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O que as empresas querem do executivo da nova
era digital
A era digital imprimiu uma mudança jamais
observada no mundo do marketing e da comunicação.
Informações circulando em alta velocidade, novas mídias,
consumidores mais exigentes, fragmentação dos mercados,
maior exigência pela mensuração de resultados
e a preocupação com o valor das marcas são
apenas alguns dos fatores que mostram essa revolução
à qual os profissionais estão tendo de se adequar.
São novidades, conceitos e ferramentas que
ainda nem existem nos livros, mas que já se lançam
como uma forte pressão sobre os executivos de marketing das
empresas. Clientes hoje se unem em blogs, sites e até mesmo
em comunidades de relacionamento para reclamar de uma empresa. Ferramentas
de busca como o Google e Yahoo despejam informações
em frações de segundos. São mecanismos que
se alastram de forma viral e fogem ao controle das empresas, exigindo
respostas imediatas e ações internas integradas entre
diferentes departamentos.
"O consumidor está muito mais rápido
do que as organizações", diz em entrevista ao
Valor o consultor americano Don Edward Schultz, professor da Northwestern
University. Autor de 18 livros, entre eles "O Novo Paradigma
do Marketing", Schultz foi um dos primeiros a citar o conceito
de comunicação integrada e a sinalizar que, com as
novas tecnologias, o poder estava migrando das empresas para os
consumidores. Ele esteve em São Paulo na semana passada como
palestrante do "1º Encontro Agenda do Futuro - Os desafios
da comunicação e do marketing na Nova Economia",
promovido pelo Grupo TV1.
Quem tem mais dificuldade de acompanhar essa velocidade,
diz Schultz, são os profissionais que já passaram
dos 40 anos. "Os jovens já nasceram assim, nesse mundo
com tanta informação e novidade, e entendem as mudanças
com facilidade. Aqueles de gerações mais antigas,
apesar de mais experientes, muitas vezes têm mais dificuldade
para lidar com o novo".
Por mais cruel que possa parecer sua afirmação,
Schultz insiste que este é um fato com o qual lida diariamente
na universidade. "Demoramos mais tempo retreinando os professores
do que ensinando os estudantes." Até mesmo os MBAs,
diz Don Schultz, considerados os cursos mais avançados da
administração, estão defasados nesse quesito.
"As escolas ainda estão mais focadas em produtos do
que em serviços", reforça. "E, levando isso
para as empresas, quando o consumidor sabe mais do que a pessoa
de vendas que está em contato com ele, temos um problema."
Mas, afinal, qual é o perfil do executivo
de marketing moderno? O consultor Jaime Troiano, diretor da Troiano
Consultoria de Marca, acredita que há três pontos fundamentais
que devem estar no DNA desse novo profissional: além da formação
mercadológica, tem que entender também de negócios,
com conhecimento de estratégia, finanças, tecnologia,
desenvolvimento de produtos, comunicação; deve ter
grande abertura à mudança, enxergando-a como desafio
e não como uma ameaça ao seu cargo; e tem que ter
profunda curiosidade para entender cada vez mais o seu cliente,
buscando ferramentas que ajudem a trazer o dinheiro do bolso do
consumidor para o caixa da empresa entendendo o que o cliente sente.
O diretor de marketing e tecnologia da Cyrela, Germán
Quiroga, levou para o setor de construção civil a
experiência que teve ao participar do "start up"
da Americanas.com, onde foi o principal executivo de marketing e
tecnologia. E o resultado tem sido muito interessante no que diz
respeito à inclusão das novas mídias e tecnologias
em um meio bastante tradicional: a empresa, que atua como incorporadora,
construtora e imobiliária e tem hoje 30% de suas vendas realizadas
pela internet, o que já representa em torno de 20% do faturamento
da companhia. "O cliente que usa essa mídia quer ser
atendido rapidamente, eficientemente e com segurança. Mas
também sabemos que no fundo ele tem as mesmas expectativas
dos outros: ser bem atendido."
