Remuneração de empresas de RH provoca conflito

O que parece ser um casamento perfeito para o trabalho das empresas de recolocação e recrutamento de executivos, na verdade expõe um conflito ético. Segundo a Associação de Consultores em Busca de Executivos, que reúne as 160 maiores empresas na área do mundo, existem normas que impedem que uma empresa fature por estar atuando nessas duas diferentes frentes.

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- Michael Page só atende empresas

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Remuneração de empresas de RH provoca conflito

Executivo que busca emprego e quem tem a vaga são clientes distintos. Uma empresa com um cargo a ser preenchido e um profissional em busca de uma recolocação no mercado. O que parece ser um casamento perfeito para o trabalho das empresas de recolocação e recrutamento de executivos, na verdade expõe um conflito ético.

Enquanto empresas de "executive search" (recrutamento) atendem companhias que querem determinado tipo de profissional, as de "outplacement" (recolocação) trabalham voltadas para a pessoa física que busca um novo emprego. Atuar nas duas frentes seria, para muitos, antiético.

A crítica parte, principalmente, das empresas que atuam exclusivamente com "executive search". Tendo como clientes pessoas jurídicas, estas empresas fazem um trabalho de consultoria de gestão, que inclui a busca do profissional solicitado, auxílio na elaboração da proposta de trabalho e um acompanhamento pós-contratação por um período determinado - uma espécie de seguro para o caso do profissional selecionado não corresponder às expectativas.

A Associação de Consultores em Busca de Executivos (AESC, na sigla em inglês), que reúne as 160 maiores empresas de "executive search" do mundo, tem normas que impedem seus associados de atuarem também com "outplacement". No último encontro da associação, realizado em Boca Raton, na Flórida (EUA), a confusão entre "executive search", "outplacement" e "head hunter" (a identificação de executivos considerados "talentos"), além das questões éticas envolvendo estas atividades, estiveram no centro do debate.

A Fesa - Financial Executive Search Associates - especializada na avaliação e no recrutamento de executivos do setor financeiro é associada da AESC. Renata Fabrini, sócia da Fesa, participou do encontro e defende a separação completa das atividades. A confusão que se faz entre estes dois tipos de trabalho, segundo Fabrini, acaba sendo ruim para a imagem do setor. "Quando uma empresa recebe de uma companhia para preencher uma vaga e também de um profissional para recolocá-lo no mercado, há um conflito de interesses evidente", diz Renata Fabrini. "É como se você fizesse um jogo duplo e recebesse dobrado pelo mesmo trabalho", ressalta a sócia da Fesa.

Maurício Franco, gerente-geral para o Brasil da TMP Worldwide, outra empresa que atua exclusivamente com "executive search", também vê uma questão ética envolvendo o exercício conjunto das duas atividades. No entanto, Maurício Fabrini aponta a falta de regulamentação para o setor no Brasil como um dos fatores que estimulam a existência de empresas atuando nas duas frentes. "O ideal é que as empresas de "outplacement" buscassem desenvolver códigos de ética que impedissem a prática deste jogo duplo, que faz mal à imagem de todas as empresas do setor de recursos humanos", diz Franco.

(Gazeta Mercantil - 01/07/02)

   

Catho e Manager dizem que não há problema na prática

As empresas que atuam tanto com "executive search" quanto com "outplacement" se defendem garantindo que o conflito ético é apenas teórico, não existe na prática. Silvana Case, vice-presidente do Grupo Catho, uma das maiores empresas de recrutamento e recolocação de profissionais do Brasil, diz que no grupo há mecanismos que garantem total lisura no trabalho desenvolvido.

No grupo, as divisões de "outplacement" (Catho) e "executive search" (Case Consultores) são totalmente independentes. Funcionam em endereços diferentes e com profissionais próprios. Além disso, segundo Silvana Case, há uma cláusula específica sobre o assunto no contrato assinado pelas empresas e pelos profissionais que procuram o grupo. "A empresa que contrata a Case Consultores sabe que não pode contar com nenhum dos profissionais cadastrados no banco de currículos da Catho", diz Silvana. "Assim como os profissionais também sabem que não podem se candidatar a vagas em empresas atendidas pela Case Consultores."

