Responsabilidade, temos?

Responsabilidade e Ética, como andamos nestes conceitos?

Acabamos de ser apresentados a um farto estudo do IBGE, denominado Estatísticas do Século XX. Trata-se de material que será fonte certa para consultas e base para decisões empresariais sobretudo de marketing. Muito se extrai desse documento e eu poderia escrever inúmeros artigos para este espaço somente fazendo a correlação entre aqueles dados divulgados “de persi”.

A importância do estudo está em nos apresentar a evolução, ao longo do século, de diversos índices do Brasil. Em matéria escrita para a Folha de S. Paulo (30/set/03) Antônio Góis e Fernanda da Escóssia assim sintetizaram o estudo: “O Brasil que encerou o século 20 era um país mais velho, mais urbano, mais feminino, mais alfabetizado e mais industrializado. “

Por este estudo aprendemos que o PIB saiu de R$ 9.184,11 em 1901 para expressivos R$ 1.005.914,80 em 2000. Aprendemos que houve um processo de intensa urbanização, deixando 1940 com 31,2% da população do país morando em cidades para chegar a 81,25% em 2000.

Há muito outros indicadores que atestam que evoluímos imensamente nesse último século. Mas, voltando à ética e responsabilidade, parece ter ocorrido o inverso.

Neste último mês muito foi discutido acerca da ética. Na televisão, era mote de programas jornalísticos e de telejornais. No rádio ocupava grande parte das grades de programas. De tal forma a mídia se impregnou do tema que até mesmo a “mal informada” crônica esportiva falou sobre ética. Apresso em esclarecer que as aspas que usei quando me referi à crônica esportiva é visão de jornalistas generalistas, e não minha.

Mais longe ainda foram as discussões entre a população, que estiveram em almoços de trabalhadores e rodadas de chopp nos tais momentos de happy hour. E por certo estiveram presentes em grande parcela de sisudos almoços executivos, provavelmente adotados como pauta nos momentos “quebra-gelo” ou “descontração final”.

Enquanto escrevia as linhas acima em minha mente pululavam “O Caso PCC made in Paraguay” e a “Soja Transgênica made in Monsanto”.

Escrevendo lembrei-me ainda de palestra proferida no II Congresso Paulista de Ouvidores e Ombudsman por Paulo Itacarambi, diretor do Instituto Ethos. Em sua apresentação, ele citou Humberto Eco em No que crêem os que não crêem. Segundo a obra, “A ética nasce quando o outro entra em cena”. Aliás, não há como nos dias atuais falar em ética e responsabilidade sem que citemos o Ethos.

A percepção acerca dos limites da relação ética e da responsabilidade social, a partir da existência do outro, como diz o texto acima, é base e essência para nortear a gestão de qualquer executivo com poder de decisão sobre destinos de empresas e dos governos.

Falemos um pouco sobre a responsabilidade social. Passamos as últimas semanas, povo e governo, discutindo sobre o plantio da tal neo-soja (geneticamente modificada - GM), porque o governo passou desde a última safra – em que autorizou plantadores gaúchos a colher e comercializar a produção da soja em caráter excepcional – sem regulamentar o fato e agora o faz por Medida Provisória.
Sobre esse tema, juntando pontas de informações daqui e dali, produzi o seguinte raciocínio:

    - Fato: O Brasil atingiu nestes tempos o estágio de maior produtor mundial de soja convencional.
    - Fato: Há diversos países, vários europeus, que fazem restrições à entrada desse produto quando se tratar de espécie GM, o chamado transgênico.
    - Fato: Só há um produtor de semente daquela soja.
    - Fato: Não há no mundo estudo conclusivo acerca dos efeitos do produto GM no organismo humano.


Sou forçado então a perguntar: qual a lógica de produzir a tal soja transgênica?

Por que não continuar a produzir a variedade convencional, que um dia fez o presidente Figueiredo torcer nariz diante das câmeras, para constrangimento geral, ao tomar o leite produzido da soja?

Até porque nem dava para acreditar nos sentidos daquele presidente que assumia preferir o cheiro de cavalos ao de povo.

Tenho receio que a solução desta dúvida venha a ser a resposta, negativa, à questão tema.

   
BIOGRAFIA
Ari Marques é consultor em gestão empresarial e ombudsman da Right Saad-Fellipelli Outplacement.
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