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Novas tecnologias mudam relação
homem-trabalho
Pelo
menos uma ferramenta consegue reunir atualmente carreiras tão
díspares como a medicina e a engenharia, a administração
e a pesquisa científica, a física e o direito: o computador.
O ranking das dez profissões de nível superior que
mais crescerão até 2012, mostra que ao menos sete
exigem a manipulação de computadores.
Leia
mais:
- Novas tecnologias mudam
relação homem-trabalho
- Inovação
reforça geração de vagas em saúde
- Custo elevado intimida
mercado
- Ultra-especializado,
pesquisador decifra a "enciclopédia da vida"
- Bioinformática
acelera pesquisa dos organismos
- "Nanoera"
vai mudar paradigmas em várias áreas do conhecimento
- Ampla, área
lida com "cérebro" das máquinas
- Peritos e hackers duelam
no mercado
- Novidade, cogeração
vai exigir engenheiro multiespecializado
- Meta é baratear
as células a combustível
- Embraer domina oferta
de postos de trabalho
- Formação
superior está limitada a poucas universidades no país
Novas tecnologias mudam relação
homem-trabalho
Pelo menos uma
ferramenta consegue reunir atualmente carreiras tão díspares
como a medicina e a engenharia, a administração e
a pesquisa científica, a física e o direito: o computador.
Raras ocupações, pelo menos entre as mais valorizadas,
estão hoje livres do contato com essas máquinas. No
futuro, serão ainda menos. No ranking das dez profissões
de nível superior que mais crescerão até 2012,
nada menos do que sete exigem a manipulação de computadores.
Analistas de redes e de dados lideram o ranking de expansão,
segundo previsão do Departamento de Estatísticas do
Trabalho dos Estados Unidos.
A própria
compartimentação do trabalho em áreas delimitadas,
aliás, está posta em xeque. "É uma tendência
contemporânea que os trabalhos altamente qualificados encontrem-se
mais integrados que no passado. Para as profissões de ponta,
a cooperação tornou-se uma espécie de condição
sem a qual o desenvolvimento de projetos inovadores fica prejudicado",
observa Ruy Braga, professor de sociologia do trabalho da USP (Universidade
de São Paulo).
Multidisciplinaridade,
dizem os especialistas, é a palavra de ordem. Por isso, geneticistas
costumam ser biólogos ou médicos de formação,
mas matemáticos, estatísticos e engenheiros da computação
são bem-vindos na área. "O novo profissional
reúne muitas competências", resume a professora
Regina Vasconcellos Antônio, do grupo de engenharia genômica
da Universidade Federal de Santa Catarina.
O mesmo acontece
na área de saúde, que comporta, em seus ramos mais
"high-tech", físicos, especialistas em computação
e engenheiros biomédicos. O coordenador-geral da disciplina
de telemedicina da USP, Chau Lung Wen, define o trabalho em sua
área como "a arte de reunir profissionais diferentes
para atuar em conjunto usando tecnologia".
Neste especial
a Folha selecionou seis "tecnoprofissões", cujo
cotidiano difere muito do que se considera um trabalho "tradicional".
São carreiras que lidam com realidade virtual, manipulação
de átomos e genes, máquinas invisíveis a olho
nu, robôs, imagens ultra-realistas do corpo humano, chaves
criptográficas e fontes alternativas de energia.
Algumas dessas
ocupações são promissoras; outras, por muito
especializadas, mal absorvem a mão-de-obra que sai anualmente
de graduações e, especialmente, de mestrados e doutorados.
Enquanto algumas
profissões de ponta antecipam o que pode vir a se tornar
banal daqui a 50 anos, como lidar com realidade virtual ou nanomáquinas,
especialistas se esmeram em imaginar quais serão as ocupações
do futuro, que ainda nem existem.
Os consultores
de negócios Adam Hanft e Faith Popcorn imaginam o nascimento
de funções como "designers de gráficos
de explanação" (especialistas em facilitar a
visualização da grande quantidade de dados do mundo
moderno), "mordomos de tecnologia" ("personal trainers"
de todo tipo de parafernália) e "especialistas em simplicidade"
(capazes de tornar softwares e hardwares mais fáceis de domar),
entre outras profissões.
