| |
Eles podem até perder o emprego, mas
nunca o status e a mordomia
Perdeu o cargo,
perdeu as mordomias. Certo? Nem tanto. No caso dos executivos de
alto escalão, uma demissão costuma render pacotes
bem generosos, com direito à extensão de muitas mordomias.
Talvez por um pouco de culpa, mas principalmente pelo reconhecimento
à dedicação do profissional à companhia,
empresas de todos os setores e dos mais diversos tamanhos fazem
questão de deixar seus ex-dirigentes com a situação
financeira muito bem resolvida, o suficiente para manter o padrão
de vida deles pelo menos até a recolocação
no mercado.
Alguns salários
a mais pela contribuição à empresa e tempo
de casa, bônus por performance, extensão do plano de
saúde por até dois anos, previdência privada
e "stock options" (opção de compra de ações)
são apenas o pacote básico, oferecido pela maioria
das companhias a seus altos executivos. Mas muitos ainda levam para
casa o carro, o motorista, o segurança, o celular e o "laptop"
da empresa. Também continuam por um tempo com várias
despesas que já eram pagas pela firma, como escolas dos filhos,
empregados domésticos, título de clube e aluguel de
residência.
Benefícios
como celular, computador ou empregadas domésticas podem parecer
exagero, mas são na verdade "peanuts" (amendoim),
como se costuma dizer no jargão americano, quando comparados
ao volume que os altos executivos recebem em dinheiro. Em 2001,
os presidentes e CEOs de empresas clientes da DBM no Brasil, uma
das maiores empresas de "outplacement" e transição
de carreira do mundo, receberam em média nove salários
a mais no desligamento, além de bônus, ações,
plano de saúde, previdência, etc. A permanência
temporária dos suportes pessoais e supérfluos servem
muito mais como apoio psicológico, de forma que o profissional
não tenha que se preocupar com essas "bobagens"
e tenha tempo de se dedicar a arrumar um novo emprego, explicam
especialistas em recursos humanos.
"Esses
pacotes de desligamento são um conjunto de coisas que ajudam
o executivo a suportar a transição, e não um
prêmio de saída", explica Vicky Bloch, presidente
no Brasil da DBM, multinacional especializada em "outplacement"
(recolocação) e transição de carreira.
Uma das grandes
preocupações das companhias com seus ex-presidentes
tem sido no aspecto educacional, conta Vicky. "As companhias
estão privilegiando um aumento da empregabilidade do executivo",
afirma a consultora. Ou seja, se o executivo sente uma deficiência
em algum aspecto profissional, a empresa pode ajudá-lo a
fazer um curso de aperfeiçoamento. Recentemente, um ex-presidente
de uma companhia brasileira da área editorial fez um curso
em Harvard bancado pela empresa. Um outro, do setor de aviação,
foi entender o Mercado Comum Europeu em um curso no Insead, na França,
por conta da companhia que o demitiu.
"Indenizar
corretamente e oferecer esse tipo de vantagem aos seus ex-presidentes
faz bem para a empresa", diz Vicky. "Mostra o aspecto
da responsabilidade social, da responsabilidade em relação
ao executivo e de poder ajudá-lo aumentar a sua empregabilidade".
O diretor de recursos humanos da Accenture, Marcos Nascimento, concorda:
"O alto executivo tem muita exposição no mercado.
Se você o trata de forma justa e com respeito, isso passa
uma boa imagem da empresa."
Essas vantagens
todas, entretanto, nunca fazem parte de políticas internas
das companhias. São sempre discutidas caso a caso e dependem
de uma série de fatores. O motivo do desligamento é
o ponto fundamental para definir o tamanho do "menu".
Se o profissional pediu demissão com destino à concorrência,
por exemplo, ele certamente não vai receber nada além
do que receberia um funcionário do chão da fábrica.
Agora, se ele entrou na dança por conta de um processo de
fusão ou reestruturação, e desde que sua competência
não tenha sido questionada, a conversa é outra. "Quando
o profissional é demitido, geralmente a negociação
é mais aberta porque a companhia está mais solícita
a ajudar", diz Nascimento, da Accenture.
Tempo de casa,
idade, proximidade com aposentadoria, contribuição
para a companhia, forma como foi atraído para a empresa,
facilidade ou não de conseguir outro emprego, deslocamento
geográfico para ocupar aquele cargo, risco de trabalhar na
concorrência e riscos de prejuízos à imagem
do empregador no mercado são os principais pontos listados
pela consultoria de "outplacement" Lens & Minarelli
que influenciam na composição do pacote.
Um outro fator
que influencia nessas negociações é o setor
de atuação da empresa. O mercado financeiro é
conhecido como o mais "exagerado" e fora do padrão
na concessão de benefícios aos seus executivos.
As empresas
preferem não tocar nesse assunto. Não querem causar
exemplos de referência para evitar problemas com os substitutos
e também por medo de expor seus executivos. Estes, por sua
vez, não falam com medo de seqüestro. "É
muito difícil entrar nesse tipo de detalhe confidencial",
diz o diretor de recursos humanos da Panamco, José Luiz Weiss,
que acompanhou recentemente a saída do presidente da empresa.
Weiss foi obrigado
a demitir mais de 100 executivos nos últimos três anos
por conta de reestruturações na companhia, e diz que
sempre procurou oferecer o melhor possível para os diretores.
Assistência médica por em média seis meses,
direito de comprar o veículo com desconto, indenização
com alguns salários a mais e "outplacement" foram
alguns dos benefícios que os ex-diretores da Panamco receberam.
"Há uma preocupação muito grande em tornar
o processo mais fácil e justo possível", afirma
Weiss.
(Valor -
10/04/02)
|
|