Perfis que "batem de frente" prejudicam time
Sabe aquela
idéia de que dois bicudos não se beijam? Transporte-a
para o ambiente de trabalho e tenha uma ilustração
de quanto os conflitos oriundos das características
de personalidade podem influir na obtenção de
resultados ou na execução de projetos.
Brigas,
má vontade, frustração e doenças
são sinais de que o convívio entre os funcionários
pode não estar acontecendo de forma harmônica
e produtiva. Isso porque há perfis que reagem melhor
à interferência mútua enquanto outros
tendem a "bater de frente".
De olho
nisso, as empresas têm usado, cada vez com mais freqüência,
ferramentas de mapeamento de personalidade para conhecer melhor
seus funcionários, o modo como trabalham e a forma
como se relacionam entre si. "Quando as pessoas se conhecem
bem e sabem como as outras funcionam, passam a ser mais hábeis
no trato e otimizam o convívio", explica Andrea
Massoud, da Living in Brazil Consulting.
A empresa,
que é especializada em adaptação de profissionais
estrangeiros em outros países, trouxe para o Brasil
o True Colors, método norte-americano baseado na teoria
comportamental do psicólogo Carl Jung (1875-1961).
A inovação
está no uso de cores como ícones dos principais
modelos de personalidade. "Geram identificação
imediata e ajudam na assimilação", diz
Massoud. "Todos aprendem rápido quem é
verde, azul, laranja, dourado."
Facilitadores
Com a aplicação do True Colors na empresa em
que trabalha, a Miliken, a gerente Marta Janowitzer, que está
sendo preparada para assumir a liderança do grupo no
Brasil, descobriu ser a única "laranja" (predominantemente
criadora) numa equipe de maioria "azul" (relacional).
"Aprendi que a pessoa que está do meu lado não
é igual a mim, e que tirar proveito disso é
o melhor caminho."
Hoje os
perfis coloridos são usados na Miliken como facilitadores
de relacionamento e ajudam os profissionais a trabalhar pontos
fracos. "Mas os conceitos não chegam a determinar
as contratações", diz Roberto Nuñez,
gerente-regional na América Latina.
Mas, no
futuro, essas informações devem passar a reger
a formação de equipes, arriscam os especialistas.
E até adquirirem peso de definição na
hora de recrutar. Na esteira da tendência, o Grupo Catho
está desenvolvendo, há oito meses, uma nova
metodologia de seleção, que deve ser lançada
ainda neste semestre.
Segundo
a consultoria, o "Recrutamento por Competência"
será o primeiro produto brasileiro do gênero.
"Vai colaborar para contratações assertivas",
explica Fabiana Schvarcz, 30, gerente de desenvolvimento organizacional.
(Folha
de S. Paulo – 07/03/04)
"Por anos, fui obrigada a ser o que não sou"
"A
despersonalização é um processo perigoso,
que pode levar à loucura." O aviso da consultora
Andrea Massoud perde o tom de exagero quando casado à
história de M.A., 35. Por dez anos, ela trabalhou numa
empresa em que se sentia oprimida. Sua personalidade não
era aceita.
Expansiva,
M.A. gostava de dar opiniões e de sugerir mudanças.
Mas a postura se chocava com a da diretoria, formada por funcionários
antigos e adaptados a uma rotina de trabalho metódica.
"Qualquer
inovação era recebida como ameaça. Cansei
de ouvir que "em time que está ganhando não
se mexe". O discurso era explicitamente autoritário
e passei a ser malvista."
Com medo
de perder o emprego, a profissional reprimiu traços
da sua personalidade. Passou da insatisfação
ao estresse crônico, seguido de depressão.
"Um
dia, simplesmente "pifei'", conta. O diagnóstico
de estresse ocupacional não deixou escolha a não
ser o afastamento do trabalho. Em casa, M.A. se autodefine
"estilhaçada". "Meu chefe me fez explicar
à minha equipe qual era o problema que eu tinha. Parece
não acreditar que estou doente."
Propensa
a pedir demissão, começa a visualizar o estrago
dos conflitos à sua saúde. "Perdi as minhas
referências. Por anos, fui obrigada a ser o que não
sou. Era como uma panela que tinha de se adaptar a uma tampa
quando seu molde simplesmente não era aquele."
