Novas tecnologias mudam relação homem-trabalho

Pelo menos uma ferramenta consegue reunir atualmente carreiras tão díspares como a medicina e a engenharia, a administração e a pesquisa científica, a física e o direito: o computador. O ranking das dez profissões de nível superior que mais crescerão até 2012, mostra que ao menos sete exigem a manipulação de computadores.

Leia mais:
     - Novas tecnologias mudam relação homem-trabalho
     - Inovação reforça geração de vagas em saúde
     - Custo elevado intimida mercado
     - Ultra-especializado, pesquisador decifra a "enciclopédia da vida"
     - Bioinformática acelera pesquisa dos organismos
     - "Nanoera" vai mudar paradigmas em várias áreas do conhecimento
     - Ampla, área lida com "cérebro" das máquinas
     - Peritos e hackers duelam no mercado
     - Novidade, cogeração vai exigir engenheiro multiespecializado
     - Meta é baratear as células a combustível
     - Embraer domina oferta de postos de trabalho
     - Formação superior está limitada a poucas universidades no país

 

 

 

 

 

Novas tecnologias mudam relação homem-trabalho

Pelo menos uma ferramenta consegue reunir atualmente carreiras tão díspares como a medicina e a engenharia, a administração e a pesquisa científica, a física e o direito: o computador. Raras ocupações, pelo menos entre as mais valorizadas, estão hoje livres do contato com essas máquinas. No futuro, serão ainda menos. No ranking das dez profissões de nível superior que mais crescerão até 2012, nada menos do que sete exigem a manipulação de computadores. Analistas de redes e de dados lideram o ranking de expansão, segundo previsão do Departamento de Estatísticas do Trabalho dos Estados Unidos.

A própria compartimentação do trabalho em áreas delimitadas, aliás, está posta em xeque. "É uma tendência contemporânea que os trabalhos altamente qualificados encontrem-se mais integrados que no passado. Para as profissões de ponta, a cooperação tornou-se uma espécie de condição sem a qual o desenvolvimento de projetos inovadores fica prejudicado", observa Ruy Braga, professor de sociologia do trabalho da USP (Universidade de São Paulo).

Multidisciplinaridade, dizem os especialistas, é a palavra de ordem. Por isso, geneticistas costumam ser biólogos ou médicos de formação, mas matemáticos, estatísticos e engenheiros da computação são bem-vindos na área. "O novo profissional reúne muitas competências", resume a professora Regina Vasconcellos Antônio, do grupo de engenharia genômica da Universidade Federal de Santa Catarina.

O mesmo acontece na área de saúde, que comporta, em seus ramos mais "high-tech", físicos, especialistas em computação e engenheiros biomédicos. O coordenador-geral da disciplina de telemedicina da USP, Chau Lung Wen, define o trabalho em sua área como "a arte de reunir profissionais diferentes para atuar em conjunto usando tecnologia".

Neste especial a Folha selecionou seis "tecnoprofissões", cujo cotidiano difere muito do que se considera um trabalho "tradicional". São carreiras que lidam com realidade virtual, manipulação de átomos e genes, máquinas invisíveis a olho nu, robôs, imagens ultra-realistas do corpo humano, chaves criptográficas e fontes alternativas de energia.

Algumas dessas ocupações são promissoras; outras, por muito especializadas, mal absorvem a mão-de-obra que sai anualmente de graduações e, especialmente, de mestrados e doutorados.

Enquanto algumas profissões de ponta antecipam o que pode vir a se tornar banal daqui a 50 anos, como lidar com realidade virtual ou nanomáquinas, especialistas se esmeram em imaginar quais serão as ocupações do futuro, que ainda nem existem.

Os consultores de negócios Adam Hanft e Faith Popcorn imaginam o nascimento de funções como "designers de gráficos de explanação" (especialistas em facilitar a visualização da grande quantidade de dados do mundo moderno), "mordomos de tecnologia" ("personal trainers" de todo tipo de parafernália) e "especialistas em simplicidade" (capazes de tornar softwares e hardwares mais fáceis de domar), entre outras profissões.

(Folha de S. Paulo – 30/10/05)

 

Inovação reforça geração de vagas em saúde

A tecnologia é vista pelos críticos como "ceifadora" de mão-de-obra, por mecanizar atividades antes exercidas por profissionais de carne e osso. Na área da saúde, porém, ela gera oportunidades.