(Folha de
S. Paulo – 30/10/05)
Inovação reforça
geração de vagas em saúde
A tecnologia
é vista pelos críticos como "ceifadora"
de mão-de-obra, por mecanizar atividades antes exercidas
por profissionais de carne e osso. Na área da saúde,
porém, ela gera oportunidades.
Segundo o Ministério
da Saúde, entre 1998 e 2001, foram criados quase 380 mil
empregos no setor, motivados tanto por investimentos como pelo avanço
tecnológico, que foi acompanhado da necessidade de pessoal
para pesquisar e operar novos equipamentos.
A telemedicina
é um exemplo. O segmento envolve um leque multiprofissional
que pode incluir desde o médico especialista até o
pessoal de engenharia (tecnologia), enfermagem e teleeducação,
entre outros.
O aprendizado,
porém, ainda é pouco difundido. "A graduação
já deveria fornecer esses conhecimentos como parte do ensino
básico, mas isso ainda não acontece", conta o
professor Chao Lung Wen, coordenador-geral da disciplina de telemedicina
da USP.
Contra isso,
a universidade criou um pacote de ações chamado Liga
de Telemedicina, para motivar alunos das áreas de saúde
e de tecnologia a participar das atividades da disciplina.
"Daqui
a cinco anos, quem não trabalhar com telemedicina sofrerá
preconceito", prevê Wen. "Planos de saúde
e governo já estão discutindo o reembolso do teleatendimento",
completa.
O Ministério
da Ciência e Tecnologia acaba de aprovar uma verba de R$ 5
milhões para o projeto Estação Digital Médica
- Estratégia de Implementação e Ampliação
da Telemedicina no Brasil, coordenado pela Faculdade de Medicina
da USP.
Os recursos
deverão financiar a pesquisa científica e o desenvolvimento
tecnológico da telemedicina pelos próximos três
anos, unindo hospitais, universidades, empresas, órgãos
governamentais e outras instituições por meio das
telecomunicações, informática e demais soluções
tecnológicas.
Atualmente a
telemedicina é aplicada em hospitais e instituições
de saúde que buscam outros centros para troca de informações.
A técnica também possibilita monitorar pacientes crônicos
e até, em alguns casos, o "homecare" (assistência
domiciliar). O médico Cyro Festa Neto, 55, professor do departamento
de dermatologia da USP, diz, porém, que o último será
exceção.
"A tecnologia
nunca vai substituir a relação médico-paciente."
Seu trabalho na área, hoje, é voltado ao ensino e
à triagem de casos, como a que está sendo feita no
projeto Telemedhansen, que vai avaliar a potencialidade da técnica
no controle da hanseníase.
(Folha de
S. Paulo – 30/10/05)
Custo elevado intimida mercado
O setor de imagem
está entre os que mais crescem em termos de novas aplicações
tecnológicas na medicina. O diagnóstico é de
Carlos Alberto Moreira, diretor-superintendente do Instituto de
Ensino e Pesquisa do hospital Albert Einstein, referência
no país.
As técnicas
de tomografia computadorizada e ressonância magnética,
por exemplo, têm conquistado espaço no diagnóstico
de problemas cardiovasculares e na neurorradiologia. O mercado de
trabalho, no entanto, ainda não sentiu os efeitos dessa evolução.
"A tecnologia
está cada vez mais interessante, mas ainda é muito
cara. São poucos os locais que podem contar com ela",
afirma André Scatigno Neto, presidente da Sociedade Paulista
de Radiologia e Diagnóstico por Imagem.
Segundo Neto
em geral o estudante brasileiro tem contato com as novas técnicas
durante a faculdade, mas, quando vira profissional, não.
"É uma frustração." Os que conseguem
colocações nos grandes hospitais e laboratórios
não têm esse problema, mas têm de fazer residência
mínima de três anos e mais um ou até dois anos
de especialização. É comum estudarem física
e informática.
