Chefe dos Patrões
Os advogados
mais bem-sucedidos do mercado muitas vezes recebem um prêmio
duvidoso pela carreira: fundam grande bancas e, com o tempo,
passam a dedicar tanto tempo à administração
da firma que mal conseguem advogar. É frustrante para
eles, sempre apaixonados por Direito, e para os clientes,
que vão aos escritórios em busca de nomes consagrados
e acabam atendidos por profissionais com menos tempo de estrada.
A solução para esse aparente impasse veio do
mundo das grandes empresas. Os grandes escritórios
de advocacia estão aderindo à mania dos CEOs
– os executivos-chefe, no jargão americano, que
comandam o cotidiano das grandes empresas em nome dos acionistas.
Executivos
com carreira alheia ao Direito em posição de
comando são uma novidade daquelas que ninguém
acreditaria que fosse possível há alguns anos.
Advogados de sucesso costumam ser confiantes na própria
capacidade de tomar decisões sobre o destino de grandes
empresas. “A carreira deles é quase um vôo-solo”,
explica José Paulo Graciotti, um engenheiro e administrador
que se tornou executivo-chefe do Koury Lopes Advogados. “Eles
estão acostumados a ver presidentes de grandes empresas
vir a eles para perguntar o que fazer. Então é
complicado ter uma pessoa dentro do escritório dando
ordens”, resume.
Um executivo
convidado a liderar a parte administrativa e financeira de
uma banca de prestígio enfrenta ainda uma posição
inusitada: a de ter de chefiar os próprios patrões,
que controlam a sociedade e já estavam bem estabelecidos
antes da chegada do gestor profissional. Clemência Wolthers,
sócia-gerente da maior firma do Brasil, a Pinheiro
Neto Advogados, ressalta que o sucesso da profissionalização
depende da capacidade dos sócios de mais peso na casa
de engolir a vaidade e dar suporte ao executivo contratado.
“Nós mantemos um grupo de executivos de três
advogados para decidir as questões estratégicas,
mas recrutamos pela primeira vez no mercado um diretor-financeiro-administrativo
com outra formação”, conta. O escolhido,
Sérgio Chaves ganhou uma autonomia e um acesso a reuniões
sem precedentes. “Antes era tudo mais artesanal. A firma
se sofisticou de uma maneira absurda”, diz Clemência.
O orgulho
corporativista explica em parte a demora das grandes firmas
em aderir à gestão profissional, um requisito
básico para a sobrevivência de qualquer tipo
de empresa. Mas para Rogéria Góes, CEO do Leite,
Tosto e Barros, a chegada de um executivo-chefe de ver encarada
com tranqüilidade. “A firma tem claramente um líder,
que é o doutor Ricardo Tosto (um dos fundadores). Eu
sou o braço operacional”, diferencia. “O
papel de gente como eu é transformar a banca em uma
empresa de prestação de serviços”,
diz.
A onda
dos CEOs veio das firmas americanas, com mais de 2 mil advogados,
e aportou no Brasil quando as similares locais perderam um
de seus filões mais rentáveis: o das privatizações.
Os negócios eram muitos e, com isso, a maioria dos
escritórios inchou. De repente, as privatizações
acabaram, e os custos ficaram altos demais. Os CEOs foram
lembrados para controlar os custos e aumentar a eficiência.
“Isso é saudável, cada macaco no seu galho.
Advogados são como médicos, ótimos especialistas
em suas áreas, mas não necessariamente bons
gestores”, compara o especialista em executivos Robert
Wong, sócio sênior da Korn Ferry International.
(Revista
Época - 20-02-04)
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