Segundo o Ministério da Saúde, entre 1998 e 2001, foram criados quase 380 mil empregos no setor, motivados tanto por investimentos como pelo avanço tecnológico, que foi acompanhado da necessidade de pessoal para pesquisar e operar novos equipamentos.

A telemedicina é um exemplo. O segmento envolve um leque multiprofissional que pode incluir desde o médico especialista até o pessoal de engenharia (tecnologia), enfermagem e teleeducação, entre outros.

O aprendizado, porém, ainda é pouco difundido. "A graduação já deveria fornecer esses conhecimentos como parte do ensino básico, mas isso ainda não acontece", conta o professor Chao Lung Wen, coordenador-geral da disciplina de telemedicina da USP.

Contra isso, a universidade criou um pacote de ações chamado Liga de Telemedicina, para motivar alunos das áreas de saúde e de tecnologia a participar das atividades da disciplina.

"Daqui a cinco anos, quem não trabalhar com telemedicina sofrerá preconceito", prevê Wen. "Planos de saúde e governo já estão discutindo o reembolso do teleatendimento", completa.

O Ministério da Ciência e Tecnologia acaba de aprovar uma verba de R$ 5 milhões para o projeto Estação Digital Médica - Estratégia de Implementação e Ampliação da Telemedicina no Brasil, coordenado pela Faculdade de Medicina da USP.

Os recursos deverão financiar a pesquisa científica e o desenvolvimento tecnológico da telemedicina pelos próximos três anos, unindo hospitais, universidades, empresas, órgãos governamentais e outras instituições por meio das telecomunicações, informática e demais soluções tecnológicas.

Atualmente a telemedicina é aplicada em hospitais e instituições de saúde que buscam outros centros para troca de informações. A técnica também possibilita monitorar pacientes crônicos e até, em alguns casos, o "homecare" (assistência domiciliar). O médico Cyro Festa Neto, 55, professor do departamento de dermatologia da USP, diz, porém, que o último será exceção.

"A tecnologia nunca vai substituir a relação médico-paciente." Seu trabalho na área, hoje, é voltado ao ensino e à triagem de casos, como a que está sendo feita no projeto Telemedhansen, que vai avaliar a potencialidade da técnica no controle da hanseníase.

(Folha de S. Paulo – 30/10/05)

 

Custo elevado intimida mercado

O setor de imagem está entre os que mais crescem em termos de novas aplicações tecnológicas na medicina. O diagnóstico é de Carlos Alberto Moreira, diretor-superintendente do Instituto de Ensino e Pesquisa do hospital Albert Einstein, referência no país.

As técnicas de tomografia computadorizada e ressonância magnética, por exemplo, têm conquistado espaço no diagnóstico de problemas cardiovasculares e na neurorradiologia. O mercado de trabalho, no entanto, ainda não sentiu os efeitos dessa evolução.

"A tecnologia está cada vez mais interessante, mas ainda é muito cara. São poucos os locais que podem contar com ela", afirma André Scatigno Neto, presidente da Sociedade Paulista de Radiologia e Diagnóstico por Imagem.

Segundo Neto em geral o estudante brasileiro tem contato com as novas técnicas durante a faculdade, mas, quando vira profissional, não. "É uma frustração." Os que conseguem colocações nos grandes hospitais e laboratórios não têm esse problema, mas têm de fazer residência mínima de três anos e mais um ou até dois anos de especialização. É comum estudarem física e informática.

"Tive de aprender a linguagem de programação na ressonância magnética para poder pesquisar", diz o neurorradiologista Edson Amaro, 35, que produz diagnósticos com a ajuda, entre outros, do PET (tomografia por emissão de pósitrons, em português), técnica na qual uma substância radioativa é injetada no paciente para a obtenção das imagens.

A robótica também ganha espaço na saúde. O próprio Einstein tem planos de implantar, em 2006, um centro de treinamento com simulação realística (em que o robô reproduz as reações humanas e responde a estímulos) e cirurgias com a ajuda de máquinas. O Centro de Treinamento Berkeley, no Rio de Janeiro, é o único na América Latina hoje a usar a robótica para treinar acadêmicos e profissionais de saúde.

(Folha de S. Paulo – 30/10/05)

 

Ultra-especializado, pesquisador decifra a "enciclopédia da vida"

Se quiser traçar o mapa da vida, o profissional da área de genômica terá um longo caminho a trilhar. A pós-graduação é indispensável nesse ramo que, além de exigir altíssima especialização, restringe a maioria de suas vagas à academia, longe das empresas.

