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A universidade e a realidade do mercado
Se alguém
esteve recentemente em uma cerimônia acadêmica vai entender
o que vou dizer a seguir: a universidade, em geral, vive ainda os
tempos gloriosos da Idade Média. Antes que me crucifiquem
por heresia, explico-me. Não falo de uma festiva e moderna
colação de grau, mas de uma posse oficial de reitor,
por exemplo. Todos os passos do ritual cerimonioso são lentos,
espaçados. Parece que o tempo escoa mais devagar na ampulheta
que mede a passagem da beca, do capelo e da toga, desde a Universidade
de Bolonha, no século XI. É em um evento assim que
as pessoas são levadas a pensar sobre o fosso que ainda divide
a universidade da realidade de mercado.
Decerto muitos
representantes de universidades escreverão, indignados, para
contar das adequações recentes aplicadas aos currículos,
para torná-los mais eficientes na preparação
profissional dos alunos para o mundo do trabalho. E vão aproveitar
para tentar fazer marketing das instituições que representam.
Mas eu perguntaria de volta: quanto tempo leva para se acrescentar
uma disciplina a um currículo? Qual a velocidade em que o
Ministério da Educação atende esse tipo de
solicitação? Quanto tempo leva para encontrar, selecionar
e recrutar professores qualificados? E, evidentemente, serão
ainda necessários pelo menos mais quatro anos para formar
as primeiras turmas.
Enquanto isso,
o mercado se ressente de profissionais, e paga preços irreais
a uns poucos especialistas. Basta lembrar dos cursos de e-commerce,
que apenas muito depois de a atividade estar em pleno funcionamento
na Internet foram timidamente sendo implantados pelas escolas de
terceiro grau.
Sabemos, é
claro, que a universidade corporativa não pretende competir
com a universidade tradicional. Os créditos não são
aproveitáveis em cursos oficiais e nem há envolvimento
do Ministério da Educação na implantação
de cursos específicos nas empresas.
Mas a maior
demonstração de que a universidade tradicional não
prepara com eficácia profissionais para o mercado de trabalho
é o lançamento seguido de universidades corporativas.
Ou seja, as empresas assumem a função que a Universidade
devia ter, a empreitada da formação complementar do
profissional moderno para enfrentar as necessidades diárias
de seu negócio em áreas específicas de conhecimento.
Iniciado nos
Estados Unidos em 1980, o fenômeno da Universidade Corporativa
expandiu-se naquele país para mais de 500 unidades. A idéia
foi aplicada no Brasil pela Motorola, inicialmente, e chamou a atenção
de outras empresas como a Datasul, McDonald's, Brahma, Telemar e
BankBoston, por exemplo, além de empresas públicas
como a Sabesp e o Metrô de São Paulo. Mesmo assim,
são apenas 20 escolas em todo o território brasileiro
a trabalhar nesses moldes.
Universidade
do cartão de crédito
Pois bem, foi
a vez de um segmento muito específico lançar a sua
universidade corporativa, o de meios eletrônicos de pagamento.
Nesta semana foi anunciada a criação da Universidade
Corporativa da Visa do Brasil. O projeto, que carreou R$ 3 milhões,
é resultado de programa de treinamento iniciado em 1997,
o Visa Training. "A evolução de treinamentos
pontuais para a universidade corporativa era uma necessidade",
garante Ricardo Gribel, presidente da Visa do Brasil. Segundo ele,
a decisão segue um posicionamento global da empresa, que
está tomando a mesma iniciativa nas cinco outras regiões
de atuação no mundo.
O programa de
treinamento Visa Training formou, desde 1997, um total de 4.771
profissionais, em 127 cursos específicos, em áreas
diferentes do negócio de cartão de pagamento. Para
a transformação do programa em universidade corporativa,
a diretoria de Recursos Humanos, capitaneada por Maria Cecília
Loverro, foi buscar consultoria da Hay do Brasil, especializada
na promoção de processos de educação
e aprendizagem.
Uma das constatações
mais gritantes no mercado de meios eletrônicos de pagamento
e que está entre os fatores que de certa forma motivaram
a implantação da Universidade Visa, é o fato
de que pelo menos um terço de todas as transações
de e-commerce realizadas hoje são pagas por meio de cheque
e boletos bancários. Isto se deve à rejeição
que uma parcela expressiva da população confere às
transações eletrônicas, especialmente via Internet.
"A Universidade
Corporativa Visa vai promover, nos seus cursos, treinamento para
ações de marketing que permitam elevar o percentual
de pessoas que fazem pagamento por meios eletrônicos, e, ao
lado disso, grandes investimentos já estão sendo feitos
em sistemas para garantia da segurança da transação",
explica Maria Cecília.
Mas a argumentação
mais forte fica com Ricardo Gribel. Segundo ele, são compensados
no Brasil cerca de 130 milhões de cheques por mês,
90% deles com valores inferiores a R$ 5.000,00. "O custo de
cada folha de cheque é de US$ 1.00, quando somamos todos
os gastos, desde a impressão, armazenagem, distribuição,
a transação propriamente, com a emissão do
cheque, a compensação, o aviso. Ora, a transação
com cartão tem apenas custos marginais, o que significa que,
ao serem elevados os volumes de operações com cartão,
estaremos diminuindo os custos para os próprios bancos."
Aliás,
já foram produzidos, com a bandeira Visa, 4 milhões
de cartões (com banda magnética e com chip) para segurados
do sistema INSS, o que deverá contribuir para diminuir muito
o uso do cheque e para minimizar muito as filas.
A criação
de um Sistema Nacional de Pagamentos, já aprovado pelo governo
federal e previsto para entrada em vigor em novembro deste ano,
também será uma outra conquista do segmento de meios
eletrônicos de pagamentos, uma vez que diminuirá grandemente
o trabalho de compensação, reduzindo custos.
Vivemos numa
velocidade eletrônica. Vamos torcer para que as universidades
tradicionais e o governo federal despertem para a necessidade de
agilizar os métodos de ensino e de aprendizagem para permitir
que os currículos escolares estejam cada vez menos distantes
das necessidades que o profissional precisa suprir para conseguir
espaço no mercado de trabalho.
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BIOGRAFIA
Joaquim Maria Botelho é jornalista, especializado
em Jornalismo Internacional e Fotojornalismo pela Universidade
de Wisconsin, nos Estados Unidos. Atualmente é
Gerente de Comunicação do Grupo Catho.
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