|
Estagiário cobra retorno para seguir adiante
Atenção
pode não ser tudo, mas é disso, principalmente, que
os estudantes sentem falta nos programas de estágio das empresas.
A revelação vem dos resultados preliminares de uma
enquete feita em julho pelo Lab SSJ (empresa de treinamento) e pela
consultoria Cia. de Talentos, obtida com exclusividade pela Folha.
Leia
mais:
- Estagiário cobra retorno para seguir adiante
- Empresas inovam foco dos programas
- Jovem quer autonomia em casa e no trabalho
- Cursos tentam aproximação com empresas
- "Enviar currículo é um dos piores
métodos"
Estagiário cobra retorno para
seguir adiante
Atenção
pode não ser tudo, mas é disso, principalmente, que
os estudantes sentem falta nos programas de estágio das empresas.
A revelação vem dos resultados preliminares de uma
enquete feita em julho pelo Lab SSJ (empresa de treinamento) e pela
consultoria Cia. de Talentos, obtida com exclusividade pela Folha.
A enquete, encaminhada
via internet, contabiliza as opiniões de 818 estagiários
de São Paulo e tem como objetivo "verificar a forma
como eles avaliam e interagem com os programas de estágio",
conforme explica Conrado Schlochauer, sócio do Lab SSJ e
coordenador do levantamento.
Vários
resultados apontam para o desejo de se sentir plenamente inserido
na organização, como a cobrança por mais retornos
sobre o desempenho profissional.
Quando questionados
a respeito do papel que o setor de RH (recursos humanos), o chefe
direto e o tutor ou o supervisor do estágio deveriam exercer,
os estudantes deram à mesma opção, "oferecer
"feedback'", altos índices.
A maior disparidade
está com o RH: 11,5% dos entrevistados apontaram que o setor
efetivamente oferece esse retorno, contra 44,8% que disseram que
ele não é dado. No caso do chefe direto, 17,7% recebem
"feedback", contra 30,8% que apontam a ausência.
Entre os tutores, 11,8% responderam que o retorno existe, e 27,7%,
que deveria existir.
Outro ponto
que reforça a carência dos jovens aparece no item "indicar
os melhores caminhos na empresa". O RH tem, de novo, maior
discrepância no quesito: apenas 8,6% responderam que essa
função é cumprida pelo departamento, contra
43,2% que gostariam que a preocupação existisse.
Sem estímulos
A estudante de administração e marketing E.C.M., 21,
que pediu para não ser identificada, estagia há três
anos em uma empresa de alimentação. Ela está
descontente e diz que só não trocou de estágio
porque não encontrou outro.
"O que
faço aqui não tem nada a ver com a minha área,
não há uma pesquisa para medir satisfação.
Minha bolsa-auxílio é a mesma desde que entrei, enquanto
a faculdade aumenta a cada ano."
"Já
falei que estou insatisfeita, mas, como o custo para me manter é
baixo, eles não vêem como positivo que eu cresça.
Não me sinto nem um pouco valorizada."
Mas há
exceções. Para dar orientação nessa
fase inicial, o programa de estágio da ABB (tecnologia de
energia e automação) prevê reuniões trimestrais
entre estagiários e RH. "Nessa fase, saber em que eles
estão bons e em que devem se desenvolver é fundamental",
afirma Alessandra Nogueira, analista de desenvolvimento humano e
organizacional.
Fernando Cristo
Durães, 24, acabou de se formar em engenharia elétrica
e vai ser efetivado na ABB após dois anos de estágio.
Dentre os pontos positivos, ele destaca justamente o suporte que
recebeu. "As pessoas foram muito prestativas, e o acompanhamento,
efetivo", afirma.
(Folha de
S. Paulo – 26/07/04)
Empresas inovam foco dos programas
Há falta
de sintonia entre o que um lado quer e o que outro oferece, mas
também existe quem esteja tentando reduzir esse ruído.
Enquanto várias
empresas têm como porta de entrada os cobiçados programas
de trainee, no BankBoston e na Procter & Gamble (bens de consumo)
o foco está no estagiário. "Preferimos turbinar
nosso programa de estágio e não temos mais o de trainee.
Para nós, é estratégico formar e atrair talentos
cedo, pois não vamos ao mercado contratar para vagas júnior,
partimos sempre dos estudantes", afirma Patricia Silvestre,
superintendente de RH do banco.