"Tive de
aprender a linguagem de programação na ressonância
magnética para poder pesquisar", diz o neurorradiologista
Edson Amaro, 35, que produz diagnósticos com a ajuda, entre
outros, do PET (tomografia por emissão de pósitrons,
em português), técnica na qual uma substância
radioativa é injetada no paciente para a obtenção
das imagens.
A robótica
também ganha espaço na saúde. O próprio
Einstein tem planos de implantar, em 2006, um centro de treinamento
com simulação realística (em que o robô
reproduz as reações humanas e responde a estímulos)
e cirurgias com a ajuda de máquinas. O Centro de Treinamento
Berkeley, no Rio de Janeiro, é o único na América
Latina hoje a usar a robótica para treinar acadêmicos
e profissionais de saúde.
(Folha de
S. Paulo – 30/10/05)
Ultra-especializado, pesquisador decifra
a "enciclopédia da vida"
Se quiser traçar
o mapa da vida, o profissional da área de genômica
terá um longo caminho a trilhar. A pós-graduação
é indispensável nesse ramo que, além de exigir
altíssima especialização, restringe a maioria
de suas vagas à academia, longe das empresas.
Genômica
é o estudo de todas as moléculas de DNA (ácido
desoxirribonucleico) e de suas funções em um organismo.
O resultado é uma espécie de enciclopédia que
contém todas as instruções para o funcionamento
da vida.
O trabalho do
pesquisador consiste em dividir a enciclopédia em livros
(cromossomos), analisar cada frase (propriedades metabólicas),
cada palavra (os genes) e, por fim, cada letra (as bases adenina,
timina, guanina e citosina).
Com isso seria possível, por exemplo, entender como se formam
tumores e como poderíamos interferir nesse processo.
Tudo isso soa
muito abstrato para quem não é da área, razão
pela qual os estudiosos de genômica não vêm direto
da graduação -passam por mestrado, doutorado e pós-doutorado.
Se o tempo de
estudos é longo, o interesse deve nascer cedo. "Sempre
tive atração por genética e fiquei em dúvida
entre cursar medicina ou biologia", conta Mayana Zatz, do Instituto
de Biociências da USP (Universidade de São Paulo).
Elegeu a segunda opção.
Hoje Zatz é
professora-titular da USP e diretora do Centro de Estudos do Genoma
Humano. "A partir de doenças genéticas, entendemos
o que o gene faz de certo e de errado", diz. O centro atende
a população e faz aconselhamento genético para
famílias. "Explicamos que o exame de DNA aponta o risco
de um filho ter uma doença genética."
As universidades
brasileiras receberam um grande fluxo de investimentos a partir
de 2000, quando começou o Projeto Genoma Brasileiro. De 2000
a 2004, o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico) investiu mais de R$ 80 milhões em pesquisas
na área.
"Em poucos
anos o Brasil saiu de uma posição mundial zero em
genômica para ser um dos líderes nessa área
no mundo", afirma o ex-ministro da Ciência e Tecnologia
Eduardo Campos.
Entretanto,
o volume de investimentos caiu. "A genômica já
teve seu grau de prioridade número um, quando o país
precisava implantar infra-estrutura necessária ao desenvolvimento
de pesquisa nessa área. Hoje, a prioridade tem sido o avanço
do conhecimento em temas como células-tronco."
Com menos incentivos,
os pesquisadores abrem suas próprias companhias, como a paulista
Alellyx Applied Genomics, fundada por egressos do Projeto Genoma.
"O Brasil teve um crescimento importante em biologia molecular,
genômica, bioinformática. É uma oportunidade
boa para dar um passo além, transformar conhecimento e técnica
em PIB [Produto Interno Bruto]", avalia Paulo Arruda, 53, sócio-diretor.
