Por que alguns insistem em não aproveitar?

"...considerando que não lhe posso fazer maior presente que lhe dar a faculdade de poder em tempo muito breve aprender tudo aquilo que, em tantos anos e a custa de tantos incômodos e perigos, hei conhecido."

O texto acima foi escrito por um tal Nicolau aí por 1500 (estávamos, nosso Brasil, por sermos descobertos) e era endereçado a um certo monarca. Escrevia chamando a atenção de que à época era comum que se presenteassem príncipes com cavalos, armas, tecidos de ouro, pedras preciosas e outros ornamentos de mesma grandeza. Ele como não teria posses ofertava o que tinha de melhor: "o conhecimento das ações dos grandes homens aprendidos por uma longa experiência".

Interessante destacar neste ponto um conceito associado ao conhecimento como sendo a única mercadoria que podemos vender, entregar e ainda assim permanecer com ela. Não há perda, apenas desatualização e para isso devemos estar atentos.

Retomo então para esclarecer a razão da pergunta título: Por que tantos ainda insistem em não se aproveitar do conhecimento acumulado por milênios, ao qual teriam acesso pelo estudo e leitura, insistindo em apenas acumular o que a vida lhes apresente?
Esta tática aliás é cada vez mais deficiente. A velocidade com que o conhecimento evoluiu foi absolutamente fantástica neste último século.

Vamos aos exemplos para que não sejamos nós pegos pelo empirismo da afirmação?
Valho-me de estudo do professor e consultor de estratégia Fernando Luzio (MBA-USP) que pacientemente pesquisou e criou três quadros que passo a resumir espelhando a evolução do homem em três diferentes situações.

O primeiro, Aprendendo a se comunicar, mostra que do surgimento da escrita até a Bíblia de Gutemberg passaram-se 4.455 anos; deste ponto até a invenção do telefone, o intervalo foi muito aquém, chegando a 421 anos; o novo salto importante se dará para nós apenas 112 anos após, com a chegada da Internet no Brasil.

O segundo quadro, Aprendendo a Voar, dá conta que o primeiro grande evento se dá com o telescópio de Galileu em 1607; 294 anos após era criado o avião; passados apenas 60 anos já estávamos no espaço com o primeiro vôo tripulado; em apenas oito anos depois já pisávamos na Lua.

Do terceiro e derradeiro quadro do estudo do professor Luzio, Querendo ser Deus, temos que em 1839 surge a Teoria das Células; 114 anos depois temos a Estrutura do DNA já estudada; em 25 anos já obtínhamos êxito com o nascimento do primeiro bebê de proveta; e passados apenas 19 anos a ciência já produzia a Dolly.

Expressivo este estudo na demonstração de como somos literalmente atropelados pela velocidade de evolução do saber científico.
Como já escrevi no último artigo do ano que passou, o homem é o único fator de produção que não se comoditizou. Porém, o diferencial entre os profissionais está cada vez menos perceptível.

Cabe a cada um de nós buscar produzir nosso próprio diferencial competitivo de forma a que possamos ser encarados, quem sabe, como uma "vantagem competitiva" de nossas empresas.

Claro, exagero com essa afirmação. Mas não nos iludamos. Há necessidade extrema de que procuremos permanecer atualizados permanentemente.

Tendo isso em mente vai o conselho de que não busquemos apenas fazê-lo, nos atualizarmos, à custa da experiência própria. Aceitemos a oferta que muitos nos fazem ao partilhar conosco seu conhecimento através de seus textos como fez o Nicolau citado acima.

Ah, ia me esquecendo, o Nicolau da frase que inicia este texto é o Nicolau Maquiavel, que em 1513 escreveu este preâmbulo à sua obra "O Príncipe" remetendo-o, o texto, ao "Magnífico Lorenzo filho de Piero de Médicis" uma das famílias nobres que dominavam a Itália e a quem ele queria presentear.

Que tal esta sugestão para começar. Esqueçam o que o senso comum diz desta obra e leiam-na com interesse. Muito há para aprender ali como bem salientou o Professor Romeo Busarello (MBA - ESPM) em seu recente artigo "Mais Maquiavel e menos Porter".

   
BIOGRAFIA
Ari Marques é consultor em gestão empresarial e ombudsman da Right Saad-Fellipelli Outplacement.
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