A solidão do poder

As pessoas, em geral, estão acostumadas a pensar no presidente de uma empresa como um infalível super-homem, sempre consciente, seguro e equilibrado. São alguns adjetivos tão universalmente aceitos na maioria dos ambientes de trabalho que retiram do presidente até a sua condição humana. O presidente de uma empresa é quase um mito em muitos lugares.

Mas não se enganem os funcionários, porque o presidente é uma pessoa comum, recebe salário, paga contas, adoece às vezes, sofre com angústias, recebe pressões. É uma pessoa, com todas as necessidades e virtudes de toda pessoa.
Pode-se dizer que uma parte da culpa por essa imagem de infalibilidade e de onisciência é do próprio executivo que preside uma empresa, porque se mantém isolado e intocável.

Claro que ele precisa manter privacidade para tratar de assuntos confidenciais ao telefone ou por e-mail, portanto necessita de uma sala em que possa estar sozinho.

Claro que precisa de suporte secretarial - e às vezes a secretária vira uma espécie de "poder por trás do poder", e sem o chefe saber decide mais do que ele dentro da empresa.

E esta é uma questão para discutir. O presidente tem poder total?

Poder absoluto? - "Não existe o poder absoluto, mas a responsabilidade absoluta". A afirmação é do Dr. Ricardo Silveira de Paula, presidente do Grupo de Saúde ABC.

Médico neurocirurgião há 24 anos, o doutor Ricardo enveredou pela administração hospitalar ao cursar o Proasa, um programa de pós-graduação desenvolvido pela USP - Universidade de São Paulo em parceria com a Fundação Getúlio Vargas.

Afinal, há cinco anos conseguiu comprar 99% da participação acionária do hospital em que trabalhava e virou o dono. "Eu, como funcionário, era feliz e não sabia", brinca ele, ao lembrar do desgaste que é obrigar-se da responsabilidade total. "É muito difícil encontrar pessoas pró-ativas e preparadas para tomar decisão, no nível da média gerência. Isto deixa um dilema constante para o presidente: precisa delegar, permitir que as pessoas exercitem a sua independência e a sua liderança, mas ao mesmo tempo precisa acompanhar cuidadosamente para evitar que erros sejam cometidos".

Ricardo se confessa um profissional do tempo em que era necessário fazer concurso até mesmo para se tornar estagiário voluntário. Hoje, considera que a profissão está um pouco prejudicada pela massificação. "As universidades não estão preparando o profissional médico para gerenciar, o que considero uma falha", afirma.

Ele próprio decidiu optar pela carreira de administrador, e há vários anos não clinica. "A área de atendimento médico atualmente exige muito do administrador, principalmente porque existe uma grande concorrência. Além disso, não é mais uma área tão rentável, porque cerca de 19% da população economicamente ativa está desempregada, e como o desempregado perde direito ao atendimento, os hospitais acabam ficando ociosos e isto obriga a um esforço extra de planejamento e de administração", conta.

Solidão - A posição de presidente de uma empresa é, antes de mais nada, solitária. A pessoa que ocupa uma função como essa, segundo Ricardo, vive de salto em sobressalto.

"Cada vez que uma pessoa me traz uma opinião, preciso avaliar a isenção que ela tem. O superintendente da minha empresa, meus quatro diretores, todos têm o seu interesse pessoal em determinados assuntos, e a opinião que oferecem tem um percentual, maior ou menor, de comprometimento com esses interesses. Eventualmente, preciso me socorrer de opiniões de pessoas de fora."

Ricardo considera sorte ter se casado com uma mulher da área médica. "Minha esposa é a minha principal ouvinte. Com ela divido as preocupações do trabalho porque ela é da área e compreende".

Mas uma organização como a President's Network é a válvula de escape do presidente. A entidade reúne dirigentes para discutir questões que não podem ser discutidas no âmbito interno da empresa de cada um.

"Nas reuniões bimestrais do grupo, presidentes e gerentes gerais de empresas se reúnem e debatem problemas comuns. Um ajuda o outro e divide soluções para um determinado problema. As reuniões têm sido uma fonte excelente de idéias e soluções para os meus problemas administrativos", relata o doutor.

Imagem - Será que o presidente sabe o que os seus funcionários pensam a seu respeito? Ricardo gosta de pensar que a imagem que tem é boa. "Todos os funcionários do grupo começaram juntos, e conseguimos desenvolver um bom relacionamento. Temos um programa que chamamos Fale com o presidente, e que permite que a equipe de coordenação, que é de 60 pessoas, dirijam perguntas diretamente a mim".

Ricardo se considera um profissional de qualidade, dedicado e que, acima de tudo, tem objetivos. Bem humorado, conta que os filhos estão se preparando para acompanhá-lo na direção da empresa - um como administrador e outro como médico.

"Acho que, como profissional, cheguei ao ápice. Saí do zero, filho de pais pobres, e cursei medicina a duras penas, claro que contando com a ajuda de muitas pessoas importantes na minha vida. Ter uma empresa era o que eu queria. Hoje não me considero rico, mas tenho uma renda boa, e posso fazer da minha prioridade, agora, trabalhar para alcançar a realização pessoal", conclui.

 
   
BIOGRAFIA
Joaquim Maria Botelho é jornalista, especializado em Jornalismo Internacional e Fotojornalismo pela Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos. Atualmente é Gerente de Comunicação do Grupo Catho.

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