Já o
Biofoco, grupo de pesquisadores do Centro-Oeste dedicados a trabalhos
multidisciplinares em bioinformática, é um exemplo
de parceria com a iniciativa privada. O grupo tem o apoio da Dell
Computadores para desenvolver softwares livres de bancos de dados
genômicos. "Genômica é caro. Temos que analisar
os genomas já disponíveis", diz o coordenador
Georgios Pappas, 37, da Universidade Católica de Brasília.
(Folha de
S. Paulo – 30/10/05)
Bioinformática acelera pesquisa
dos organismos
O genoma do
homem contém cerca de 3 bilhões de pares de bases
nitrogenadas. Há 20 anos, decifrar a seqüência
de um único gene com cerca de 12 mil bases levaria 12 meses;
hoje, esse tempo caiu para um minuto. Graças à bioinformática.
A bioinformática é um dos ramos mais promissores da
genômica. Misto de engenharia da computação,
estatística e biologia molecular, essa ciência propõe
meios para interpretar grandes volumes de dados biológicos.
"Todos
que lidam com organismos vivos vão trabalhar com informação
genômica, em biologia, medicina, farmácia, indústrias
químicas que fazem fermentação", diz Luismar
Porto, líder do grupo de engenharia genômica da Universidade
Federal de Santa Catarina.
(Folha de
S. Paulo – 30/10/05)
"Nanoera" vai mudar paradigmas
em várias áreas do conhecimento
Para quem pensa
que o futuro já chegou, porque é possível construir
robôs do tamanho de uma molécula, os especialistas
afirmam: as descobertas mais importantes da nanotecnologia estão
por vir.
“Ainda
estamos muito longe de entender como, a partir de uma molécula
de DNA e um conjunto de nutrientes, produz-se um organismo vivo,
afirma Cylon Gonçalves, ex-secretário de Políticas
e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da
Ciência e Tecnologia, hoje diretor de tecnologia do Instituto
Genius”. "A auto-organização é a
forma pela qual a "nanotecnologia natural" funciona. Se
a entendermos melhor, poderemos um dia adaptar algumas de suas estratégias
à nanotecnologia "industrial'", diz.
As aplicações
da "nanociência" estão beneficiando praticamente
todas as áreas do conhecimento, portanto, as nanotecnologias
são um novo paradigma a ser absorvido por inúmeros
profissionais. Atualmente, porém, o âmbito dessa ciência
é muito mais acadêmico, restrito à pesquisa
dentro das universidades brasileiras.
"Em nosso
país, a maioria dos profissionais que atuam em nanotecnologia
encontra-se na universidade, mais especificamente, na pós-graduação
(mestrado e doutorado)", afirma o professor Oswaldo Luiz Alves,
coordenador científico do LQES (Laboratório de Química
do Estado Sólido da Unicamp - Universidade Estadual de Campinas)
e consultor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos
do Núcleo de Estudos Estratégicos do governo federal.
Os estudantes provêm, em sua maior parte, das áreas
de química, física, biologia e engenharia.
Nem tudo que
é nanométrico (1 bilionésimo do metro), porém,
é necessariamente nanotecnológico. Entre os cientistas,
já começa a ser consenso que só pode ser chamado
de nanotecnológico aquilo que tem propriedades especiais
em virtude do tamanho reduzido.
Um exemplo:
hoje é possível mudar a cor de uma substância
pela variação do tamanho de suas partículas,
o que os cientistas chamam de efeito quântico de tamanho.
"O ouro, em escala nanométrica, fica vermelho. Mas o
objetivo de trabalhar com ele não é mudar sua cor,
e sim, explorar suas propriedades, como a condução
de eletricidade", explica o professor Ítalo Odone Mazali,
32, do Instituto de Química da Unicamp e do LQES. O estudo
do metal é muito utilizado na medicina.
Graduado em
química, ele fez mestrado e doutorado na mesma área,
uma das mais importantes da nanociência. "São
os conhecimentos da química que possibilitam a obtenção
das partículas."
A grande contribuição
da Unicamp está em polímeros, fibras ópticas,
materiais semincondutores e materiais com propriedades magnéticas
ou a base de carbono.
