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Europeus contestam remuneração de executivos
Nunca a remuneração
dos grandes dirigentes empresariais europeus e americanos foi tão
contestada pelos acionistas como atualmente. Apesar das crises econômicas,
os salários dos chamados "grandes patrões"
têm aumentado a uma velocidade muito superior à média
dos assalariados, atingindo em alguns casos níveis exorbitantes.
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mais:
Europeus contestam remuneração de executivos
Nunca a remuneração
dos grandes dirigentes empresariais europeus e americanos foi tão
contestada pelos acionistas como atualmente. Apesar das dificuldades,
da morosidade da economia européia - alguns países
como Alemanha e Holanda encontram-se em recessão -, os salários
dos chamados "grandes patrões" têm aumentado
a uma velocidade muito superior à média dos assalariados,
atingindo em alguns casos níveis exorbitantes.
Até a
explosão da "bolha" tecnológica nas Bolsas
e dos escândalos corporativos de grupos como Enron e Vivendi
Universal, as assembléias anuais constituíam uma ocasião
para a realização de "grandes missas" empresariais,
em que os executivos anunciavam com grande pompa seus resultados
financeiros, lucros e dividendos a distribuir, além dos planos
de expansão.
Hoje, as coisas
mudaram e os acionistas contestam cada vez mais essa evolução,
abandonando o ar comportado anterior e manifestando-se através
de sonoras vaias nas assembléias os anúncios desses
aumentos salariais, nem sempre justificáveis, diante dos
maus resultados obtidos.
Nos Estados
Unidos, os salários dos 100 presidentes de empresas mais
bem remunerados foram multiplicados por 30 nos últimos 30
anos, enquanto o salário médio no país só
progrediu entre 15% e 20%. O presidente do grupo bancário
francês Societé Génerale, Daniel Buton, por
exemplo, foi vaiado quando seu salário de 2,25 milhões
anuais foi anunciado na assembléia geral. Isso apesar de
ele ter sido o homem que evitou que a Societé Génerale
fosse engolida pelo seu concorrente BNP.
Um pouco antes,
também o presidente do Grupo Alcatel, Serge Tchuruk, não
foi poupado por vaias dirigidas pelos pequenos acionistas revoltados
com o anúncio de que o presidente havia sido gratificado
com 500 mil opções de compra de ações
suplementares a um preço três vezes inferior ao nível
de um ano atrás. Ora, essa reação se justifica
pela má comunicação das empresas, mas também
pelo fato de os acionistas, em muitos casos, terem visto o valor
de sua carteira dividido por dois nos últimos três
anos.
Os franceses
tradicionalmente são os que se rebelam de forma mais ruidosa
na Europa, repercutindo o que se passa nos Estados Unidos, onde
neste ano 275 projetos foram apresentados por acionistas descontentes
com o modo de remuneração dos dirigentes de empresas.
Segundo a revista Fortune, a remuneração média
dos 100 dirigentes das maiores empresas do país aumentou
14% no ano passado.
Na França,
com exceção de Serge Tchuruk, que foi convencido a
abrir mão de 43 % de sua remuneração global,
o nível dos demais dirigentes encontra-se em constante evolução
, e acima do razoável. Poucos são os casos de redução,
entre eles Total, Aventis, Axa e Alcatel.
A imprensa francesa
tem explorado bastante esse tema, caso do jornal Le Monde, mas também
dos jornais econômicos La Tribune e Les Echos. Este jornal
trata dos "altos salários e a ética dos negócios",
lembrando que as remunerações exorbitantes de certos
dirigentes fragilizam o pacto social da empresa e minam a confiança
dos acionistas. Por mais respeito que se tenha aos resultados obtidos
pelo grupo de cosméticos L'Oreal, seu presidente Lindsay
Owen Jones é o primeiro da lista entre os franceses com uma
remuneração anual de 6,25 milhões, o que representa
500 vezes a renda anual de alguém que ganha o salário
mínimo.
Para alguns
analistas financeiros, como o jornalista Yves de Kerdel, essa evolução
constitui uma dupla ameaça para o capitalismo. A primeira
diz respeito ao pacto social que trata do bom funcionamento da empresa,
mas também da hierarquia, tanto em termos de responsabilidade
como de salário.
Afinal, pergunta-se
se é normal que a remuneração do presidente
de uma empresa possa aumentar dez vezes mais rapidamente do que
a de seus assalariados médios nos últimos dez anos,
como tem ocorrido.
Hoje, essa relação
entre os resultados da empresa e a remuneração de
seus dirigentes parece caminhar, salvo exceções, em
mão única. Como explicar para um dirigente comercial
que seus rendimentos vão baixar se ele não atingir
certos objetivos, enquanto as remunerações do presidente
e de seus principais dirigentes continuam aumentando mesmo com a
obtenção de maus resultados? Recentemente, um diretor
do Grupo Canal Plus, Xavier Couture, foi contratado e não
permaneceu seis meses no posto, pois acabou demitido.
Ele saiu com
uma indenização da ordem de 1,3 milhão. Recente
levantamento revela que, nos EUA, 1% dos assalariados mais bem pagos,
ao todo 1,2 milhão de pessoas, pesavam entre 6% e 7% na massa
salarial em 1970. Hoje, esse pequeno número de dirigentes
pesa 16 %, uma carga superior ao dobro de há pouco mais de
30 anos. O próprio Comitê de Ética do Medef,
Movimento dos Empresários Franceses, no seu relatório
sobre remunerações afirma que "abrir a possibilidade
de ganhos desmedidos conduz à perda do controle da realidade".
Ainda segundo
o relatório, "os escândalos recentes mostraram
que a ética exige medida e controle". Na Grã
Bretanha, os chefes de empresa encontram-se na mira dos acionistas
e recentemente os responsáveis pelo Grupo Royal Bank of Scotland
evitaram por pouco a suprema humilhação de ouvirem
um "não".
A mesma sorte
não teve o diretor geral francês do Grupo GlaxoSmithKline,
Jean Pierre Garnier, que, em 19 de maio, viu o seu "pára-quedas
de ouro" (pacote de benefícios a ser recebido caso a
empresa seja vendida e o executivo perca o emprego) de 31 milhões
de libras esterlinas não abrir na hora certa no céu
de Londres, onde a chamada caça aos "fat cats"
( chefe de empresas com altíssimos salários, mas com
péssimo desempenho), já foi lançada.
Paralelamente,
a crise está provocando um recorde de demissões entre
os grandes dirigentes de empresas, casos, por exemplo, de Michel
Bon, da France Telecom, Jean Marie Messier, da Vivendi Universal
e Gerald Levin, da AOL Time Warner. Todos foram afastados com polpudas
indenizações de algumas dezenas de milhões
de dólares. Só no ano passado, 100 das 2.500 maiores
empresas mundiais cotadas se separaram de seu presidente, pressionados
pelos acionistas.
(O Estado
de S. Paulo - 26/05/03)
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