Brasil, país de empreendedores

Em 1990, a Embraer (Empresa Brasileira de Aeronáutica) de São José dos Campos (SP), entrava em uma crise profunda, causada pelas oscilações da economia mundial que fizeram cair o número de vendas de aeronaves para o exterior. Como medida extrema, no dia 16 de novembro daquele ano, a empresa, que então pertencia ao governo federal, foi obrigada a demitir, de uma só vez, 4.000 funcionários. A demissão coletiva foi um baque sem precedentes para a economia do Vale do Paraíba e do país, além de ter sido um abalo social único na história da região. Imagine-se uma cidade que repentinamente despertava com 4.000 desempregados a mais.


Soluções - Mas nem tudo foi desgraça. Poucos meses depois, esses técnicos, engenheiros, especialistas, receberam suas indenizações e deram tratos à bola para descobrir onde estavam as novas oportunidades de trabalho.

Foi uma verdadeira explosão de novos pequenos e médios negócios, e a demissão coletiva, que tinha tudo para ser uma tragédia social, se transformou na oportunidade para que potencialidades jacentes viessem à tona e talentos fossem revelados. A região, em vez de fenecer como se esperava, floresceu um pouco mais graças a esses novos empreendedores.

É claro que houve muitos casos tristes, pessoas que passaram muito tempo sem conseguir emprego, empreendedores que não obtiveram sucesso com seus negócios, mas a grande maioria se ajeitou e prosperou.

Este é apenas um exemplo recente do axioma que ensina que é nas crises que estão as soluções. E, ao que parece, o brasileiro está se especializando em superar garbosamente as crises.


País de empreendedores - Um estudo analisou o nível de atividade empreendedora em 21 países. Realizado pela britânica London Business School e pela norte-americana Babson College, o estudo se chamou Global Entrepreneurship Monitor - GEM 2000 (ou Monitor Global de Empreendimentos).

Pareceria lógico que os Estados Unidos se destacassem como o país que mais empreendedores tivesse, mas o resultado é que o Brasil ocupa o primeiro lugar. Em segundo lugar está a Coréia e em terceiro estão os Estados Unidos. O nível de atividade em lançamento de novos negócios no Brasil é, segundo o estudo, mais de 10 vezes o registrado no Japão - último colocado entre os 21 países pesquisados.

O estudo, que pesquisou 2.000 pessoas comuns e 17 especialistas em cada um dos países da mostra, revela fatos que colocam o Brasil em posição de destaque diante de muitos países tradicionalmente mais avançados economicamente.


Detalhes do estudo:

· Quantidade de empreendedores:
O Brasil é o país em que há mais gente tentando abrir um negócio: um em cada oito adultos brasileiros está tentando investir em empreendimento próprio (é mais do que nos Estados Unidos, onde um em cada doze adultos está nessa etapa). Mas, apesar de estar em primeiro, o que denota acelerado crescimento econômico, o Brasil registra apenas 2% das população adulta envolvida nesse investimento, o que, na média, é menos do que nos outros países.

· Idade dos empreendedores:
Pessoas entre 25 e 44 anos são consideradas mais ativas, e é nessa faixa que se concentra a maioria dos empreendedores brasileiros.

· Mulheres:
No Brasil, para cada 1,6 homens há uma mulher envolvida em um novo empreendimento (só perdemos para a Espanha e Canadá). Em todos os países pesquisados, a mulher é minoria.

· Ocupação em empresas novas:
O Brasil está também em terceiro lugar (pouco abaixo dos Estados Unidos, com 4%) no quesito que mede o número de adultos trabalhando em empresas novas. Em primeiro está a Coréia, onde 9% da população adulta trabalha em um negócio que existe há menos de 42 meses.

· Peso dos salários no empreendimento:
Embora seja consenso que a carga tributária sobre os salários no Brasil seja elevada, a estrutura dos salários permite praticar preços competitivos no mercado internacional.


O papel do governo

Dado que políticas governamentais são considerados fatores primordiais para favorecer o empreendimento, a pesquisa classifica os países, em relação ao estímulo oficial oferecido a novos empreendimentos, em nove quesitos:

1. Políticas governamentais - o Brasil tem 17 pontos diante da média de 18
2. Educação e treinamento - o Brasil tem 12 pontos diante da média de 18
3. Apoio financeiro - o Brasil tem 14 pontos diante da média de 17
4. Incentivos culturais e sociais - o Brasil tem 13 pontos diante da média de 16
5. Recursos para pesquisa e desenvolvimento - o Brasil tem 12 pontos diante da média de 9
6. Programas de governo - o Brasil tem 11 pontos diante da média de 8
7. Infra-estrutura comercial e profissional - o Brasil tem 7 pontos diante da média de 5
8. Acesso a infra-estrutura - o Brasil tem 7 pontos diante da média de 5
9. Grau de abertura do mercado interno - o Brasil tem 7 pontos diante da média de 4


Nem tudo são flores - A pesquisa, no entanto, identificou que as condições para expansão da atividade empresarial não são ideais em nenhum país dentre os pesquisados. E que há problemas no Brasil, embora a classificação no estudo tenha sido muito favorável.

Entre os problemas anotados, o acesso a capital, via financiamento governamental ou subsídios, não é facilitado no Brasil como deveria, o que constitui um obstáculo para novos empreendimentos.

A infra-estrutura disponível aos novos empreendedores, como estradas, instrumentos de exportação, softwares e periféricos, entre outros, é limitada.

E, no quesito educação, embora os níveis médios de escolaridade dos empreendedores tenha melhorado nos últimos anos, os padrões são ainda inadequados em relação aos outros países. Segundo pesquisas do Grupo Catho, somente 7,3% dos executivos brasileiros têm curso de mestrado ou doutorado - para os executivos estrangeiros que vivem no Brasil, este percentual chega a 26,5%. Para prover sua própria educação e atualização, 43% dos executivos brasileiros gastam menos de R$ 100 por mês.

Mas, ainda que nem tudo sejam flores, as evidências são de que um cataclisma social como o que assolou a Embraer no fim da década de 80 não se repetirá. Está crescendo a consciência do cidadão brasileiro para a necessidade da realização empresarial.

 
   
BIOGRAFIA
Joaquim Maria Botelho é jornalista, especializado em Jornalismo Internacional e Fotojornalismo pela Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos. Atualmente é Gerente de Comunicação do Grupo Catho.

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