Os novos desafios para recompensar
e reter os melhores
A maior
dor de cabeça dos departamentos de recursos humanos
nos últimos anos em todo o mundo têm sido identificar
e reter talentos. Mesmo diante da intensa pressão econômica,
eles continuaram a desenhar e a conduzir programas de recompensas
para funcionários, que assegurassem a permanência
dos melhores.
O uso
da remuneração variável, como fonte de
motivação e engajamento dos empregados às
suas metas estratégicas, já é uma realidade
em muitos países. No Brasil, inclusive. O grande desafio
agora é constatar se esses programas estão chegando
aos resultados almejados. Boa parte das companhias globais
ainda não está plenamente convencida de que
isso esteja acontecendo.
Essa é
uma das conclusões de uma pesquisa realizada pela consultoria
Towers Perrin, durante todo o ano de 2003 e finalizada agora,
com 1.300 empresas de grande porte (com faturamento entre
R$ 200 milhões a R$ 10 bilhões) na Ásia,
Canadá, Europa, America Latina e Estados Unidos. O
levantamento divulgado com exclusividade ao Valor, inclui
116 companhias em atividade no Brasil, representando 10% do
total das empresas entrevistadas. O país é responsável
por 85% dos dados levantados na América Latina.
Foram
ouvidos os principais responsáveis pela implementação
das políticas de RH nas companhias. "Uma constatação
importante da pesquisa é que existe uma grande coerência
e consistência entre as estratégias adotadas
pelos departamentos de RH em todos os países",
diz Felipe Rebelli, líder da área de remuneração
para a América Latina, da Towers Perrin. "É
um efeito da globalização".
Um dos
pontos observados pela pesquisa é o crescimento da
parcela variável da remuneração. "É
o resultado direto do interesse das empresas em atrelar seus
programas de recompensa à sua estratégia",
diz Rebelli. A maioria dos pesquisados (82%) declarou que
o objetivo de seus planos de remuneração variável
é melhorar o desempenho nos negócios. Mesmo
assim, poucas parecem estar totalmente satisfeitas com o resultado
de seus esforços, segundo o estudo.
Para o
consultor, a pesquisa não aponta uma decepção
geral. "Essa percepção acontece porque
esse sistema de remuneração variável
é apenas um dos componentes da gestão desempenho
e seu retorno não é tão visível",
justifica Rebelli
No Brasil,
mesmo com uma forte pressão por controle de custos,
a remuneração variável está sendo
adotada por 86% das companhias, que possuem algum sistema
desse tipo para toda a organização. Um percentual
bem maior do que o registrado em vários países.
"Isso começou há vários anos e é
um dos efeitos das vantagens fiscais e previdenciárias
da lei que estabelece a participação nos lucros
e resultados", observa o consultor. "Essa lei antecipou
a tendência mundial".
Apesar
de adotar a remuneração variável em todos
os níveis, no Brasil a diferenciação
na recompensa entre os funcionários de uma mesma empresa,
não é grande. "Talvez pela influencia da
cultura latino-americana onde as pessoas procuram evitar o
confrontamento", diz o consultor.
Esse comportamento
é diferente nas empresas consideradas de alto desempenho,
ou seja, que geraram lucros iguais ou maiores à lucratividade
média acumulada nos últimos três anos,
nas outras companhias pesquisadas. Nelas, os melhores talentos
são identificados e recompensados mais agressivamente.
Existem programas de recompensa para funções
críticas e alterações no "mix"
de remunerações variáveis.
"Em
vez de deixar alguns poucos muito felizes, elas são
muito mais claras e pragmáticas. Tanto pessoas que
estão atuando em cargos estratégicos como as
que atuam em funções comuns - mas que tem claramente
um desempenho melhor- são contempladas. A idéia
é reconhecer o empenho de forma bastante diferenciada.
Essas companhias conseguem fazer esse balanceamento",
diz Rebelli.
Muitas
das empresas que obtiveram um alto desempenho conseguiram
acompanhar melhor os resultados de seus programas de recompensa
adotando meios formais de medição do retorno
do investimento. Pelo menos, 41% já possuem ou planejam
possuir esses meios de aferição.
O grande
diferencial na política de RH das melhores empresas,
segundo a pesquisa, é que elas constroem sistemas de
recompensa e não programas isolados.
As de
alto desempenho consideraram prioritários, nos últimos
três anos, os gastos em comunicação e
treinamento. Pelo menos 52% delas aumentaram o volume de informações
sobre recompensas transmitidas aos empregados e 46% deram
uma orientação maior ao empregado sobre os negócios
e um treinamento de comunicação para o gerentes.
"Não basta apenas dar um embasamento técnico
de como essas políticas funcionam", diz Rebelli.
"Os gestores têm que estar preparados para discutir
e comunicar a política de mérito aos funcionários.
É preciso um sistema transparente para que os empregados
de qualquer nível saibam qual a estratégia e
a filosofia de remuneração de toda a empresa".
A forma
como essas empresas recompensam os funcionários varia:
60% delas dão oportunidades de treinamento e desenvolvimento,
40% oferecem a esses empregados tarefas ou projetos especiais
e um-terço proporciona programas de reconhecimento
não-monetário.
As empresas
de alto desempenho acabam gastando mais tempo no desenvolvimento
dos seus sistemas de gestão e desempenho, definindo
claramente quais serão as métricas ou os indicadores
usados, tanto nas políticas de mérito como nas
de remuneração variável. "Elas precisam
ter certeza que esses sistemas trarão um bom retorno
ao acionista", diz o consultor.
A constatação
de que a retenção dos talentos e o reconhecimento
do bom desempenho ajudam nos negócios e na prestação
de contas final, entretanto, foi uma preocupação
de todas as empresas pesquisadas, não apenas das de
alto desempenho.
Muitas
companhias se preocuparam, por exemplo, em reduzir custos
sem cortar pessoas. Vários países elegeram a
necessidade de gerenciar custos sem redução
de pessoal como uma das questões mais importantes em
2003. Esse resultado foi obtido em 70% das companhias da América
Latina, 66% das norte-americanas, 58% das canadenses, 53%
das asiáticas e 49% das européias.
Grande
parte das companhias pesquisadas diz que está enfrentando
com sucesso a questão da redução de pessoal
transferindo mais custos e riscos aos empregados. Desta forma,
estão driblando, por exemplo, o impacto dos aumentos
nos planos de assistência médica. Esta também
foi uma forma encontrada por elas para transmitir aos empregados
mais noções sobre desempenho e responsabilidade.
Mas, o
maior desafio dos departamentos de RH não foi apenas
gastar menos. Para eles, está sendo muito mais difícil
enfrentar pressões quanto à capacidade da empresa
em recompensar empregados com desempenho superior e o impacto
negativo do esforço no controle de custos sobre o comprometimento
e o engajamento dos funcionários.
Para 59%
dos pesquisados, de todas as regiões, a relação
remuneração/desempenho foi considerada como
uma das mais significativas para atender aos desafios da empresa.
Em segundo lugar, aparece a preocupação com
a moral do empregado, apontada por 51% dos entrevistados.
Em terceiro, vem o engajamento do funcionários, indicado
pela metade dos pesquisados. Em quarto, aparece o gerenciamento
e a redução de custo de pessoal, apontado por
46% dos participantes.
(Valor
Econômico – 07/01/04)
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