Executivos aprender mandarim para agradar os chineses

Inúmero executivos brasileiros decidiram aprender o “Mandarim”, idioma oficial da República Popular da China, para melhorar sua performance na hora de negociar com os chineses.

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Para agradar os chineses, vale aprender o mandarim

Em sua última viagem a Xangai, em dezembro passado, o advogado Heller Redo Barroso realizou uma façanha inédita. Conseguiu barganhar com os vendedores do mercado municipal o preço de um vaso e obteve um desconto de 80%. Detalhe, falando em mandarim, a língua oficial da República Popular da China. Isso tendo começado a estudar o idioma há menos de um ano. "Falar um pouco já faz toda a diferença na hora de fechar qualquer negócio por lá", comemora.

Ele é um dos inúmeros profissionais brasileiros que decidiram aprender o idioma para melhorar sua performance na hora de negociar com os chineses. Barroso, sócio do Bastos Tigre, Coelho da Rocha e Lopes Advogados, em outubro passado, abriu um novo escritório da empresa em Xangai. Desde que passou a manter uma relação mais estreita com o mercado asiático, ele decidiu aceitar o desafio de estudar o mandarim. "Nas províncias menores quase ninguém fala inglês", justifica.

Barroso fala francês, espanhol, italiano, inglês, alemão e garante que falar chinês não é tão difícil, o mais complicado é escrever e ler os ideogramas mais usados. "Não existe uma correspondência silábica de letras", explica. Uma entonação errada pode mudar completamente o sentido de uma frase.

O professor Tyn Yn Chang, também chamado pelos alunos de Antonio, concorda com Heller. O tempo mínimo para alguém começar a ler em chinês como um iniciante é de um ano. Escrever, por sua vez, demorará ainda mais, dependendo do empenho do estudante. "Os alunos preferem aprender direto a falar a língua dio dia-a-dia, a fonética mais comum, o Pin Yin", conta.

Antonio e sua esposa Molly (Chang Tsai Hsui Yi), naturais de Taiwan, estão no Brasil desde 1965. Começaram a lecionar o mandarim em São Paulo, há quinze anos, em uma escola de língua chinesa fundada pela Igreja Católica. Desde 2000, eles estão dando aulas particulares e nos últimos dois anos, o casal viu o número de alunos triplicar. Atualmente, eles têm mais de 40 estudantes entre empresários, engenheiros, advogados e executivos. "O interesse da maioria é aprender o idioma para poder realizar negócios", diz Antonio.

No Rio de janeiro, a professora Yuan Aiping, conhecida entre os alunos como Susan, natural de Beijin, também comemora o aumento da procura pelos seus serviços. Atualmente, tem mais de 40 alunos particulares. Ela chegou à cidade em 1997, cursou estudou português para estrangeiros na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e complementou os estudos na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Ela é autora do livro "Português Para Chineses" e em abril estará lançando o "Manual Chinês Para Brasileiros". Em 252 páginas, o novo livro, que vem acompanhado de dois CDS, reúne as 540 palavras mais usadas pelos chineses. "Ele ajudará as pessoas a aprenderem o básico para falar, ouvir e escrever", diz a professora.

Entre os alunos de Susan estão também profissionais liberais e executivos de várias áreas e idades. O analista de suprimentos da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), Mário Carneiro de Mendonça Raulino, de 27 anos, decidiu começar a estudar há seis meses. Ele e outros cinco colegas da empresa estão à procura de um diferencial no currículo. "Queremos nos destacar num futuro próximo", diz. "A China está prestes a dar um 'boom' no negócios e acredito que poucas pessoas terão disposição para estudar o mamdarim, porque é realmente muito difícil".

Falando chinês, Raulino espera abrir as portas dentro da própria companhia, onde trabalha há quatro anos. Afinal, a CVRD é a terceira maior exportadora do país e fechou um contrato com Baosteel, maior siderúrgica chinesa, para fornecimento de minério de ferro até 2016. A indústria do aço no Brasil é uma das maiores exportadoras para a China.

O aumento das exportações brasileiras que, só no ano passado cresceram 79,9% , atingindo 4,533 bilhões, são um grande incentivo para que os empresários nacionais se debrucem sobre os livros para aprender o mandarim. É caso de Newton de Mello, dono da Mello S.A. Máquinas E. Equipamentos. Há dois anos, ele estuda o idioma porque tem interesse em exportar para a China.

A primeira vez que Mello pisou em solo chinês foi representando a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ), da qual é diretor. Em abril, ele aportará novamente na cidade de Hangzhou, próxima a Xangai, desta vez, para tentar fechar negócios como os chineses. Aos 59 anos de idade, ele diz que não tem intenção se tornar fluente na língua, mas quer saber o mínimo para causar simpatia entre os futuros parceiros. "Um pequeno esforço para tentar falar uma ou outra frase já causa um efeito muito positivo", diz.

O empresário Rodrigo Borobia, fundador da Interglobal, que hoje tem 50% das suas importações de látex para travesseiros e colchões vindas da China, diz que começou a aprender chinês para demonstrar respeito pela cultura local. Há três anos, ele tem viajado regularmente ao país. "Na segunda viagem percebi que se quisesse realmente demonstrar meu real interesse em negociar, precisaria aprender um pouco do idioma", conta.

Depois de dois anos de estudo, ele diz que nas viagens já consegue se virar bem com o idioma em taxis, hotéis e restaurantes. "Não consigo ler um jornal, mas o básico eu já entendo", diz. Borobia conta que comprar e vender para a China é mais complicado do que parece. "As diferenças culturais são imensas, no gestual, em tudo, é preciso saber muito bem com quem você está lidando".

Ela lembra que certa vez contratou uma tradutora para acompanhar uma série de reuniões de negócios na China. O encontro ficou truncado nos primeiros dias, porque os chineses falavam em um dos inúmeros dialetos para que ela não entendesse uma palavra sequer. "Ele não compreendia porque eles não abriam nada de seu negócio", conta. Só dois dias depois, Borobia descobriu que o problema é que naquela região não era permitido o acesso de mulheres às mesas de negócios.

Heller Redo Barroso diz que também esbarrou com as tais barreiras culturais por não saber que nos encontros de negócios os mais velhos sempre falam primeiro. "A hierarquia é fundamental", conta.

Nem todas as regiões da China, que tem 1,3 bilhão de habitantes, são tão apegadas a essas tradições e a tendência com o crescimento econômico (a economia chinesa cresceu 9% em 2003, a taxa mais alta desde 1997) é que as rodas de negociações se ocidentalizem, para a sorte dos brasileiros.

"Temos sentido um interesse cada vez maior dos brasileiros em aprender não só a falar chinês, mas em conhecer melhor nossa cultura", diz Charles -Andrew Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil China, fundada em 1986, hoje com 300 sócios. No ano passado, ele realizou 16 palestras para falar de seu país. Da última feira Brasil China Trade Fair realizada em 2002, em Xangai , participaram 118 empresários. A expectativa dele é que na próxima, em dezembro, o número de interessados seja bem maior. "O comércio bilateral entre os dois países representa menos que 1% do que a China negocia com o resto do mundo. Para a dimensão dos dois países o volume ainda é pequeno. Por isso, ainda existe muito espaço para essa relação crescer", diz. Hoje, existem 1.635 empresas brasileiras exportando par o mercado chinês.

(Valor Econômico – 24/03/04)