Genômica é o estudo de todas as moléculas de DNA (ácido desoxirribonucleico) e de suas funções em um organismo. O resultado é uma espécie de enciclopédia que contém todas as instruções para o funcionamento da vida.

O trabalho do pesquisador consiste em dividir a enciclopédia em livros (cromossomos), analisar cada frase (propriedades metabólicas), cada palavra (os genes) e, por fim, cada letra (as bases adenina, timina, guanina e citosina).
Com isso seria possível, por exemplo, entender como se formam tumores e como poderíamos interferir nesse processo.

Tudo isso soa muito abstrato para quem não é da área, razão pela qual os estudiosos de genômica não vêm direto da graduação -passam por mestrado, doutorado e pós-doutorado.

Se o tempo de estudos é longo, o interesse deve nascer cedo. "Sempre tive atração por genética e fiquei em dúvida entre cursar medicina ou biologia", conta Mayana Zatz, do Instituto de Biociências da USP (Universidade de São Paulo). Elegeu a segunda opção.

Hoje Zatz é professora-titular da USP e diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano. "A partir de doenças genéticas, entendemos o que o gene faz de certo e de errado", diz. O centro atende a população e faz aconselhamento genético para famílias. "Explicamos que o exame de DNA aponta o risco de um filho ter uma doença genética."

As universidades brasileiras receberam um grande fluxo de investimentos a partir de 2000, quando começou o Projeto Genoma Brasileiro. De 2000 a 2004, o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) investiu mais de R$ 80 milhões em pesquisas na área.

"Em poucos anos o Brasil saiu de uma posição mundial zero em genômica para ser um dos líderes nessa área no mundo", afirma o ex-ministro da Ciência e Tecnologia Eduardo Campos.

Entretanto, o volume de investimentos caiu. "A genômica já teve seu grau de prioridade número um, quando o país precisava implantar infra-estrutura necessária ao desenvolvimento de pesquisa nessa área. Hoje, a prioridade tem sido o avanço do conhecimento em temas como células-tronco."

Com menos incentivos, os pesquisadores abrem suas próprias companhias, como a paulista Alellyx Applied Genomics, fundada por egressos do Projeto Genoma. "O Brasil teve um crescimento importante em biologia molecular, genômica, bioinformática. É uma oportunidade boa para dar um passo além, transformar conhecimento e técnica em PIB [Produto Interno Bruto]", avalia Paulo Arruda, 53, sócio-diretor.

Já o Biofoco, grupo de pesquisadores do Centro-Oeste dedicados a trabalhos multidisciplinares em bioinformática, é um exemplo de parceria com a iniciativa privada. O grupo tem o apoio da Dell Computadores para desenvolver softwares livres de bancos de dados genômicos. "Genômica é caro. Temos que analisar os genomas já disponíveis", diz o coordenador Georgios Pappas, 37, da Universidade Católica de Brasília.

(Folha de S. Paulo – 30/10/05)

 

Bioinformática acelera pesquisa dos organismos

O genoma do homem contém cerca de 3 bilhões de pares de bases nitrogenadas. Há 20 anos, decifrar a seqüência de um único gene com cerca de 12 mil bases levaria 12 meses; hoje, esse tempo caiu para um minuto. Graças à bioinformática. A bioinformática é um dos ramos mais promissores da genômica. Misto de engenharia da computação, estatística e biologia molecular, essa ciência propõe meios para interpretar grandes volumes de dados biológicos.

"Todos que lidam com organismos vivos vão trabalhar com informação genômica, em biologia, medicina, farmácia, indústrias químicas que fazem fermentação", diz Luismar Porto, líder do grupo de engenharia genômica da Universidade Federal de Santa Catarina.

(Folha de S. Paulo – 30/10/05)

 

"Nanoera" vai mudar paradigmas em várias áreas do conhecimento

Para quem pensa que o futuro já chegou, porque é possível construir robôs do tamanho de uma molécula, os especialistas afirmam: as descobertas mais importantes da nanotecnologia estão por vir.

