Mais razão e menos emoção

Ari Marques

Bom, de cara, para quem lê apenas este título, começam a surgir “n” possibilidades para desenvolver um texto a partir desse pensamento.

Os mais atentos, ou seria menos abstratos, poderiam detectar que provavelmente haverá uma abordagem do tipo “anglo-saxões x latinos”.

Os afetos à academia podem pensar em “contadores x psicólogos”. Em vida corporativa “controladoria x recursos humanos”. Pedindo escusas àqueles que entendam que não seja politicamente correto tratar o profissional por “recursos” já antecipo que é destes mesmos que tratarei. E tratarei da relação entre “capital e trabalho” ou mais precisamente entre o proprietário do capital e o provedor de força, quer seja física ou intelectual, assim chamado de trabalhador, colaborador... companheiro para que não perca eu o bonde do clima atual.

Proponho que pensemos na relação “chefe x subordinado” ou até mesmo na antiga e tradicional “empregador x empregado”. Idealizemos duas figuras em nossas mentes que possam dar face aos dois personagens e sigamos em frente.

Imaginemos que, após muito tempo de relação surge o momento do rompimento do contrato. Desligamento por opção do empregado ou mesmo por decisão do empregador. Vou tentar definir o que, normalmente, se passa na cabeça da parte que sofre a ação.
Iniciemos pela mente do empregador que se vê estupefato ante um pedido de demissão. Com certeza haverá espaço para pensamentos e dentre muitos seleciono estes como síntese:

  • Quanta ingratidão me abandonar assim!
  • Está cuspindo no prato que comeu!
  • Quando chegou aqui na empresa não era nada, ensinamos tudo a ele e agora nos deixa na mão!

Proponho uma rápida análise racional destes três. Em primeiro lugar a gratidão que está sendo cobrada não é justa. Nem se está cuspindo no prato assim como não seria justo pensar que se estivesse “jogando fora os talheres após a refeição” no caso da demissão pelo empregador. Se o profissional não “era nada” quando lá chegou provavelmente lhe foi pago o salário equivalente à experiência da época.

Caberia perguntar se a evolução que agora se constata que ocorreu com ele – “agora que já ensinei tudo vai me abandonar” – foi correspondida pela elevação de remuneração e benefícios. É possível que esteja aí a razão da busca dele por outra posição no mercado. E é bem provável que essa tal remuneração condizente terá que ser paga a quem o venha substituir.

Mudemos de cadeira e analisemos o que se passa na mente do empregado desligado:

  • Quanta ingratidão me desligar assim!
  • Depois de tudo o que fiz por esta empresa!
  • Quando me contrataram nem sede tinham, tive que escolher local, contratar reforma, comprar móveis, selecionar pessoas...

Um outro pensamento comum é “sugaram todo o suco e agora jogam o bagaço fora”.

Se essa é a percepção que o profissional tem de si mesmo, bagaço, é de se perguntar se ele contrataria para seu subordinado “um bagaço igual a esse”?

Mais ainda, deve pensar que cada minuto de dedicação sua tenha sido adequadamente remunerado e, se assim não foi feito, o que o fez não ir a mercado buscando a justa paga pelo que entendia valer?
Assim, meus caros, proponho que racionalizemos estes momentos. Claro, sei que escrevo para latinos, como eu, na sua imensa maioria e, isso talvez seja pedir demais. Mais razão e menos emoção como propus no título.

Devemos sempre ter em mente que do lado da empresa deva haver a justa valoração – por via de salários e benefícios tantos - de seus profissionais. De parte do empregado dedicar-se ao limite de sua capacidade em devolver qualidade de trabalho. Esse equilíbrio propiciará satisfação e contínuo crescimento a ambos os lados.
Se, a qualquer momento, uma dessas forças não estiver equivalida à oposta, cabe a obrigação corporativa ou do profissional em rompê-la e buscar repor novamente o equilíbrio fora dessa relação.

É certo que muitos, de ambos os lados, estarão torcendo o nariz para este texto lembrando de injustiças pontuais de que foram alvo e que efetivamente acontecem em alguns casos na vida corporativa. Para estes eu diria, virem a página e tomem força na frase que certa vez eu li escrita por uma amiga gestora financeira – Regiane Faga-
“A vida não me facilita, mas eu não sou fácil ... ela vai ter muito trabalho comigo”.

Não se deixem abater nunca!!

   
BIOGRAFIA
Ari Marques é consultor em gestão empresarial e ombudsman da Right Saad-Fellipelli Outplacement.
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