"Com os investimentos planejados para os próximos anos,
espera-se avanço em setores como materiais, catalisadores
para a indústria química, cosméticos, sensores
e, dependendo dos processos regulatórios, nos medicamentos",
afirma Gonçalves.
Apesar de não
ter sido citada, a agricultura também já chegou à
"nanoera". E a língua eletrônica é
a prova disso. O equipamento, idealizado a partir de nanosensores,
tem sensibilidade dez vezes maior que o paladar humano para identificar
inúmeros gostos.
O aparelho permite,
com rapidez, precisão e a um custo baixo, verificar a qualidade
da água e a eventual presença de pesticidas e substâncias
como metais pesados. A língua eletrônica diferencia
sem dificuldade os padrões básicos de paladar (doce,
salgado, azedo e amargo) em concentrações abaixo do
limite de detecção do ser humano. O sistema também
é capaz de diferenciar bebidas com gostos semelhantes (vários
tipos de vinho, por exemplo).
A engenhoca,
criação da Embrapa Instrumentação Agropecuária,
avalia e classifica vários produtos segundo o seu paladar,
qualidade, regiões e possíveis produtores.
O engenheiro
de materiais Luiz Henrique Capparelli Mattoso, 43, pesquisador responsável
pelo desenvolvimento do equipamento, investiu dois anos no mestrado
e outros quatro no doutorado.
Ele conta que
precisou se aprofundar no estudo das "ciências de superfície"
e no conhecimento da utilização do microscópio
de força atômica (cuja resolução chega
ao tamanho do átomo).
"Os profissionais
que querem trabalhar nessa área precisam se especializar
em técnicas mais aprimoradas para o estudo da matéria
em nível nanométrico", diz. "Mandamos um
pesquisador à IBM para aprender a trabalhar com essa técnica",
afirma.
Para ele, antes
das nanociências, os pesquisadores se limitavam a observar
os materiais como quem vê a Lua a olho nu. Hoje, eles já
podem saber a composição da superfície e até
enviar um "braço mecânico" para colher uma
amostra. É que os equipamentos utilizados pelos "nanocientistas"
possuem uma espécie de sonda, semelhante a uma agulha, que
consegue tocar e manipular o átomo, em vez de apenas observá-lo.
(Folha de
S. Paulo – 30/10/05)
Ampla, área lida com "cérebro"
das máquinas
Na Bolsa de
Valores de São Paulo, a gritaria do pregão é
coisa do passado. Atualmente, 150 milhões de mensagens de
compra, venda e cotação de ações são
enviadas eletronicamente a corretoras e agências divulgadoras
diariamente. Cada comunicado chega ao destino em menos de um segundo.
A migração
para a era digital foi obra de profissionais de TI (tecnologia da
informação). "O processo é mais eficiente
e democrático do que tentar escutar quem quer comprar ou
vender", diz Luiz Gonzaga Simões, 55, diretor de informática
da Bovespa.
Presente em
todas as áreas do cotidiano, a informática não
está somente no mercado financeiro, mas também à
nossa volta: em e-mails, celulares, elevadores, fornos de microondas
etc. É papel dos profissionais de TI desenvolver o "cérebro"
dessas máquinas, o software que as faz funcionar.
Também
estão sob sua res- ponsabilidade o gerenciamento das informações
geradas pelo software, o desenvolvimento de hardware e a administração
de toda essa estrutura, prevendo problemas e investigando falhas.
"A área
de TI é fundamental e todos os seus braços -segurança,
desenvolvimento, manutenção- são vitais",
explica Arnaldo Cadena, 44, gerente de segurança de informação,
infra-estrutura e arquitetura de TI da Xerox.
Cadena implementou
o "disaster recovery plan", ou plano de recuperação
de desastres, na Xerox. O sistema consiste em um centro de processamento
de dados reserva, capaz de manter a firma funcionando mesmo se um
incêndio destruir a sede, por exemplo.
A área
de TI não prima por valorizar diplomas superiores (leia mais
abaixo). "Muitos vêm da engenharia e da ciência
da computação, mas há uma tendência ao
autodidatismo", diz Zilta Marinho, diretora da unidade de educação
da Módulo Security.
