Falando sobre equipes

A todo o momento, nos últimos dias, somos expostos por força da guerra a um conceito que está implícito no noticiário que vem de terras de Saddam. É um conceito que muito tem a ver com nosso mundo corporativo e sem que percebamos está diretamente relacionado à estrutura militar.

Não, não falo de cadeia de comando, que é, talvez, a característica maior da estrutura militar. Aquela da qual os militares mais se orgulham.
Falo do sentido de união. Unidade.... equipe enfim.
Entendo que este seja um dos grandes obstáculos ao sucesso das empresas. Em geral, na imensa maioria das empresas não há trabalho em equipe. Claro isso já foi percebido há muito e assim eu estaria tomando o tempo de vocês com algo que nada lhes acrescentaria. Seria enfim uma notícia para o "Fanfula". Alguém aí se lembra dessa história?
Acho que vale o parênteses para explicar. Com o aumento da colônia Italiana no Brasil houve a necessidade de ter notícias da pátria mãe. Num dado momento então surge o periódico "La settimana di fanfula" que, sendo semanal e com os atrasos de infra-estrutura e logística da época (ainda que eles não soubessem o que seria no futuro essa tal de logística), ele acabava sempre chegando com muito atraso. Assim, suas notícias "fresquinhas" , como se dizia, já eram de amplo conhecimento público.

Daí surgiu a expressão "notícia do fanfula" para designar assunto velho e mesmo a pergunta que provocava os pobres incautos: "Você leu isso no fanfula?" Que me corrijam os que viveram esta fase se algum detalhe não estiver correto, mas foi assim que me foi contada por quem a viveu e assim a repasso.

Retomando, não, não considero que seja notícia do "fanfula' o tema que pauta este artigo. Entendo sim que seja um problema antigo, crônico e ainda não resolvido.

Os processos de Team Builds e Team Works muito contribuíram nesse sentido, mas ainda há muito por fazer.

Falta para que se obtenha a coesão de equipe aquilo que Patrick Lencioni tão bem destaca em seu excelente livro "Os cinco desafios das equipes" - aliás recomendo fortemente sua leitura- como sendo a ausência de confiança associado ao medo do conflito.

A maioria de nós participa das reuniões e contatos diários pensando em contemporizar conflitos ao invés de resolvê-los. Cria-se assim um clima de falsa harmonia que se desfaz quando finda a reunião.
Passamos boa parte do tempo tentando entender o que moveu determinada pessoa a tomar esta ou aquela atitude e, quando temos a ilação pronta, assumimos como verdadeira. Daí até chegar a conflitos ... desconfianças ... desdém... enclausuramento em nossas áreas é um passo. Financeiro que atua como se fosse atividade fim; Marketing que se arvora a agir apesar da empresa e não em conjunto com ela; operacional que entende ser o core business e assim se julga investido de poderes especiais para tomada solitária de decisões e ....
Voltemos à estrutura militar e lembremos que um piloto de um caça trabalha na certeza de que cumprirá sua missão a tempo e na hora pois dele dependerá o avanço da infantaria. A infantaria tem isso por certo e se vale disso para agir. Não se questiona a tarefa que se deva cumprir no meio da batalha. A etapa de planejamento da operação é que é o momento exato para estas questões.

Claro que episodicamente ocorrem casos de excessos cometidos pela estrutura militar respaldada por essa necessidade de atingir, em grupo, o objetivo-fim.

Escrevendo isto me vem a mente o enredo do filme "Questão de Honra" com Jack Nicholson no papel de um exacerbado militar que impõe a seus comandados um código de honra que, se quebrado, implica punição. Na sua visão a quebra de compromisso põe em risco vidas e isso não pode ocorrer. Mas seu extremo é tanto que elimina vidas de quem o quebra. Por contrasenso deve morrer por ter periclitado a vida de terceiros. Contra ele se insurgem Tom Cruise e Demi Moore como advogados castrenses que o levam a julgamento por vias indiretas como resultado da estratégia de defesa de seu cliente.

Mas, deixemos de lado os excessos, passíveis de acontecer em toda a atividade humana, e fiquemos com o que de bom o rigor militar nos ensina.

Encerro com um diálogo do livro que citei acima e que bem exemplifica a preocupação que deveria ocorrer em nossas empresas:
"Alguém pode me dizer qual é o ambiente mais propício ao conflito"? questiona a CEO da empresa.
A conclusão é: reuniões.

E sentencia a mesma executiva: "Se a gente não consegue aprender a se envolver em conflito produtivo e ideológico durante as reuniões, estamos acabados".

Este é o fim certo de muitas empresas em que a equipe contemporiza quando deveria confrontar.
Senhores, conflitem!

   
BIOGRAFIA
Ari Marques é consultor em gestão empresarial e ombudsman da Right Saad-Fellipelli Outplacement.
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