“Ainda estamos muito longe de entender como, a partir de uma molécula de DNA e um conjunto de nutrientes, produz-se um organismo vivo, afirma Cylon Gonçalves, ex-secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência e Tecnologia, hoje diretor de tecnologia do Instituto Genius”. "A auto-organização é a forma pela qual a "nanotecnologia natural" funciona. Se a entendermos melhor, poderemos um dia adaptar algumas de suas estratégias à nanotecnologia "industrial'", diz.

As aplicações da "nanociência" estão beneficiando praticamente todas as áreas do conhecimento, portanto, as nanotecnologias são um novo paradigma a ser absorvido por inúmeros profissionais. Atualmente, porém, o âmbito dessa ciência é muito mais acadêmico, restrito à pesquisa dentro das universidades brasileiras.

"Em nosso país, a maioria dos profissionais que atuam em nanotecnologia encontra-se na universidade, mais especificamente, na pós-graduação (mestrado e doutorado)", afirma o professor Oswaldo Luiz Alves, coordenador científico do LQES (Laboratório de Química do Estado Sólido da Unicamp - Universidade Estadual de Campinas) e consultor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos do Núcleo de Estudos Estratégicos do governo federal. Os estudantes provêm, em sua maior parte, das áreas de química, física, biologia e engenharia.

Nem tudo que é nanométrico (1 bilionésimo do metro), porém, é necessariamente nanotecnológico. Entre os cientistas, já começa a ser consenso que só pode ser chamado de nanotecnológico aquilo que tem propriedades especiais em virtude do tamanho reduzido.

Um exemplo: hoje é possível mudar a cor de uma substância pela variação do tamanho de suas partículas, o que os cientistas chamam de efeito quântico de tamanho. "O ouro, em escala nanométrica, fica vermelho. Mas o objetivo de trabalhar com ele não é mudar sua cor, e sim, explorar suas propriedades, como a condução de eletricidade", explica o professor Ítalo Odone Mazali, 32, do Instituto de Química da Unicamp e do LQES. O estudo do metal é muito utilizado na medicina.

Graduado em química, ele fez mestrado e doutorado na mesma área, uma das mais importantes da nanociência. "São os conhecimentos da química que possibilitam a obtenção das partículas."

A grande contribuição da Unicamp está em polímeros, fibras ópticas, materiais semincondutores e materiais com propriedades magnéticas ou a base de carbono.
"Com os investimentos planejados para os próximos anos, espera-se avanço em setores como materiais, catalisadores para a indústria química, cosméticos, sensores e, dependendo dos processos regulatórios, nos medicamentos", afirma Gonçalves.

Apesar de não ter sido citada, a agricultura também já chegou à "nanoera". E a língua eletrônica é a prova disso. O equipamento, idealizado a partir de nanosensores, tem sensibilidade dez vezes maior que o paladar humano para identificar inúmeros gostos.

O aparelho permite, com rapidez, precisão e a um custo baixo, verificar a qualidade da água e a eventual presença de pesticidas e substâncias como metais pesados. A língua eletrônica diferencia sem dificuldade os padrões básicos de paladar (doce, salgado, azedo e amargo) em concentrações abaixo do limite de detecção do ser humano. O sistema também é capaz de diferenciar bebidas com gostos semelhantes (vários tipos de vinho, por exemplo).

A engenhoca, criação da Embrapa Instrumentação Agropecuária, avalia e classifica vários produtos segundo o seu paladar, qualidade, regiões e possíveis produtores.

O engenheiro de materiais Luiz Henrique Capparelli Mattoso, 43, pesquisador responsável pelo desenvolvimento do equipamento, investiu dois anos no mestrado e outros quatro no doutorado.

Ele conta que precisou se aprofundar no estudo das "ciências de superfície" e no conhecimento da utilização do microscópio de força atômica (cuja resolução chega ao tamanho do átomo).

"Os profissionais que querem trabalhar nessa área precisam se especializar em técnicas mais aprimoradas para o estudo da matéria em nível nanométrico", diz. "Mandamos um pesquisador à IBM para aprender a trabalhar com essa técnica", afirma.

Para ele, antes das nanociências, os pesquisadores se limitavam a observar os materiais como quem vê a Lua a olho nu. Hoje, eles já podem saber a composição da superfície e até enviar um "braço mecânico" para colher uma amostra. É que os equipamentos utilizados pelos "nanocientistas" possuem uma espécie de sonda, semelhante a uma agulha, que consegue tocar e manipular o átomo, em vez de apenas observá-lo.

