Uma proposta para desatar os nós da formalidade
A notícia
mais curiosa gerada pelo Fórum Econômico Mundial,
que foi até domingo em Davos, na Suíça,
foi gerada por uma pequena, porém significativa, alteração
no vestuário de seus participantes. A organização
do fórum propôs aos líderes políticos
e empresariais tirarem as gravatas. Deixar de lado aquele
que se tornou o símbolo do vestuário masculino
contemporâneo, em prol de uma atmosfera mais informal.
Como se ao afrouxar os nós, os líderes também
amenizassem suas diferenças, numa clara demonstração
de que a peça teria uma conotação política.
Havia
também a função humanitária. Quem
desobedecesse à norma seria punido com uma multa no
valor de US$ 3,5, que seria doada à Unicef. Este ensaio
de "queima de sutiãs" do mundo masculino
teve uma adesão pequena. Líderes como o presidente
da Suíça, Joseph Deiss, e o dos Estados Unidos,
George Bush, preferiram não arriscar sua imagem e apareceram
em público com o colarinho engravatado. Já o
presidente do Banco Central, Henrique Meireles, chegou a aderir
à nova norma, mas acabou surgindo de gravata novamente.
Para o
historiador de moda João Braga, a gravata não
é só um símbolo do uniforme executivo.
"Ela representa o poder e está relacionada à
própria masculinidade. Por isso, é tão
difícil abrir mão dela." Segundo ele, os
organizadores do Fórum talvez quisessem "desarmar"
o ocidente (ou, quem sabe, o próprio capitalismo),
para unifica-lo com as lideranças orientais. "Os
hindus, por exemplo, não costumam usar gravatas."
De forma
geral, a vestimenta sempre teve um significado político
importante e foi veículo de denúncia social.
Não é à toa que os nobres, através
da história, baixavam leis proibindo ou obrigando o
uso de determinadas vestimentas, acessórios ou cores.
" Na Roma antiga somente os imperadores podiam usar a
cor púrpura " , diz Braga, que cita um exemplo
mais recente: a medida tomada pelo governo francês de
proibir o uso de símbolos religiosos pelos alunos das
escolas públicas. Por esta medida, nem os tradicionais
véus usados pelas mulheres muçulmanas estão
liberados. " Isso prova a força que a vestimenta
tem de denunciar uma condição social, religiosa
ou ideológica. Uma pessoa nua não revela quem
ela é. "
O termo
gravata é uma corruptela da palavra croata. Durante
a Idade Moderna, os soldados da Croácia usavam um tipo
de adorno no pescoço chamado " croata " que,
em francês, virou cravate e, em português, gravata.
O acessório ganhou importância para o figurino
masculino principalmente a partir da Revolução
Industrial e nunca mais saiu de cena.
Para a
consultora de recursos humanos Heloísa Caiuby Coutinho,
que já esteve por duas vezes no Fórum Econômico
Mundial, a norma anti-gravata foi uma forma bem-humorada de
pedir doações à Unicef. " Não
acredito que a intenção tenha sido a de quebrar
a formalidade, porque os homens presentes ao fórum
são formais pela necessidade de seus cargos. "
Segundo a consultora, tirar a gravata poderia gerar tanto
constrangimento que o ambiente ficaria mais rígido.
" Esses homens já nasceram de gravata " .
Nas ocasiões em que esteve no fórum, os homens
que abriram mão do uniforme foram líderes que
usavam roupas típicas de seus países.
Nos escritórios,
o movimento dos sem-gravata ainda não ganhou corpo.
" Não considero a gravata essencial, mas não
consigo não usa-la em situações formais
" , admite Márcio Emery, diretor de Asset Menegement
do Banco Alfa, que trabalha de terno e gravata, de segunda
à quinta-feira, e com roupa casual, às sextas-feiras.
" Ela ainda é um símbolo muito forte. Não
usar dá a sensação de não pertencer
àquele grupo. " Apesar disso, Emery atenderia
a recomendação dos organizadores se estivesse
em Davos. Mas para a consultora Heloísa, a questão
de usar ou não gravata sequer passou pela cabeça
dos líderes que se encontraram na Suíça.
" Não há como saber se as gravatas colaboram
ou atrapalham o andamento das negociações "
, afirma. " Mas o homem parece ter mais desenvoltura
quando a usa " .
(Valor
Econômico – 27/01/04)
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