Globalização traz novos desafios aos executivos

Com a expansão das empresas brasileiras no exterior, a expatriação de executivos é cada vez mais comum. O caminho inverso também se intensificou: multinacionais enviam profissionais ao Brasil numa aposta no crescimento do mercado nacional. A expatriação ainda é um dos maiores desafios na carreira de um executivo, mas para a maioria a dificuldade não está nas novas funções.

“São poucos os casos nos quais o executivo se depara com uma função além de suas capacidades”, diz a responsável pela área de assessoria em gestão da KPGM, Gisleine Camargo. “Em geral, a grande dificuldade está em se adaptar aos costumes locais dentro e fora do trabalho.” Ela afirma que, em geral, de cada 10 executivos expatriados, 3 passam por dificuldades no novo país ou até desistem.

Uma das maneiras de evitar atritos com os subordinados é admitir a origem estrangeira. O executivo Zhengrong Liu é atualmente um dos chineses com cargo executivo mais alto na Europa: ele ocupa a vice-presidência mundial de RH da alemã Lanxess - fabricantes de produtos químicos e borracha sintética presente em 20 países. “A cultura organizacional das empresas é a mesma em todos os países, mas a cultura das pessoas não. Quando cheguei na Alemanha, disse a eles que era o novo chefe, mas por ser de fora iria errar e queria que eles me corrigissem quando achassem necessário.”

Porém, Liu alerta que a atitude humilde não pode dar margem aos subordinados pensarem em incompetência. “Ao mesmo tempo, disse a eles que por vir de fora sabia como era a operação fora da matriz e expliquei minha boa relação com os executivos de várias filiais. Um líder tem de saber falar a seus colegas por que ele está ali.” Ser arrogante e se mostrar como “a pessoa que manda” apenas cria mais barreiras.

O diretor-comercial da Sadia na Europa, Jean Karr, mora na Áustria e reforça a questão da transparência. “O executivo tem de estar aberto a novas opiniões e culturas, e deve fazer isso rápido. Uma adaptação ruim pode gerar mal-estar na equipe e arruinar projetos.” Ele diz que os estrangeiros podem aceitar que você tenha dificuldades com o idioma, por exemplo, mas não com a maneira de eles trabalharem. “Aqui na Áustria, por exemplo, eles são extremamente produtivos, mas a pausa para um descanso ou um café é essencial. Conversa-se sobre teatro e filmes, não trabalho.”

Cyrille Verdier, diretor-executivo da francesa Accor Services no Brasil, diz que o estrangeiro também estranha inicialmente a maneira de se trabalhar do brasileiro. “As pessoas são próximas, vestem a camisa das empresas e levam muitas coisas para o lado pessoal. Isso pode ser estranho para quem vem de países mais frios”, exemplifica. “Alguns estrangeiros acham que a produtividade do brasileiro é menor, mas não é verdade. Você pode exigir muito, mas tem de apoiar as atividades, não só cobrar.”

Filho de expatriado e com 12 anos de Brasil, Verdier diz que, com o apoio da família e disposição para aprender, qualquer executivo pode se adaptar ao Brasil. “É um país dos mais receptivos e otimistas.”

Após a integração, Karr, da Sadia, sugere iniciar a formação de um sucessor. “Muitas empresas que estão se expandindo no exterior, como a Sadia, enviam executivos para liderar novos escritórios. Mas logo esses escritórios precisarão ter seus líderes locais, e nossa missão é preparar isso.”

Decisão pessoal e familiar: Gisleine Camargo, da KPMG, afirma que o executivo deve avaliar se está preparado para a mudança e se ela será benéfica para a carreira. Em seguida, verificar se a família aceita acompanhá-lo (ou que ele vá sozinho). “Esses dois pontos devem estar resolvidos antes de se aceitar qualquer proposta.”

Garantias e riscos: As funções no novo país devem estar bem claras, assim como garantias de que haverá espaço para discutir dificuldades lá fora. O executivo também deve questionar, em caso de expatriação temporária, qual papel desempenhará na volta, para não correr o risco de se ver sem função ao retornar.

Abertura para diferenças: Na maioria dos casos, brasileiros no exterior estranham a frieza das pessoas dentro e fora das empresas e o alto custo da alimentação - fora as diferenças culturais. Já os estrangeiros se preocupam mais com segurança, burocracia e a urbanização desorganizada de muitas cidades brasileiras.

(O Estado de S.Paulo)

   

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