Empresas calculam o custo dos fumantes

A paradinha para o cigarro e o café durante o espediente, o índice de absenteísmo e o aumento do custo para os planos de saúde estão sendo mensurados e questionados. Muitas companhias do país que já realizavam campanhas educativas em relação ao tabagismo estão adotando programas mais agressivos para ajudar seus empregados a largar o vício.

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Empresas calculam o custo dos fumantes

Que o cigarro faz mal à saúde, fumantes e não fumantes estão cansados de saber. Que ele pode até matar também. Fuma quem quer. A decisão é pessoal. Mas, o que começa a ser questionado é o outro lado da moeda: o custo dos tabagistas para as empresas onde trabalham. A paradinha para o cigarro e o café, o índice de absenteísmo e o aumento do custo para os planos de saúde estão sendo mensurados e questionados. Muitas companhias do país que já realizavam campanhas educativas em relação ao tabagismo estão adotando programas mais agressivos para ajudar seus empregados a largar o vício. Vale tudo. De terapias alternativas a tratamentos médicos à base de anti-depressivos, adesivos e goma de mascar.

Largar o cigarro não é nada fácil. Se fosse, o mundo não teria aproximadamente 1 bilhão e 250 milhões de fumantes, o que corresponde a quase um terço da população adulta. Só no Brasil habitam 33 milhões de tabagistas. Estudos indicam até que 80% daqueles que declaram que gostariam de largar o vício, apenas 3% o conseguem de fato. Portanto, a luta dentro das companhias é grande.

Para entrar nessa briga contra o cigarro, o ex-diretor da Novartis, Nicolas Toth decidiu investir mais de R$ 100 mil na montagem da Viesanté, uma empresa que se propõe a livrar outras companhias definitivamente do tabaco, por mais difícil e quase impossível que isso possa parecer. A fim de reunir bons argumentos e uma pilha de estatísticas assustadoras contra o cigarro para apresentar aos fumantes- tipo 90% dos casos de câncer estão relacionados ao tabagismo ou nos países em desenvolvimento o cigarro matará 7 milhões de pessoas nos próximos 20 anos- ele formou uma consultoria científica. À frente dela, está um dos "papas" do assunto, o professor doutor José Rosemberg, renomado militante anti-tabagista, há mais de 30 anos.

Vera R. Oliveira, da Avon, fumou por 25 anos e conseguiu largar o vício depois de participar de um programa da empresa .

Toth e a sócia Gislaine Oliveira desenvolveram um simulador de custos para saber quanto custa manter um funcionário que fuma (ver tabela) e garantem: sai caro. "As empresas de seguros de saúde calculam que os planos empresariais custariam 40% menos, se não houvesse fumantes", diz o gerente-geral da Viesanté. Ele lembra que existem ainda gastos indiretos como a fumaça que pode oxidar os equipamentos eletroeletrônicos e de informática, ou as queimaduras que encurtam a vida útil de móveis, carpetes e cortinas. "Sem o tabaco, as companhias poderiam reduzir em até 60% esses custos associados", afirma Toth, que nunca colocou um cigarro na boca.

O tratamento oferecido pela Viesanté às empresas pode durar até um ano. Ele começa com a identificação dos tabagistas, depois vem o diagnóstico médico e psicológico e termina com as receitas dos nutricionistas para aqueles temem engordar ao largar o cigarro. "Usamos uma terapia cognitiva comportamental que identifica os gatilhos que acionam o vício, como o café ou o ato de atender o telefone; além disso, investigamos o histórico familiar e o passado profissional da pessoa", explica Toth. O grau de dependência "leve, moderado ou pesado" é que irá determinar o número de sessões individuais a que o fumante se submeterá.

Cecília Shibuya, presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), diz que está havendo uma mudança na maneira como as companhias brasileiras estão agindo em relação aos fumantes. "Antes elas estavam mais preocupadas com a teoria, ofereciam palestras, informativos, hoje existe a conscientização de que elas precisam colaborar mais para ajudar seus funcionários a se livrarem do cigarro", diz. Segundo ela, apenas a implantação de um "fumódromo" já não parece ser suficiente. "Alguns programas agora envolvem até a família do fumante", diz. Das 114 empresas que participaram da II Jornada da ABQV Nacional no final de 2003 e que possuem programas de qualidade de vida, 59 desenvolvem ações contra o tabagismo.

A Philips do Brasil começou a desenvolver um trabalho de prevenção ao tabagismo em 1993. De lá para cá, entretanto, muita coisa mudou. "Vimos que a maneira como tratávamos o assunto não era suficiente", conta Renato Barreiros, gerente do departamento de saúde e qualidade de vida da companhia. Em 1997, a empresa decidiu dar uma ênfase maior em programas preventivos de saúde ao invés de se concentrar apenas na medicina assistencial. No ano passado, essas ações passaram a fazer parte de um programa mais consistente de qualidade de vida chamado "Mais vida". Dentro dele, o tabagismo mereceu uma atenção especial.