A solução encontrada pela Catho para atuar, de forma independente, nas duas áreas, traz alguns conflitos para o grupo. É comum, segundo Silvana, reclamações por parte dos profissionais que nos procuram. "Eles descobrem que há uma vaga com o perfil deles em uma das empresas que atendemos e não se conformam em ficar fora da disputa", diz. Mesmo com todos estes cuidados, ela reconhece que muitas empresas do setor criticam a forma de atuação da empresa. "Eles desconhecem nossa forma de trabalho e, por isso, nos criticam." Mesmo perdendo alguns clientes no segmento de "outplacement", ela garante que a separação total das áreas vale a pena e é importante para a imagem do grupo.

A Manager, que trabalha com recolocação de executivos desde 1977, também presta serviços de "executive search". Hélio Terra, diretor-superintendente da empresa, não vê conflito algum em atuar nos dois segmentos e justifica: "Dificilmente algum profissional que tenta voltar ao mercado procurando por uma empresa de 'outplacement' tem o perfil desejado pelas empresas que contratam os serviços de 'executive search'". Estas empresas querem, segundo ele, profissionais para postos-chave e com inúmeros pré-requisitos. "Este tipo de executivo não procura por uma recolocação, mas é disputado pelas empresas", afirma.

Nos 15 anos em que está na Manager, Hélio Terra garante que nunca viu um caso em que houvesse o casamento entre as necessidades de uma empresa que procura os serviços de "executive search" e as qualidades oferecidas por um profissional cadastrado no banco de currículos. No entanto, ele ressalta : "No mercado, quando isto ocorre, a prática manda que se cobre apenas os serviços prestados para a empresa, ficando a pessoa física desobrigada de fazê-lo".

(Gazeta Mercantil - 01/07/02)

   

Michael Page só atende empresas

Separar os setores de "outplacement" e "executive search" de uma empresa não resolve o problema. A opinião é de Patrick Hollard, diretor-geral da Michael Page International no Brasil, uma das consultorias líderes em recrutamento de profissionais no mundo que atua há 26 anos no mercado de "executive search". Segundo Hollard, as atividades são incompatíveis. "Não dá para atender os dois lados - empresa e profissional - sem que o conflito ético se estabeleça", diz.

Separar as atividades, segundo o diretor da Michael Page, pode, em tese, resolver um problema, mas cria outro. "Se você é contratado por uma empresa para encontrar o melhor candidato para determinado cargo e, mesmo tendo este profissional em seu cadastro, não pode indicá-lo cria-se um outro problema." O cliente não estará sendo atendido da melhor forma possível, o que não é correto", afirma Hollard.A falta de regulamentação para a atividade no Brasil não é desculpa, na visão do diretor, para que não existam regras que orientem o trabalho de empresas do setor de recursos humanos. "Na França, por exemplo, onde não há uma lei específica, as empresas têm códigos de conduta próprios e as atividades não se misturam. Deve haver mais profissionalismo no setor", diz.

A Michael Page adota padrões de conduta uniformes para os mais de 90 escritórios que possui em 16 países. No Brasil, onde chegou há dois anos, a empresa é especializada em quatro divisões: finanças, bancos, jurídico e engenharia. Por questões que considera éticas, a empresa tem como lema não aceitar missões fora de seu campo de competência e que não pareçam realizáveis.

Os candidatos que colocam seus currículos no banco de dados da empresa não pagam qualquer tipo de honorário. "A adoção de um código de ética seria importante para a imagem das empresas, mas o que realmente conta é um maior profissionalismo por parte de quem atua na área", diz Hollard.

(Gazeta Mercantil - 01/07/02)

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