(Folha
de S. Paulo – 07/03/04)
Antagonismo gera perseguições na equipe
Se os
choques entre personalidades incompatíveis não
são evitados, a tendência é que "a
corda arrebente do lado mais fraco", isto é, que
o funcionário em posição hierárquica
inferior seja o mais prejudicado. É para esse lado
que quem está no topo costuma empurrar a "culpa"
dos problemas e da ausência de resultados.
Depois
de ser promovida duas vezes dentro da empresa em que começou
como recepcionista, P.M., 30, perdeu o emprego seis meses
depois que um novo chefe assumiu. A postura de intolerância
foi adotada por ambos.
"Enquanto
ele fazia o tipo cordial com todos, era desorganizado e evitava
pensar em soluções reais para os problemas da
firma. Eu deixava claro que não gostava daquilo e não
devolvia o tratamento falso dele. Pouco tempo depois, ele
me pôs na rua", relata.
A demissão
também foi o ponto final no emprego da auxiliar de
enfermagem A.O., 24. "A chefe de enfermagem era linha-dura,
e eu sempre fui carinhosa com os pacientes. Ela começou
a implicar com isso e daí pra reclamar até dos
meus sapatos foi um pulo."
Padrão
Neusa Miguel, psicóloga da consultoria Arquitetura
Humana, aponta a chefia como um fator de interferência
determinante nos padrões de comportamento e de atitudes
de um funcionário.
Ela explica
que o PI (Predictive Index), método aplicado pela consultoria
em empresas como Zoomp, Vivara e GM, permite que se chegue
a referências de "como a pessoa é, como
tenta ser e como está sendo, considerando a influência
do cargo que ocupa e da chefia a quem está submetida".
"Um
erro comum dos gestores é achar que o padrão
bom para eles é bom para todos. Aí reside o
dever maior de quem supervisiona. É preciso enxergar
o potencial do profissional de forma isolada do conflito interpessoal",
diz.
Na Natura,
um método de avaliação minimiza o risco
de julgamento tendencioso. Uma das etapas de análise
do desempenho dos colaboradores é feita em conjunto
por mais de um superior que tem contato com o analisado.
"As
avaliações são cruzadas, e uma impressão
coletiva é construída. Se é percebida
maior insistência de um chefe, tanto em elogiar quanto
em criticar alguém, isso é investigado",
diz Flavio Pesiguelo, 33, gerente de planejamento e desenvolvimento
de RH. Com isso, vários colaboradores já foram
transferidos para posições em que seu perfil
pode ser mais bem aproveitado.
Considerar
a personalidade do funcionário para direcionar sua
carreira, em geral, resulta em bem-estar. Um exemplo é
Jorge Macioni, 45, que atuava como gerente-geral numa loja
de música.
"Tinha
a sensação de que estava preso ali." Durante
uma consultoria, sua afinidade com vendas personalizadas foi
detectada, e a empresa criou um cargo para ele: gerente de
clientes especiais. "Ganhei liberdade e a chance de criar,
que é o que mais prezo."
(Folha
de S. Paulo – 07/03/04)
"Cercado, funcionário entra em colapso"
Psicóloga
especializada em terapia floral, Maria Aparecida das Neves
tem usado as essências de flores para tentar recuperar
pacientes abalados por convivências massacrantes no
trabalho, perfil que representa 70% do atendimento que presta
a adultos.
"Essa
experiência deixa conseqüências como o estresse
ocupacional. O pior do processo é a desconstrução
das referências. De tanto ter sua personalidade reprimida,
a pessoa fica bloqueada, anula seus valores para aceitar a
demanda externa e se deprime."
Segundo
ela, o sentimento de inadequação gera mecanismos
de defesa, como a agressividade. "Aí entram em
cena o julgamento das pessoas e o mito do funcionário-problema.
Cercado, o funcionário entra em colapso."
Apesar
de pouco empregados para esse fins, Neves defende o uso dos
florais como um caminho para harmonizar as convivências
e ampliar a tolerância das pessoas.
(Folha
de S. Paulo – 07/03/04)
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