Estão mesmo havendo mudanças?

Dia desses assistimos a uma reunião, consta que teria sido inédita em termos de executivo, em que o governo federal fazia a avaliação dos seus “primeiros 18 meses de governo”. Soa estranho não é mesmo? Afinal como muita coisa na vida há uma variação enorme de percepção quando a ótica é outra. Eu por exemplo poderia dizer que este já é o terceiro semestre desse governo, o que a mim soaria diferente. A vocês não? Parece imputar maior responsabilidade um “terceiro semestre” ao invés dos “primeiros 18 meses”. Usando metáfora futebolística, “primeiros 18 meses” soa como preliminar, enquanto terceiro semestre dá idéia de que a bola já esteja em jogo há algum tempo. E isso sem forçar muito, pois outra forma de dizer o mesmo que o grupo presidencial disse, seria dizer que fosse o sexto trimestre ou mesmo o undécimo oitavo mês o que emprestaria ao evento, penso eu, dose ainda maior de responsabilidade.

Nesse mesmo mote, o de avaliações, parece haver o pensamento comum de que estaríamos diante de um reaquecimento da economia, especialmente no que se refere à retomada de empregos. Diversos indicadores caminham nessa direção e muitos escrevem ou falam sobre este tema com indisfarçável entusiasmo. Eu disse muitos, pois não são todos. A mais eloqüente exceção é o nosso presidente da república. Aquele mesmo que prometera os empregos e que faz pouco tempo previa a chegada do espetáculo do crescimento. Hoje ele fala em cautela ao mesmo tempo em que comenta terem sido abertos mais de 800 mil postos com carteira assinada.

Propondo a cautela, nosso Lula provavelmente tenha razão. Há muitos fatores que neste momento contribuem favoravelmente ao crescimento de empregos. Porém vários são efêmeros. Seria como analisar a taxa de desemprego na Grécia de 12 meses para cá. Provavelmente a economia helênica com os seus cerca de 10 milhões de habitantes esteja a pleno emprego em tempos de Olimpíadas.

Analisemos juntos. O que resulta da conjunção de um início de segundo semestre, associado à realização de eleições e melhora econômica de importante vizinho como a Argentina?

Claro que haveria mais a analisar caso optássemos por aprofundar a busca. Porém entendo que não caberia ao que se presta este espaço.
Antecipo a conclusão que adiante embasarei: é certo que haja uma retomada, porém não no nível necessário.

Um dos indicativos clássicos para antecipar revigoração da atividade econômica é olhar a indústria de embalagens e esta vem, há algum tempo, em crescimento. Porém, o quanto dessa melhora é sazonal, visto que tradicionalmente há evolução no segundo semestre?
Mais ainda: quanto desse desemprego encolhido está relacionado às eleições municipais? Direta e indiretamente. Quer seja nas empresas que gravitam o mundo dos pleitos eleitorais quer seja no sempre presente inchamento dos quadros das máquinas públicas aí inclusas empresas sob controle público. Como pitoresco, lembro do surgimento da função de “guarda-faixa em viaduto”. Esta atividade é do mercado informal, pois, não propicia carteira assinada, mas rende, há cerca de quatro meses do pleito, R$ 260,00/mês. E o marketing nos autoriza a prever um aumento de valor quanto mais se aproximar o pleito, momento em que as tais faixas terão papel de maior relevância em especial na eleição proporcional.

Por fim há o caso dos irmãos portenhos e o impacto de vendas exportadas de nossa chamada linha branca da indústria (geladeiras, fogões, máquinas de lavar etc). Uma das estatísticas que ouvi de comentarista, apesar de ela não citar a fonte, dava conta de que 1 em cada 3 refrigeradores produzidos no Brasil é exportado para o país das mães da Praça de Maio. Não cabe aqui questionar se está correta essa magnitude, porém no exato momento em que escrevo está em discussão a imposição de barreiras que implicariam a redução destes volumes.

Como antecipei parágrafos acima, a conclusão vai pelo caminho do aquecimento possível, mas não nos exaltemos, pois este é ainda muito longe do necessário.

   
BIOGRAFIA
Ari Marques é consultor em gestão empresarial e ombudsman da Right Saad-Fellipelli Outplacement.
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