(Folha de
S. Paulo – 30/10/05)
Peritos e hackers duelam no mercado
Mensagens eletrônicas
anônimas contendo ameaças, contaminação
por vírus do tipo cavalo-de-tróia, fraudes em serviços
bancários via internet: se a tecnologia da informação
avança para o bem, avança também para o mal.
Em muitas situações,
isso vira litígio na Justiça. "O computador passou
a estar presente em muitos conflitos de interesses", diz Giuliano
Giova, 56, diretor do Instituto Brasileiro de Peritos em Comércio
Eletrônico e Telemática.
A proliferação
dos hackers alimenta o mercado dos peritos em informática.
Eles podem ser profissionais da confiança do juiz, quando
na área cível, ou servidores concursados, na área
criminal.
Computadores
preparados para clonar discos rígidos e laboratórios
para exames detalhados de dados são instrumentos desses "detetives",
que buscam provas de crimes escondidas entre os bilhões de
bits de um computador.
Chamado para
investigar a freqüente violação da senha secreta
em um computador de uma empresa, Giova detectou um vírus
do tipo "keylogger", que envia para o autor da fraude
uma lista com as teclas que o usuário digitou, ajudando a
decifrar senhas bancárias, por exemplo. O fraudador foi desmascarado
por uma "pegada" virtual deixada na memória do
computador.
Tanto as áreas
de perícia como a de segurança da informação
são terrenos típicos de jovens autodidatas. Domingo
Montanaro, 22, começou aos 14, quando descobriu um meio de
acessar, pela rede, a máquina do professor de informática
para jogar paciência.
Aos 17, já
tinha sua própria consultoria. Aos 19, tornou-se perito.
Hoje, trabalha na segurança de um banco. "Aprendi lendo,
passando noites na internet", conta. "Não existe
mais a palavra "formado". Em informática, há
um volume bastante alto de criação de novas técnicas.
A mudança é tão rápida que a universidade
não as acompanha", analisa Marcelo Pessoa, professor
da Escola Politécnica da USP.
Ainda assim,
a formação universitária aliada a treinamentos
técnicos é a mais próxima do ideal. "Há
demanda de gente especializada", diz Marcelo Bezerra, diretor
de tecnologia da ISS do Brasil. "A tendência de ter negócios
virtuais é contínua, e poucas empresas têm sua
área de segurança bem definida." Nesse campo,
há espaço para crescer. Para evitar invasões
e fraudes, as empresas investem em criptografia, ou seja, modos
de embaralhar códigos para que não sejam entendidos
por terceiros.
"As novas
formas de segurança da informação sempre evoluem",
diz Aroldo Yai, 45, gerente de vendas e segurança de software
da IBM para a América Latina.
(Folha de
S. Paulo – 30/10/05)
Novidade, cogeração vai
exigir engenheiro multiespecializado
A oferta de
energia não acompanhou o crescimento da demanda no Brasil
nas últimas décadas, resultando em blecautes e racionamento.
Segundo os ambientalistas, o problema é que nossa matriz
energética é mais de 90% focada nos recursos hídricos.
Em meio à crise, engenheiros de todas as áreas encontraram
uma oportunidade: desenvolver novas formas de geração
de energia.
Uma das estrelas
do setor é hoje a cogeração: produção
simultânea de duas ou mais formas de energia a partir de um
só combustível (biomassa ou gás natural). "A
cogeração é novidade, exigirá novas
famílias de profissionais", diz Jayme Buarque de Holanda,
diretor-geral do Instituto Nacional de Eficiência Energética.
Segundo o Ministério de Minas e Energia, o peso da biomassa
(resíduos agrícolas, madeira e cana-de-açúcar)
na geração mundial de eletricidade crescerá
170% de 1995 a 2020, atingindo 27 TWh.
