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Escolha da carreira é orientada
pelo mercado
A prioridade
dos jovens que estão ingressando hoje no mercado de trabalho
é para as carreiras que, na visão deles, oferecem
mais chances de sucesso nesta nova ordem econômica. Mas especialistas
alertam: tal atitude pode ter um efeito adverso, principalmente
quando aptidão, história de vida e desejos de realização
ficam em segundo plano ou são ignorados.
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Escolha da carreira é orientada
pelo mercado
O que a queda
do Muro de Berlim tem a ver com o crescimento do índice de
desistência nas universidades brasileiras? Pode parecer uma
questão daquelas cabeludíssimas de vestibular, mas
é fato.
Desde que ruiu
a separação entre as Alemanhas, em 1989, simbolizando
o fim da Guerra Fria e o começo do processo de globalização
e de mudanças profundas no mercado de trabalho, os vestibulandos
passaram a usar uma espécie de critério neoliberal
na hora da escolha do curso.
A prioridade
é para as carreiras que, acreditam, oferecem mais chances
de sucesso nesta nova ordem econômica. Assim, aptidão,
história de vida e desejos de realização ficam
em segundo plano ou, simplesmente, são ignorados.
Não há
dados oficiais nem estudos conclusivos, mas especialistas afirmam
que os índices de desistência no ensino superior no
país são recordes -entre 30% e 40%, incluídas
as instituições particulares, em que o preço
é mais um fator que pesa na desistência. E tais índices
estão relacionados, entre outros, a escolhas feitas com base
apenas na possibilidade de um futuro tipo comercial de carro importado,
cujos valores que mais pesam são dinheiro, status e prestígio.
"Há
20 anos, os jovens queriam mudar o mundo, hoje querem ganhar dinheiro",
diz a psicóloga Teresa Schiff, especializada em psicopedagogia
pelo Instituto Sedes Sapientiae e que trabalha com orientação
vocacional desde 1986. Ela identificou essa tendência há
cerca de dez anos entre os indecisos que atende e diz que ela se
acentuou nos últimos cinco anos.
O pedagogo Silvio
Bock, diretor do Nace Orientação Vocacional e Redação,
diz que os jovens vivem angústias que outras gerações
não viveram. "Até a década de 80, as novas
gerações conseguiam ultrapassar ou, ao menos, igualar
as condições em que seus pais viveram. De lá
para cá, as pesquisas mostram que os filhos têm dificuldades
até para reproduzir o padrão dos pais", diz Bock.
Para o pedagogo,
o discurso neoliberal, que valoriza o individualismo, leva o jovem
a pensar que competência, esperteza e habilidade são
suficientes para garantir trabalho. "Não há outro
discurso nos meios de comunicação se contrapondo a
esse, e o lugar que deveria discutir a escolha profissional, que
é a escola, faz pouco ou nada nesse sentido", afirma.
Para ele, a boa escolha é a que leva em conta o maior número
de influências -ou determinações, como prefere-
sofridas pelo jovem.
A psicóloga
Maria Célia Lassance, coordenadora do Serviço de Orientação
Profissional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
e presidente da Associação Brasileira de Orientadores
Profissionais, afirma que escolhe bem quem consegue adequar seus
desejos à realidade do mercado. "Na base da escolha
devem estar estrutura familiar, normas, valores e aptidões.
Mas também não se pode desconsiderar que a questão
do mercado se impõe, vivemos tempos difíceis",
diz a psicóloga.
Durante a fase
de inscrição para o vestibular da UFRGS, o Serviço
de Orientação Profissional faz um plantão para
orientar os candidatos. Entre os cerca de 50 mil inscritos para
o concurso, pelo menos 2.000 estão atrás de informações
que deveriam ter recebido muito antes.
A desinformação
abrange desde casos folclóricos, como o da garota moderninha
que queria se inscrever em ciências atuariais porque acreditava
que o curso versasse sobre temas da atualidade, até o estudante
absolutamente consciente de sua escolha - psicologia organizacional,
voltada para a atuação em empresas -, mas no lugar
errado: o currículo da UFRGS é direcionado para a
área clínica.