Na Procter &
Gamble, o procedimento é similar. "A seleção
de estagiários é rigorosa por ser o início
da carreira na empresa. A política é efetivarmos quem
atinge o desempenho esperado, pois, ao contratarmos o estudante,
prevemos uma vaga futura", diz Pedro Silva, diretor de relações
externas.
Já no
Grupo Pão de Açúcar foi criado o programa de
estágio interno que, na prática, remaneja funcionários
que sejam universitários e que atuem em área diferente
da de formação. Ele se desliga da função
de origem e fica ciente de que pode não ser efetivado.
"Minha
intenção sempre foi migrar para a área jurídica",
conta Josevaldo Durante Gueiros, 23, ex-líder de loja. "Estou
adorando a experiência", completa.
(Folha de
S. Paulo – 26/07/04)
Jovem quer autonomia em casa e no trabalho
Agir como "gente
grande", tendo autonomia para tomar decisões, é
a motivação ou o desejo- de muitos estagiários.
De acordo com a enquete feita pelo Lab SSJ e pela Cia. de Talentos,
30% disseram que a empresa deveria depositar mais confiança
neles e valorizá-los. Outros 25,7% afirmaram que o supervisor
direto precisaria acreditar mais no potencial dos universitários.
Segundo análise
de Rodolfo Barão, gerente de RH e responsável por
recrutamento e seleção na EDS (informática),
a atitude do estagiário mudou. "Hoje ele chega mais
maduro, quer iniciar logo a carreira e é mais profissional."
Rodrigo Teixeira
Testa, 26, cursa direito, está há três meses
na Unimed Seguradora e conta que, diferentemente do estágio
anterior, está colocando mais a "mão na massa".
"Minhas expectativas estão sendo atendidas, tenho contato
com ações judiciais diariamente e sinto que estou
me aprimorando", ressalta Testa.
A autonomia,
para o presidente-executivo do CIEE (Centro de Integração
Empresa-Escola), Luiz Gonzaga Bertelli, é gradual. "O
nível evolui à medida que o estudante se identifica
com a área e com os métodos operacionais. Ele ocupa
seu espaço aos poucos."
Para Rodrigo
Fonseca Bürgers, 22, a responsabilidade depende da liberdade
de lidar com o superior. "Quando acho que devo desenvolver
uma habilidade, converso com meu chefe. Ele sabe que estou aqui
para aprender."
No ponto
A gerente da Central de Estágios, Telma Moreira, lembra que
não há porque ter visão paternalista, mas que
o estagiário não deve ser cobrado como efetivo.
"Ele tem
de ter um bom relacionamento com o superior para, ao perceber que
suas atividades deixaram de ser de estagiário, discutir a
chance de ser efetivado."
Suzana Blum,
analista de RH da Siemens, faz coro: "Esse não é
o momento de cobrar resultados, e sim aprendizado. Nossos estagiários
participam de projetos com outros colaboradores e têm autonomia
para contribuir".
Christian Hoffmann,
23, faz estágio na área comercial da empresa e diz
que o ponto forte do programa é proporcionar crescimento.
"Desde o início apresentei relatórios, tive acesso
a projetos e minha responsabilidade foi aumentando. Aprendi a trabalhar
em equipe e a ter iniciativa."
(Folha de
S. Paulo – 26/07/04)
Cursos tentam aproximação
com empresas
Seguir o que
o mercado de trabalho dita no currículo de disciplinas práticas-
tem sido a fórmula de algumas universidades para se aproximar
das empresas.
Segundo a enquete
do Lab SSJ e da Cia. de Talentos, 20% dos estagiários disseram
haver uma correlação entre as atividades praticadas
e o conteúdo aprendido em classe, enquanto outros 27% responderam
que deveria existir esse alinhamento.
"Nosso
currículo foi elaborado em conjunto com as empresas. O grande
diferencial é que nosso aluno tem 40% de aulas práticas,
ele não precisa aprender "na marra", além
de disciplinas para entender o mercado, como gestão de carreira",
afirma Marcos Vono, gerente de carreira da faculdade IBTA, focada
em tecnologia.
