É direta a relação entre taxa de Juros e mercado de trabalho?

Ao tempo de minha infância havia um livro que fervia a cabeça e imagino, era novo demais para participar delas, as questões e discussões que iam das academias aos bares, acadêmicos ou não. Aos adultos e jovens há mais tempo era imprescindível ler aquele livro. Tanto quanto era imperativo aos jovens ler Saint-Exupery e seu "Pequeno Príncipe".

Ah, já estou na sexta linha e ainda não dei o nome do livro. Por certo muitos que me lêem haverão de se lembrar de Erich Von Danikem e seu célebre "Eram os Deuses Astronautas?" .

Lembro daquilo tudo como algo absolutamente etéreo. Desenhos, pirâmides, hipotéticas pistas de pouso eram discutidos no detalhe. E para mim era tudo tão etéreo quanto para muitos, imagino deva ser, a resposta à questão título.

Vamos tentar então trazer "ao rés do chão" como dizem as mães portuguesas esse etéreo tema.

Tentemos juntos entender o que venha a ser esse tão decantado "juro básico" ou também chamada de SELIC - Taxa de Juros de Longo Prazo. Essa taxa é aquela que é definida mensalmente pelo Copom (formado por executivos do Banco Central). Na terceira semana de maio houve a definição pela manutenção em 26,5% aa. Este percentual valerá até o mês de junho quando em outra reunião do Copom seja tomada nova decisão.

A tal SELIC é base para as demais taxas de juros que efetivamente impactam na bolsa da empresa e no bolso do cidadão. Daí derivam os juros do cheque especial, do desconto de duplicatas, do financiamento de compra de bens, da sustentação do novo investimento e, vai por aí a ponto de terminar nos 323% do Crédito Pessoal provido por financeiras independentes. Ou seja, o empresário deve optar por investir na economia recursos que custam caro e de retorno duvidoso, pois o mercado é recessivo.

Qual a lógica do governo então para a manutenção dessa alta taxa?
Manter a inflação sob controle por via da inibição do consumo é a justificativa governamental. Porém, a defesa do governo se restringe ao patamar ditado pela SELIC. Há uma clara postura oficial de condenação ao plus que é cobrado pelos bancos em suas diversas linhas de crédito. "Os bancos precisam reduzir a taxa de juros" afirmou dia desses o ministro do Planejamento, Guido Mantega.

Interessante que por dever de ofício acompanho mensalmente esse movimento de taxas. E, ou muito me engano, ou não me consta que Banco do Brasil ou Caixa Econômica Federal, ambos que como sabemos são de controle estatal federal, sejam "avis rara" nesse mercado. Do discurso à ação o governo parece esquecer a razão.
Deixemos o discurso e voltemos à lógica chapa branca (essa expressão, chapa branca, é outra do tempo do Von Danikem). Manter o juro alto para desestimular o consumo e assim proteger as classes de baixa renda que mais sofrem com a inflação. Essa é a propaganda disseminada pela intenção que parte da Esplanada dos Ministérios.

Desestimular consumo de forma a proteger as classes de baixa renda?

Que consumo seria esse se conforme o Dieese 20,6% da População Economicamente Ativa - PEA - no mês de abril, próximo passado, estava de fato economicamente à deriva. Em números, um em cada cinco brasileiros integrantes da PEA estava sem emprego. Essa foi a taxa de desemprego, recorde de 18 anos, registrada na região metropolitana de S. Paulo principal mercado de trabalho do país.

Parece claro que a vida real dá de ombros à lógica acadêmica e penaliza quem deveria ser protegido. Aliás, outro dado também divulgado recentemente dava conta de que 28% da receita dessa mesma população de baixa renda são consumidos por gastos com a saúde. Interessante, os mesmos 28% da receita de famílias de renda entre R$ 4 a R$10 mil são consumidos por despesas financeiras tendo os juros por vilão.

Mais grave que isso é a seqüência de moto perpétuo que se instala nesse nível e seu efeito na renda média familiar. Nessas famílias, o desemprego que se abate em um membro impele os demais membros a buscarem acesso ao mercado.

Decorre daí a pressão de excesso de oferta de mão-de-obra, o que resulta em redução da média de salários. Esse é outro dado constatado nesse período recente. Houve queda real e significativa da remuneração média do brasileiro.

Disse nosso médico ministro: "Aguardemos a estabilidade para podermos ter crescimento". Se mais razão não houver, e seguramente há, ao menos por pilhéria caberia perguntar: e se a solução para a estabilidade for resultante de crescimento?

Começo a dar razão a muitos que perguntam o que ocorrerá quando e se a política econômica do governo Lula for posta em prática.
Fico com a sensação de estar tendo mais do mesmo.

   
BIOGRAFIA
Ari Marques é consultor em gestão empresarial e ombudsman da Right Saad-Fellipelli Outplacement.
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