(Folha de S. Paulo – 30/10/05)

 

Ampla, área lida com "cérebro" das máquinas

Na Bolsa de Valores de São Paulo, a gritaria do pregão é coisa do passado. Atualmente, 150 milhões de mensagens de compra, venda e cotação de ações são enviadas eletronicamente a corretoras e agências divulgadoras diariamente. Cada comunicado chega ao destino em menos de um segundo.

A migração para a era digital foi obra de profissionais de TI (tecnologia da informação). "O processo é mais eficiente e democrático do que tentar escutar quem quer comprar ou vender", diz Luiz Gonzaga Simões, 55, diretor de informática da Bovespa.

Presente em todas as áreas do cotidiano, a informática não está somente no mercado financeiro, mas também à nossa volta: em e-mails, celulares, elevadores, fornos de microondas etc. É papel dos profissionais de TI desenvolver o "cérebro" dessas máquinas, o software que as faz funcionar.

Também estão sob sua res- ponsabilidade o gerenciamento das informações geradas pelo software, o desenvolvimento de hardware e a administração de toda essa estrutura, prevendo problemas e investigando falhas.

"A área de TI é fundamental e todos os seus braços -segurança, desenvolvimento, manutenção- são vitais", explica Arnaldo Cadena, 44, gerente de segurança de informação, infra-estrutura e arquitetura de TI da Xerox.

Cadena implementou o "disaster recovery plan", ou plano de recuperação de desastres, na Xerox. O sistema consiste em um centro de processamento de dados reserva, capaz de manter a firma funcionando mesmo se um incêndio destruir a sede, por exemplo.

A área de TI não prima por valorizar diplomas superiores (leia mais abaixo). "Muitos vêm da engenharia e da ciência da computação, mas há uma tendência ao autodidatismo", diz Zilta Marinho, diretora da unidade de educação da Módulo Security.

(Folha de S. Paulo – 30/10/05)

 

Peritos e hackers duelam no mercado

Mensagens eletrônicas anônimas contendo ameaças, contaminação por vírus do tipo cavalo-de-tróia, fraudes em serviços bancários via internet: se a tecnologia da informação avança para o bem, avança também para o mal.

Em muitas situações, isso vira litígio na Justiça. "O computador passou a estar presente em muitos conflitos de interesses", diz Giuliano Giova, 56, diretor do Instituto Brasileiro de Peritos em Comércio Eletrônico e Telemática.

A proliferação dos hackers alimenta o mercado dos peritos em informática. Eles podem ser profissionais da confiança do juiz, quando na área cível, ou servidores concursados, na área criminal.

Computadores preparados para clonar discos rígidos e laboratórios para exames detalhados de dados são instrumentos desses "detetives", que buscam provas de crimes escondidas entre os bilhões de bits de um computador.

Chamado para investigar a freqüente violação da senha secreta em um computador de uma empresa, Giova detectou um vírus do tipo "keylogger", que envia para o autor da fraude uma lista com as teclas que o usuário digitou, ajudando a decifrar senhas bancárias, por exemplo. O fraudador foi desmascarado por uma "pegada" virtual deixada na memória do computador.

Tanto as áreas de perícia como a de segurança da informação são terrenos típicos de jovens autodidatas. Domingo Montanaro, 22, começou aos 14, quando descobriu um meio de acessar, pela rede, a máquina do professor de informática para jogar paciência.

Aos 17, já tinha sua própria consultoria. Aos 19, tornou-se perito. Hoje, trabalha na segurança de um banco. "Aprendi lendo, passando noites na internet", conta. "Não existe mais a palavra "formado". Em informática, há um volume bastante alto de criação de novas técnicas. A mudança é tão rápida que a universidade não as acompanha", analisa Marcelo Pessoa, professor da Escola Politécnica da USP.

Ainda assim, a formação universitária aliada a treinamentos técnicos é a mais próxima do ideal. "Há demanda de gente especializada", diz Marcelo Bezerra, diretor de tecnologia da ISS do Brasil. "A tendência de ter negócios virtuais é contínua, e poucas empresas têm sua área de segurança bem definida." Nesse campo, há espaço para crescer. Para evitar invasões e fraudes, as empresas investem em criptografia, ou seja, modos de embaralhar códigos para que não sejam entendidos por terceiros.

"As novas formas de segurança da informação sempre evoluem", diz Aroldo Yai, 45, gerente de vendas e segurança de software da IBM para a América Latina.