A cogeração
polui menos e é mais econômica. "Depois dos blecautes,
prédios comerciais começaram a exigir que as incorporadoras
instalassem cogeração", ilustra Carlos Roberto
Silvestrin, vice-presidente executivo da Cogen-SP (Associação
Paulista de Cogeração de Energia).
A rede Sonda
de supermercados e o hotel Sofitel já aderiram, com projeto
da Iqara Energy Services operado remotamente pela Sotreq, que reduziu
em 25% o consumo em três lojas.
Para acompanhar
seu funcionamento, a Sotreq tem engenheiros de sistemas elétricos.
São profissionais com conhecimentos nas áreas elétrica,
mecânica, hidráulica e acústica. O engenheiro
eletricista Maurício Garcia, 37, é um deles e comanda
25 colegas. "Tivemos que adquirir conhecimentos de informática
e de eletrônica. Hoje não temos mais técnicos,
só engenheiros, pois é preciso absorver toda essa
tecnologia."
(Folha de
S. Paulo – 30/10/05)
Meta é baratear as células
a combustível
Pense numa pilha.
Agora imagine-a amplificada e conectada a tubos que forneçam
hidrogênio para que sua carga não se extinga nunca.
Você acaba de formular uma idéia de como funciona a
célula a combustível.
O sistema é
bem mais complexo, mas, em síntese, a célula a combustível
é um dispositivo que converte energia química em elétrica
através da alimentação constante de hidrogênio.
Dentro do Cietec,
incubadora de empresas de São Paulo, há um grupo de
engenheiros pesquisando como miniaturizar e baratear essa tecnologia.
São os quatro sócios da Electrocell, que se dedicam
a pesquisar uma fonte de energia limpa, sem ruído e de qualidade.
"A questão ambiental, o aumento do preço do petróleo,
a diminuição das reservas, tudo isso nos impulsionou",
afirma o engenheiro químico Gerhard Ett, 38, diretor industrial
da firma.
Antes de se
lançar na empreitada, porém, ele fez duas graduações
(engenharia química e química), mestrado e doutorado
no Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares)
e três cursos de pós especificamente em células
a combustível, na USP.
Seus sócios
se formaram em outras áreas: um é engenheiro eletrônico,
o outro, engenheiro eletricista, e o terceiro é engenheiro
de materiais. A diversidade de conhecimentos é uma das características
mais valorizadas nos pesquisadores da área energética.
O quadro de
preocupação com o ambiente e com a escassez de recursos
afeta também as empresas de petróleo, que estão
se transformando em empresas de energia.
"É
um movimento mundial", afirma Maria Helena Troise Frank, consultora
da gerência de gás e energia do Cenpes (centro de pesquisas),
da Petrobras. Segundo ela, as "bolas da vez" são
o gás e a célula a combustível. Outra grande
aposta é a biomassa. "O Brasil está sendo visto
como a Arábia Saudita da biomassa. Isso tudo está
abrindo oportunidades inimagináveis no mercado", diz.
Hoje, ela coordena
uma carteira de projetos de geração de energia, distribuição
e armazenamento de hidrogênio, substância cujo potencial
é considerado grande. Segundo ela, porém, há
muito mais o que pesquisar, "como os geradores e a sua integração
com a rede de distribuição de energia, por exemplo.
O horizonte de desenvolvimento é grande".
(Folha de
S. Paulo – 30/10/05)
Embraer domina oferta de postos de trabalho
Na pesquisa
aeronáutica, o céu não é o limite. Mas
o mercado de trabalho, por sua vez, é limitado: historicamente,
a carreira na área é restrita, no Brasil, à
Embraer.
"O boom
da engenharia aeronáutica só aconteceu na década
de 80 e, depois, em 1994, com a privatização da Embraer",
diz Roberto Girardi, do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica).
Hoje o mercado
dá, enfim, sinais de expansão. "Alguns profissionais
vão para empresas de táxi aéreo e de manutenção
de aviões, sobretudo no Norte, que é uma região
promissora", diz Paulo Henriques de Oliveira, professor da
UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Segundo ele, uma oficina
de aviões paga salário de, em média, R$ 3.000,
no Sudeste, e de R$ 5.000, no Norte.
