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Relação Brasil-China exige bom estudo e preparo de
executivos
Guanxi. A palavra, que em mandarim quer dizer relacionamento,
representa uma das coisas mais importantes para os chineses nos
negócios, e pode ser a chave do sucesso para os brasileiros
fecharem contratos e terem acesso a um dos maiores mercados do mundo.
"Para os
chineses, o relacionamento é a estrutura de um negócio,
e é preciso haver confiança. Os chineses precisam
sentir segurança, pois se abriram para o mundo ocidental
há pouco tempo", diz a advogada Nancy I Pei Tsui, do
escritório Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr. e Quiroga
Advogados.
Nancy é
filha de chineses e aprendeu mandarim em casa. Hoje, ela é
uma das profissionais beneficiadas com o crescente interesse comercial
dos brasileiros pela China. Em 2003, foi mandada por seu escritório
para fazer um estágio naquele país.
"O escritório
resolveu abrir uma área voltada só para a China, para
atender empresas com interesses comerciais lá. Para isso,
é importante falar corretamente e conhecer os detalhes das
leis, o que demanda tempo e um convívio diário com
a realidade chinesa."
No Mattos Filho,
o sócio responsável pela relações com
a China é João Ricardo de Azevedo Ribeiro. Ele conta
que chegou a estudar mandarim durante um ano e meio, além
de buscar mais conhecimento sobre a cultura do país. Uma
das principais diferenças, destaca, é o tempo.
"Para concretizar
um negócio é preciso ter um relacionamento muito maior
do que estamos acostumados. Temos um ritmo mais acelerado, mas para
atuar lá é preciso dedicar mais tempo, dinheiro e
planejamento." Robert Wong, sócio da empresa de educação
executiva Partnership & Learning, conta que muitas empresas
chegam a levar dez anos para fechar negócios na China.
"Eles costumam,
primeiro, fechar contratos pequenos. Pode não parecer promissor,
mas esta é uma forma de criar empatia e passar confiança.
Se o brasileiro não tiver flexibilidade para começar
assim, pode perder grandes oportunidades", afirma.
Para Ribeiro,
os brasileiros ainda não estão preparados para um
bom relacionamento com os chineses, e a língua é um
dos pontos mais críticos. "Não adianta simplesmente
enviar os executivos para ter aulas de mandarim. É preciso
contratar um intérprete, pois a comunicação
é muito importante e não são todos que falam
inglês", diz. Segundo Ribeiro, este é um dos responsáveis
pelo fato de muitas empresas irem à China com grandes expectativas,
mas voltarem sem fechar negócios.
O diretor-geral
da empresa de importação Portes Trading, Fernando
Galante, trabalha para chineses há 10 anos e conta que um
dos maiores desafios sempre é explicar a cadeia de impostos
brasileira. "É difícil explicar detalhes como
PIS, Cofins, ICMS, entre outros, porque os chineses são muito
rígidos e todas as contas têm de bater nos centavos",
diz.
Galante já
visitou a China para ver como os chineses trabalham no dia-a-dia,
e disse que aprendeu a lidar com o modo mais reservado dos chineses.
"Os brasileiros acabam falando demais e os chineses são
mais fechados, demoram um pouco mais para adquirir confiança.
Mas são bons negociadores e sabem ouvir muito, além
de terem interesse pelo Brasil também."
Márcia
Goraieb, diretora de comunicação e marketing da Ericsson
Brasil, é outra que sente de perto este desejo dos chineses
pelo Brasil. Ela conta que recebe, em média, oito comitivas
de chineses por ano. "Dentro da Ericsson, o Brasil é
um dos países mais visitados pelos chineses, pois temos um
mercado muito similar e eles gostam muito de trocar experiências."
Segundo ela,
os costumes dos visitantes variam muito conforme a região
de onde vêm. "Na primeira visita que recebi, por ser
mulher, nenhum deles olhou diretamente para mim, nem apertou minha
mão. Trocaram cartões com todos os homens, mas me
ignoraram", lembra.
Outros, pelo
contrário, até já tomaram caipirinhas em churrascaria.
Apesar de todo o cuidado para alcançar este gigantesco mercado,
Robert Wong garante que não é preciso uma transformação
completa para falar com um chinês. "Temos apenas que
respeitá-los, e não negar nossas qualificações
ou modo de ser."
(O Estado
de S.Paulo – 08/09/05)
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