"Esses
são dois exemplos emblemáticos dentre as razões
que contribuem para a evasão", diz Lassance, que acrescenta
a necessidade de trabalhar como terceira causa.
Com base na
experiência de 29 anos como professora universitária,
a filósofa Dulce Critelli, da PUC-SP, e coordenadora do Espaço
Existentia, diz que os alunos que pensam a carreira só do
ponto de vista do sucesso financeiro acabam se transformando em
profissionais medíocres e têm dificuldade em conseguir
colocação.
"Quem tem
medo de desapontar os pais e opta pela carreira que eles escolheram
deve pensar que a culpa de trair a si mesmo é muito pior",
diz Critelli, apontando o autoconhecimento como primeiro passo.
"A filosofia ensina que esse processo de auto-esclarecimento
é terapêutico por si só." Ela lembra ainda
que é necessário ter lucidez para compreender que,
nos tempos atuais, uma pessoa vai ter muitas profissões ao
longo da vida.
Para ajudar
os indecisos, Teresa Schiff recomenda aos seus pacientes que escrevam
uma autobiografia, com a ajuda de informações dos
pais, avós ou tios. "O mais adequado é escolher
a carreira de acordo com a história de vida, mas o difícil
para o jovem é compreender o significado dessa história
para o futuro. Por isso esse exercício é importante."
Já Bock pede aos jovens que atende -cerca de 300 por ano-
que montem um projeto para suas vidas.
Quem tem a visão
do outro lado do balcão também concorda que os estudantes
estão deixando-se seduzir, sem crítica, pela possibilidade
de ascensão social via diploma universitário. E já
até se convencionou chamar os cursos mais procurados de "cursos
de mercado". Direito, administração e informática
são alguns deles.
"Nós
temos o perfil do profissional que as empresas buscam porque oferecemos
estágio em todo o país. Elas não querem profissionais
que procuram apenas boa remuneração. Aptidão
e gosto pelo que fazem são importantes porque geram compromisso
com o trabalho", diz a psicóloga Renata Mello, da equipe
de orientação profissional do Ciee (Centro de Integração
Empresa-Escola), que oferece orientação vocacional
gratuita.
Para quem ainda
não se conhece ou não reconhece suas aptidões
e preferências, Mello propõe prestar atenção
aos programas que mais atraem na TV, ao comportamento e às
características de quem escolhe para amigo e ao que gosta
de ler. "O cotidiano dá sinais, são informações
que contribuem para identificar habilidades e gostos", diz
ela.
À frente
do Serviço de Orientação Profissional da USP
desde 1981, Yvette Lehman diz ser comum o aluno se sentir desorientado
na faculdade porque o ensino médio no Brasil é muito
paternalista. "A universidade requer autogerenciamento, a liberdade
muitas vezes traz confusão ao aluno novo. A Poli, por exemplo,
criou a figura do tutor para ajudar o aluno a superar problemas
típicos do início", diz a psicóloga. No
terceiro ano, outro período crítico, a questão
é o fim do ciclo básico, com suas disciplinas mais
abrangentes, e o início do ciclo profissional.
Outra crítica,
dessa vez à universidade, vem do professor Eulálio
Figueira, da Faculdade de Filosofia da PUC-SP. "O jovem está
mesmo focado em mercado, mas a universidade também está
parada numa visão de décadas, até de séculos
passados. O aluno fica anos esperando por um diploma, e, ao fim
desse tempo, o mercado de trabalho já é outro",
diz.
Vale lembrar
que escolher a profissão não é sinônimo
de escolher o curso universitário, e que a universidade não
é o único caminho de acesso ao mercado de trabalho.
"Universidade não é instrução,
é algo para além disso. Falta coragem para dizer que
nem todo mundo precisa estar lá", diz Figueira.
A psicóloga
Maria Célia Lassance diz que é comum a UFRGS encaminhar
pessoas para os cursos oferecidos pelo Sesc, pelo Senai e por outras
instituições. "Nem todas as escolhas exigem o
curso universitário, é o mito da ascensão social.
Há outras formas de aquisição de habilidades",
diz.
(Folha de
S. Paulo - 27/02/03)
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