(Folha de S. Paulo – 30/10/05)

 

Novidade, cogeração vai exigir engenheiro multiespecializado

A oferta de energia não acompanhou o crescimento da demanda no Brasil nas últimas décadas, resultando em blecautes e racionamento. Segundo os ambientalistas, o problema é que nossa matriz energética é mais de 90% focada nos recursos hídricos. Em meio à crise, engenheiros de todas as áreas encontraram uma oportunidade: desenvolver novas formas de geração de energia.

Uma das estrelas do setor é hoje a cogeração: produção simultânea de duas ou mais formas de energia a partir de um só combustível (biomassa ou gás natural). "A cogeração é novidade, exigirá novas famílias de profissionais", diz Jayme Buarque de Holanda, diretor-geral do Instituto Nacional de Eficiência Energética. Segundo o Ministério de Minas e Energia, o peso da biomassa (resíduos agrícolas, madeira e cana-de-açúcar) na geração mundial de eletricidade crescerá 170% de 1995 a 2020, atingindo 27 TWh.

A cogeração polui menos e é mais econômica. "Depois dos blecautes, prédios comerciais começaram a exigir que as incorporadoras instalassem cogeração", ilustra Carlos Roberto Silvestrin, vice-presidente executivo da Cogen-SP (Associação Paulista de Cogeração de Energia).

A rede Sonda de supermercados e o hotel Sofitel já aderiram, com projeto da Iqara Energy Services operado remotamente pela Sotreq, que reduziu em 25% o consumo em três lojas.

Para acompanhar seu funcionamento, a Sotreq tem engenheiros de sistemas elétricos. São profissionais com conhecimentos nas áreas elétrica, mecânica, hidráulica e acústica. O engenheiro eletricista Maurício Garcia, 37, é um deles e comanda 25 colegas. "Tivemos que adquirir conhecimentos de informática e de eletrônica. Hoje não temos mais técnicos, só engenheiros, pois é preciso absorver toda essa tecnologia."

(Folha de S. Paulo – 30/10/05)

 

Meta é baratear as células a combustível

Pense numa pilha. Agora imagine-a amplificada e conectada a tubos que forneçam hidrogênio para que sua carga não se extinga nunca. Você acaba de formular uma idéia de como funciona a célula a combustível.

O sistema é bem mais complexo, mas, em síntese, a célula a combustível é um dispositivo que converte energia química em elétrica através da alimentação constante de hidrogênio.

Dentro do Cietec, incubadora de empresas de São Paulo, há um grupo de engenheiros pesquisando como miniaturizar e baratear essa tecnologia. São os quatro sócios da Electrocell, que se dedicam a pesquisar uma fonte de energia limpa, sem ruído e de qualidade. "A questão ambiental, o aumento do preço do petróleo, a diminuição das reservas, tudo isso nos impulsionou", afirma o engenheiro químico Gerhard Ett, 38, diretor industrial da firma.

Antes de se lançar na empreitada, porém, ele fez duas graduações (engenharia química e química), mestrado e doutorado no Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares) e três cursos de pós especificamente em células a combustível, na USP.

Seus sócios se formaram em outras áreas: um é engenheiro eletrônico, o outro, engenheiro eletricista, e o terceiro é engenheiro de materiais. A diversidade de conhecimentos é uma das características mais valorizadas nos pesquisadores da área energética.

O quadro de preocupação com o ambiente e com a escassez de recursos afeta também as empresas de petróleo, que estão se transformando em empresas de energia.

"É um movimento mundial", afirma Maria Helena Troise Frank, consultora da gerência de gás e energia do Cenpes (centro de pesquisas), da Petrobras. Segundo ela, as "bolas da vez" são o gás e a célula a combustível. Outra grande aposta é a biomassa. "O Brasil está sendo visto como a Arábia Saudita da biomassa. Isso tudo está abrindo oportunidades inimagináveis no mercado", diz.

Hoje, ela coordena uma carteira de projetos de geração de energia, distribuição e armazenamento de hidrogênio, substância cujo potencial é considerado grande. Segundo ela, porém, há muito mais o que pesquisar, "como os geradores e a sua integração com a rede de distribuição de energia, por exemplo. O horizonte de desenvolvimento é grande".

(Folha de S. Paulo – 30/10/05)

 

Embraer domina oferta de postos de trabalho

Na pesquisa aeronáutica, o céu não é o limite. Mas o mercado de trabalho, por sua vez, é limitado: historicamente, a carreira na área é restrita, no Brasil, à Embraer.