O grande empregador
continua sendo, contudo, a Embraer. A tecnologia de ponta da empresa
permite que, no planejamento de um avião, a aeronave em si
seja o último item a ser produzido. No CRV (Centro de Realidade
Virtual) da empresa, projetos podem ser vistos em três dimensões
detalhadamente. As imagens do avião são projetadas
em uma grande tela e vistas com óculos especiais.
"É
como se o avião existisse em escala real. A partir dessa
visão, tomamos decisões e fazemos interferências
no projeto", diz Hugo Resende, 45, cientista-chefe de desenvolvimento
tecnológico.
Essa não
é a única função do CRV. Até
a linha de produção do avião é projetada
em 3D antes de ser montada, assim como as cores que o cliente quis
para a aeronave.
A Embraer desenvolve
também pesquisa aplicada, como a que investiga soluções
contra o gelo formado nas asas dos aviões durante um vôo.
Uma das apostas é levar o ar quente do motor para a frente
da asa, esquentando o metal.
Com o desenvolvimento
da empresa e a alta demanda por profissionais de engenharia aeronáutica,
a Embraer enfrentou a escassez de pessoal especializado (leia à
pág. 15). A saída foi recrutar em áreas como
mecânica e elétrica.
Para completar
a formação desses engenheiros, a companhia desenvolveu
com o ITA um programa, em nível de mestrado, de 16 meses
de dedicação integral. "Precisávamos complementar
a formação universitária com outras informações
sobre aeronáutica, porque trabalhamos com alta tecnologia",
diz Sidney Lage, 55, coordenador do programa.
(Folha de
S. Paulo – 30/10/05)
Formação superior está
limitada a poucas universidades no país
O Brasil possui
apenas cinco cursos de engenharia aeronáutica, localizados
no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), na
USP (Universidade de São Paulo), na Unitau (Universidade
de Taubaté, SP), na Unip (Universidade Paulista) e na Univap
(Universidade do Vale do Paraíba). Em algumas universidades,
como na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), em Belo Horizonte,
a engenharia aeronáutica é uma ênfase da engenharia
mecânica e o profissional é habilitado para trabalhar
nas duas áreas.
Apesar de a
atividade aeronáutica ser ampla e permitir espaço
para outras formações, a habilitação
em aeronáutica é a ideal. "O projeto do avião
em si, da estrutura, da célula, é atividade exclusiva
do engenheiro aeronáutico", diz Paulo Celso Rangel,
consultor e ex-conselheiro do Confea (Conselho Federal de Engenharia,
Arquitetura e Agronomia). Em conseqüência da formação
restrita de mão-de-obra, achar emprego não é
o maior desafio dos bons engenheiros da área.
As universidades
também investem em currículos e em pesquisas que dêem
mais flexibilidade ao futuro profissional. O curso da Unitau, lançado
há um ano, oferece especialização em helicópteros,
por exemplo. "Nós quisemos um diferencial", diz
José Rui Camargo, chefe do departamento de engenharia mecânica,
ao qual o curso está vinculado.
A estrutura
dos cursos costuma ser cara, o que também limita sua oferta.
As pesquisas e testes feitos desde a faculdade são rigorosos
-no ar, nada pode dar errado. Na USP de São Carlos, por exemplo,
há exames de aerodinâmica de alto desempenho (aplicação
de materiais que se deformam durante o vôo, aumentando a estabilidade
do avião). "O objetivo é mudar as formas aerodinâmicas
gastando pouca energia para otimizar o desempenho", explica
o professor Eduardo Belo.
No ITA, muitos
experimentos são realizados no túnel de vento, um
corredor que simula a relação entre aeronave e atmosfera
por meio de um grande ventilador. "Nós podemos medir,
em escala, as forças que agem sobre o avião, a variação
dos ângulo de decolagem e aterrissagem e o comportamento da
máquina em rajadas de vento", diz Roberto Girardi.
(Folha de
S. Paulo – 30/10/05)
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