Barreiros conta que além de dar uma base educativa e sensibilizadora sobre os malefícios causados pelo cigarro, os médicos dos ambulatórios da empresa avaliam os casos e indicam tratamentos. "Colocamos à disposição do funcionário pneumologistas, psicólogos, acupunturistas, entre outros serviços", diz. A partir deste ano, a Philips fornecerá também medicamentos e adesivos gratuitamente para os empregados que quiserem parar de fumar. "Em 2000, tínhamos entre 15 e 20% de fumantes. Agora, vamos refazer essa conta para ver o efeito desse nosso esforço", conta Barreiros. "Não é uma caça às bruxas, não queremos tornar essa cultura policialesca".

Os "fumódromos", em muitos casos, por estarem distantes e até fora das instalações das empresas, já funcionam como um fator restritivo e inibidor para os fumantes. Eles se proliferam desde os anos 80. Com mais ênfase depois da lei nº 9.294 (15 de julho de 1996), que proibiu o uso de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos, ou de qualquer outro produto derivado do tabaco, em recinto coletivo, privado ou público, tais como, repartições públicas, hospitais, salas de aula, bibliotecas, ambientes de trabalho, teatros e cinemas, exceto em "fumódromos".

Em 1998, a Natura fez uma enquete com os empregados para saber quantos fumantes existiam na empresa, na época eles representavam 28% do total de funcionários. "Como respeitamos a diversidade, perguntamos o que eles achavam de se proibir o fumo nos ambientes fechados da empresa e todos concordaram", lembra Plínio Yasbeck, coordenador de promoção de saúde da companhia. "Só essa medida já ajudou a diminuir o índice de tabagismo", diz. Fora isso, a empresa criou grupos de auto-ajuda, financiou terapias como acupuntura auricular, a laser e passou a parcelar o pagamento de adesivos contra o fumo em até dez prestações. "Hoje temos entre 19 e 20% de fumantes e mesmo quem não parou diminuiu a quantidade", afirma.

A auxiliadora de embalagem da Avon, Vera Regina Oliveira, fumou durante 25 anos pelo menos um maço de cigarros por dia. Quiz parar várias vezes, mas nunca tentou com afinco. Em meados de 2002, apagou sua última bituca. A vontade, diz ela, não passou por completo, mas o vício ela não quer mais. No intervalo depois do almoço, ao invés de acender um cigarro, agora ela caminha pela área arborizada da companhia. "Hoje estou muito mais calma", comemora Vera.

Ela participou com mais 40 pessoas do programa Qualidade de Vida sem Fumo, da Avon. Vera tomou medicamentos, gomas de mascar, teve a orientação de uma nutricionista e chegou a perder 9 kilos graças a uma dieta mais saudável e à prática de exercícios. "Um dos maiores incentivos que tive veio dos próprios colegas do grupo", conta.

A consultora de qualidade de vida da Avon, Elza Maio, conta que a empresa oferece acompanhamento médico, reuniões regulares e acupuntura auricular. "O médico avalia e diz o que é melhor para a pessoa", diz. Desde que começou a ampliar seu programa anti-tabagismo em 2002, a empresa conseguiu uma redução de 30% no número de fumantes. Para tanto, investiu apenas no programa Qualidade de Vida sem Fumo, em 2002 e 2003, R$ 26 mil.

O fumo, entretanto, é um hábito muito difícil de ser controlado. "Mesmo as pessoas que conseguiram largar o cigarro, apenas 40% não sofrem uma recaída", diz Manoel Antonio Peres, diretor da SulAmérica. Há um ano, a seguradora comercializa o programa Saúde Ativa, que oferece aos seus clientes um conjunto de serviços com foco na promoção e gestão da saúde de forma preventiva. Nele, está incluído o controle ao tabagismo. "A maioria dos problemas de saúde são genéticos ou estão relacionados a fatores comportamentais", diz o diretor. Isso acontece com o cigarro. "É possível mudar hábitos através da informação".

A seguradora recomenda que as companhias tenham no máximo 17% de fumantes. Mais do que isso, segundo ele, é aconselhável montar um programa anti-tabagismo. Apesar de estarem cientes de todo o custo e risco de se manter um grande número de fumantes, ainda são relativamente poucas as empresas que efetivamente decidem enfrentar o desafio de lutar contra o tabagismo. "As empresas mais estáveis são as que têm uma preocupação maior com a saúde do seu efetivo", conclui.

(Valor Econômico – 02/02/04)