto. Com o amigo Jardel Massari, começou a fabricar os próprios produtos veterinários. Hoje, exporta para 24 países e tem uma das dez maiores empresas de saúde animal do Brasil.

(O Estado de S. Paulo)

 
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