Afinal, criar um novo canal de comunicação
com o cliente não significa apenas lançar um bom site
na internet, e eis aí mais uma barreira a ser rompida pelos
profissionais de marketing. Existe uma grande mudança cultural
por trás de tudo isso. É preciso, por exemplo, haver
capacitação intensiva da equipe de atendimento. "Damos
treinamento aos consultores até mesmo de língua portuguesa,
para que eles escrevam corretamente as mensagens eletrônicas,
e também na parte jurídica, porque a responsabilidade
sobre aquilo que é escrito é muito grande", conta
Quiroga.
Quanto à sua própria carreira, o executivo
concorda com os especialistas de que é fundamental ter visão
global do negócio. "O volume de novas formas de comunicação
é enorme. Você precisa saber escolher aqueles que geram
mais valor para a empresa e que componham o seu mix de ofertas",
diz ele, graduado em engenharia eletrônica e mestre em mídias
digitais pela Escola Politécnica da Universidade de São
Paulo (Poli-USP).
A preocupação faz sentido: consultorias
internacionais como Interactive Advertising Bureau, McKinsey e Booz
Allen Hamilton comprovam que, quando o departamento de marketing
atua com sinergia com outras áreas ele alcança um
nível estratégico, os resultados traduzidos em receitas
e lucros são maiores.
Para o professor e consultor José Carlos
Teixeira Moreira, da Escola de Marketing Industrial (EMI), o que
mudou e muitos não perceberam é a exigência
e o direito do consumidor pela relação verdadeira
com a empresa. Independentemente do canal, se é tradicional
como a televisão ou moderno como o celular ou a internet,
o que o cliente quer é ser acolhido -e não apenas
atendido. "Na carreira do marketing, além de dominar
o que há de ponta na tecnologia, o profissional tem que dominar
o que há de eterno na relação com o outro:
o acolhimento. Quem vai se destacar são aqueles que estão
prontos para ouvir", diz ele.
Teixeira Moreira, que fundou a EMI com objetivo
de trazer mais valor à relação empresa/cliente,
o desafio da carreira é orquestrar o equilíbrio entre
a tecnologia e o moderno a serviço da construção
de relações duradouras. Uma das principais funções
do profissional de marketing, completa ele, é conseguir ter
o presidente da empresa ´trabalhando´ para ele. "A
questão mercadológica é um processo de compromisso
e crença", diz. Entre os exemplos de vanguarda nesse
sentido, Moreira destaca empresas como Sadia, grupo Algar, Método
Engenharia e Magazine Luiza.
Nas universidades, a dificuldade consiste em ensinar
aos alunos temas que mudam com tamanha velocidade especialmente
em função da internet e novas tecnologias disponíveis
para uma empresa se comunicar com os clientes, como os blogs, celulares
e sites de relacionamento. "A disciplina de marketing está
se tornando mais voltada para o processo do que para o conceito.
Muito do que estamos discutindo não está nos livros,
e até mesmo os 'cases' publicados já estão
antigos. Hoje focamos as aulas em casos do dia-a-dia, fazendo uma
mistura organizada entre as experiências dos alunos e professores",
explica Thimothy Altaffer, professor do Certificate in Marketing
Management (CMM), pós-graduação em gestão
de marketing do Ibmec São Paulo.
A prestação de contas sobre os investimentos
realizados em merketing também é outro fator que pesa
entre as funções do executivo da área atualmente.
"O marketing tradicional era mais intuitivo ao tentar entender
o consumidor. Hoje em dia existem muitas ferramentas e maneiras
tangíveis de se medir os resultados dos investimentos. E
os profissionais são cobrados por isso", diz o professor.
Sob o ponto de vista das contratações
e mercado de trabalho, o headhunter Dárcio Crespi, sócio
diretor da Heidrick & Strugles, diz que importa menos o número
de canais e ferramentas que o executivo conhece e mais a linguagem
que ele utiliza e se ele é capaz de dar as respostas na velocidade
necessária. Já em relação à idade
do profissional, Crespi explica que depende muito do público
com o qual a empresa contratante se relaciona. "Se o produto
é voltado para o público jovem, o perfil do profissional
que vamos buscar provavelmente será o mais próximo
possível do consumidor."
O segredo, segundo o diretor-geral do grupo atacadista
Martins, César Suaki , é obter coerência e alinhamento.
"Não podemos esquecer que, junto da nova economia, continua
a velha economia. Nós usamos a tecnologia da informação
para conciliar o concreto e o virtual."
(Valor)
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