No UnicenP (Centro Universitário Positivo), em Curitiba,
os cursos também são voltados para o mercado, diz
Amanda de Vasconcelos, supervisora de RH do Centro de Apoio de Integração
ao Aluno e Ex-Aluno.
"Claro
que não dá para transformar totalmente e fazer da
faculdade um laboratório, mas não vejo problemas em
adaptar o currículo. É preciso ter formação
teórica no curso, assim como o estágio deve proporcionar
aprendizado", observa.
Maria Tereza
Franzin, diretora de graduação das Faculdades Senac,
emenda: "O aluno tem de vivenciar a profissão até
para aferir se o curso está adequado". "Na sala
de aula, aprendemos os termos principais da área, e essa
correlação é essencial", avalia Diogo
de Araujo Monteiro, 22, estagiário da Multibras.
(Folha de
S. Paulo – 26/07/04)
"Enviar currículo é
um dos piores métodos"
Especialista
em RH e autor do livro "As Cinco Melhores Maneiras de se Conseguir
um Emprego" (Sextante, 125 págs., R$ 10) o americano
Richard Bolles questiona a eficácia de métodos tradicionais
para buscar trabalho, como o envio de currículos, e defende
técnicas inusitadas como usar as páginas amarelas
da lista telefônica. Leia a seguir trechos da entrevista concedida,
por e-mail, à Folha.
Folha: Como
enfrentar o período de desemprego?
Richard Bolles. Você o enfrenta reservando tempo para fazer
um inventário de si mesmo; visitando vários lugares
e pessoas que trabalham com o que você gostaria de fazer;
tornando-se um voluntário em algum lugar que os aceite, para
ajudar desamparados.
Folha:
Encontrar trabalho tem a ver com características pessoais?
Bolles. Sim. As primeiras questões que qualquer
pessoa que esteja procurando emprego deve fazer a si mesmo são:
"Com o que eu gostaria de trabalhar?", "Com as mãos,
com o cérebro ou com o coração?", "Eu
prefiro trabalhar com coisas, com dados, idéias e informações
ou com pessoas?" e "Em quais dessas áreas eu tenho
mais experiência?".
Folha:
O senhor incluiu o envio de currículos entre os cinco piores
métodos. Por quê?
Bolles. Nós gostamos, a maioria de nós
gosta, da "sabedoria das ruas". Nós ouvimos conselhos
e fofocas nas ruas sobre muitas coisas. E raramente, senão
nunca, checamos se esses conselhos são verdadeiros. A sabedoria
das ruas precisa de algumas evidências, de alguns dados, de
algumas estatísticas. Há provavelmente 60 milhões
de currículos na internet hoje. A resposta sobre se isso
funciona vem de uma empresa chamada Forrester Research. Eles descobriram
que somente 4% das pessoas encontraram trabalho pela internet. Você
entraria num avião com essas probabilidades? As pessoas que
enviam currículo pela internet fazem isso porque desconhecem
as probabilidades.
Folha:
No Brasil, os maiores empregadores são as pequenas e médias.
Mas essas não são necessariamente as "empresas
dos sonhos".
Bolles. Isso é verdade, se tudo o que você
quiser num trabalho for o salário. Mas se você pensar
em um trabalho como um lugar para passar o tempo fazendo o que você
gosta, pequenas empresas podem ser o "trabalho dos sonhos".
Além disso, elas-algumas delas- crescem! E o dinheiro que
você recebe, também.
Folha:
O senhor diz que quem procura uma vaga deve ver a busca como um
emprego. Explique.
Bolles. Claro. Quem procura emprego não
o persegue com muita persistência. A maior parte das pessoas
que procuram trabalho nos EUA o fazem cerca de cinco horas por semana.
Você deve passar de 35 a 40 horas semanais procurando uma
vaga. Pense como se você já tivesse um emprego.
Folha:
Não é raro quem procura trabalho chegar ao ponto de
perder a esperança. Como evitar isso?
Bolles. Encontrar um grupo de desempregados. Se
você não achar, forme o seu com outros profissionais
que você conheça, para que vocês troquem experiências
sobre a busca da colocação. E lembre-se: procurar
trabalho não deve ser uma atividade em que se faça
tudo sozinho. Fazendo com outros é que você se mantém
firme e com esperança.
(Folha de
S. Paulo – 26/07/04)
|