"O boom da engenharia aeronáutica só aconteceu na década de 80 e, depois, em 1994, com a privatização da Embraer", diz Roberto Girardi, do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica).

Hoje o mercado dá, enfim, sinais de expansão. "Alguns profissionais vão para empresas de táxi aéreo e de manutenção de aviões, sobretudo no Norte, que é uma região promissora", diz Paulo Henriques de Oliveira, professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Segundo ele, uma oficina de aviões paga salário de, em média, R$ 3.000, no Sudeste, e de R$ 5.000, no Norte.

O grande empregador continua sendo, contudo, a Embraer. A tecnologia de ponta da empresa permite que, no planejamento de um avião, a aeronave em si seja o último item a ser produzido. No CRV (Centro de Realidade Virtual) da empresa, projetos podem ser vistos em três dimensões detalhadamente. As imagens do avião são projetadas em uma grande tela e vistas com óculos especiais.

"É como se o avião existisse em escala real. A partir dessa visão, tomamos decisões e fazemos interferências no projeto", diz Hugo Resende, 45, cientista-chefe de desenvolvimento tecnológico.

Essa não é a única função do CRV. Até a linha de produção do avião é projetada em 3D antes de ser montada, assim como as cores que o cliente quis para a aeronave.

A Embraer desenvolve também pesquisa aplicada, como a que investiga soluções contra o gelo formado nas asas dos aviões durante um vôo. Uma das apostas é levar o ar quente do motor para a frente da asa, esquentando o metal.

Com o desenvolvimento da empresa e a alta demanda por profissionais de engenharia aeronáutica, a Embraer enfrentou a escassez de pessoal especializado (leia à pág. 15). A saída foi recrutar em áreas como mecânica e elétrica.

Para completar a formação desses engenheiros, a companhia desenvolveu com o ITA um programa, em nível de mestrado, de 16 meses de dedicação integral. "Precisávamos complementar a formação universitária com outras informações sobre aeronáutica, porque trabalhamos com alta tecnologia", diz Sidney Lage, 55, coordenador do programa.

(Folha de S. Paulo – 30/10/05)

 

Formação superior está limitada a poucas universidades no país

O Brasil possui apenas cinco cursos de engenharia aeronáutica, localizados no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), na USP (Universidade de São Paulo), na Unitau (Universidade de Taubaté, SP), na Unip (Universidade Paulista) e na Univap (Universidade do Vale do Paraíba). Em algumas universidades, como na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), em Belo Horizonte, a engenharia aeronáutica é uma ênfase da engenharia mecânica e o profissional é habilitado para trabalhar nas duas áreas.

Apesar de a atividade aeronáutica ser ampla e permitir espaço para outras formações, a habilitação em aeronáutica é a ideal. "O projeto do avião em si, da estrutura, da célula, é atividade exclusiva do engenheiro aeronáutico", diz Paulo Celso Rangel, consultor e ex-conselheiro do Confea (Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia). Em conseqüência da formação restrita de mão-de-obra, achar emprego não é o maior desafio dos bons engenheiros da área.

As universidades também investem em currículos e em pesquisas que dêem mais flexibilidade ao futuro profissional. O curso da Unitau, lançado há um ano, oferece especialização em helicópteros, por exemplo. "Nós quisemos um diferencial", diz José Rui Camargo, chefe do departamento de engenharia mecânica, ao qual o curso está vinculado.

A estrutura dos cursos costuma ser cara, o que também limita sua oferta. As pesquisas e testes feitos desde a faculdade são rigorosos -no ar, nada pode dar errado. Na USP de São Carlos, por exemplo, há exames de aerodinâmica de alto desempenho (aplicação de materiais que se deformam durante o vôo, aumentando a estabilidade do avião). "O objetivo é mudar as formas aerodinâmicas gastando pouca energia para otimizar o desempenho", explica o professor Eduardo Belo.

No ITA, muitos experimentos são realizados no túnel de vento, um corredor que simula a relação entre aeronave e atmosfera por meio de um grande ventilador. "Nós podemos medir, em escala, as forças que agem sobre o avião, a variação dos ângulo de decolagem e aterrissagem e o comportamento da máquina em rajadas de vento", diz Roberto Girardi.

(Folha de S. Paulo – 30/10/05)