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Cresce o espaço ocupado por mulheres na área de tecnologia
Há 11
anos, quando Rita Buri visitava os clientes da Computer Associates
(CA), era sempre para seu subordinado, que a acompanhava, que eles
direcionavam a conversa. Ao longo do encontro, o cliente percebia
a mancada e tentava contornar a situação. Ignoravam
Rita não pelo seu cargo - ela mostrava o cartão, mas
a maioria nem olhava - mas por puro preconceito. Naquela época,
ela era uma das poucas mulheres que atuavam na área de tecnologia
da informação (TI).
"O homem
tem sempre em mente que é a mulher que está acompanhando",
diz Rita, hoje vice-presidente de pré-venda para a América
Latina da CA. Ela percebia o preconceito, achava graça e
tentava tirar vantagem da situação. "Numa segunda
visita, eles ficavam mais atentos."
Quando Cristina
Nogueira trabalhou na Itautec, há 15 anos, chegou a ouvir
dos clientes comentários do tipo "a empresa vai ter
prejuízo". Isso, pelo simples fato de estar grávida.
"Hoje gravidez é a coisa mais normal do mundo",
diz ela, agora diretora comercial da Microsoft.
A "caixa
preta" da TI foi aberta e as mulheres estão vencendo
os preconceitos e aprendendo a usar suas "vantagens" competitivas.
Cristina conta que as mulheres apostaram na área, há
25 anos, porque ela oferecia oportunidade de atuar em uma área
intelectual e também competitiva. "Elas se deram bem
e hoje estão em postos de chefia".
Ania Hilwey,
diretora de recursos humanos da Getronics, integradora de soluções,
acha que a mulher presta mais atenção, tem intuição,
pensa no futuro, sabe ouvir e não pré-julga. "O
problema aparece e ela busca a solução" diz.
Ela acredita que os homens também estão agindo dessa
maneira, mas ainda há machistas e corporativistas no meio.
"Hoje o trabalho em equipe é igual e as mulheres não
precisam se masculinizar para ter chance", diz. "O critério
avaliado na hora da contratação são a competência
e os resultados, e não sexo."
Cecília
Fantinelli, diretora administrativa e de recursos humanos para América
Latina da CA, recebe quase 100 currículos por dia e afirma
que o número de mulheres procurando emprego é praticamente
o mesmo de homens. Há 14 anos na área, ela diz que
a participação das mulheres tem sido muito maior de
dez anos para cá. Apesar disso, apenas cerca de 30% dos 300
funcionários da CA são do sexo feminino. Das 81 mulheres,
dez chegaram a um cargo de chefia.
"Enquanto
os homens têm mais flexibilidade para viagens, as mulheres
têm mais responsabilidade social, senso humano, dá
mais valor ao dinheiro alheio, administra melhor os recursos - pois
aprendeu a gerenciar as despesas da casa -, é mais econômica
e racional", ressalta Cecília. "O preconceito está
diminuindo e a capacitação delas está aumentando".
Rita, da CA,
acredita a flexibilidade, tipicamente feminina, ajuda o time. A
mulher, sugere, não desiste do projeto e, quando preciso,
é capaz de voltar atrás para um projeto ser aprovado.
"Sempre aberta, simpática, ela abre as portas para a
empresa", diz. "Ela muda até conseguir o que quer."
Na década
de 80, quando Vânia Curiati, hoje diretora de software da
IBM Brasil, iniciou sua carreira, havia poucas mulheres na área
de TI, principalmente na parte técnica. "A cultura dava
à mulher latino-americana o foco em agregar valor à
casa, não à carreira", conta. Segundo ela, trabalhar
fora melhorou até o relacionamento com os homens e com os
filhos. "Hoje eles nos respeitam mais e a gente aceita melhor
o trabalho deles".
A gerente de
marketing de serviços da HP, Vera Vaitekunas, está
há 22 anos no mercado. Mesmo com esta experiência,
Vera sabe que ainda há discriminação salarial.
"Os homens sempre receberam mais. As mulheres sempre foram
vistas como dependentes do marido", queixa-se.
Ela conta que
compensa essa falha com características ligadas ao lado emocional.
"A gente consegue ser ouvida com facilidade e o ambiente fica
mais sério quando há mulher no ambiente", diz
a executiva, que comanda um grupo de 300 pessoas. "Não
tenho preferência de sexo, mas o perfil das mulheres se encaixa
melhor em vendas", diz.
(Gazeta Mercantil
- 12/06/02)
Presença cada vez maior em cursos de formação
A Multirede,
consultoria em telecomunicação que também oferece
cursos na área, está desde 1991 no Brasil. Naquele
ano, chegou a treinar 88 homens em cursos de tecnologia, mas não
havia nenhuma mulher entre os alunos.
No ano passado,
elas eram 137 e os homens 910. O percentual médio do público
feminino era de 13,3% em um curso antes, literalmente dominado por
homens. "Não existe variação muito grande
de 1993 para cá, apesar do número de mulheres ter
aumentado", diz José Mauro da Silva, diretor da Multirede.
Já em
cursos de certificação Cisco, que a Multirede oferece
desde 1995, o número de mulheres era tímido, 18 ao
todo, mas já existia. Representavam 7,1% do total. Em 2001,
elas já somavam 180, ou 10,6% do percentual médio,
enquanto participavam 1.780 homens. Nada mal se levarmos em conta
que o curso é voltado para profissionais que atuam em projetos,
suporte, manutenção e operação de integradores
de tecnologia de rede, que a maioria das mulheres nem sequer sabe
para que serve. "Todos os anos percebemos que há um
aumento do número de mulheres atuando na área, mas
em valor absoluto."
Vera Vaitekunas,
gerente de marketing de serviços da HP, formou-se em 1980
em Ciência da Computação. Ela conta que na época,
muitas mulheres escolheram a área fugindo da discriminação
da engenharia. "Éramos tratadas quase como uma aberração,
ouvidas sempre com o pé atrás", diz. "Hoje
valorizam nosso perfil para negociação e a abordagem
sensível, principalmente para falar de coisas tão
exatas", diz ela.
(Gazeta Mercantil
- 12/06/02)
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