Educação a distância

Definitivamente a atualização é um elemento diferencial dos mais importantes na carreira de um executivo.

Um levantamento realizado pela Adecco-Top Services, dona do portal de recursos humanos Askme, e divulgado junto a uma amostragem de 70 mil currículos de seu banco de dados, dá conta de que os internautas sem diploma que procuram empregos pela Internet são a minoria: cerca de 22% não possuem curso universitário.

Segundo a pesquisa, 77,9% têm pelo menos um curso universitário, 10,56% possuem pós-graduação e apenas 1,5% fizeram mestrado. Do total de candidatos analisados, 28,95% informaram possuir fluência em inglês e apenas 39% deles - ou seja, praticamente oito mil candidatos - afirmaram ter domínio completo do idioma. Cerca de 77% possuem conhecimentos básicos de programas de edição de texto como o Word, e quase 70% possuem conhecimentos mínimos de planilhas de cálculo do tipo do Excel.

Com os dados obtidos, a Adecco também conseguiu detectar as tendências do mercado. Se há três anos a área de informática respondia pela maioria das procuras de emprego feitas pela Internet, hoje em dia elas representam apenas 11% do total. A área de maior destaque atualmente é a ligada a funções administrativas (20,19%), seguida pela área financeira (14,26%), pela de engenharia (12,58%) e pela comercial e de marketing (12,58%).

Atualização - Uma pesquisa mais dirigida, que o Grupo Catho realizou pela Internet com 3.658 profissionais em fevereiro mostra que 87,7% das pessoas, de alguma forma, procuram se atualizar com o objetivo de qualificar a carreira profissional. Um total de 69,2% das pessoas dedicam entre duas e dez horas por semana a algum tipo de atividade relacionada com a atualização.

Da pesquisa, é possível inferir que a leitura de livros não é o meio preferido pela maioria dos respondentes (apenas 15,2% utilizam livros intensamente como forma de atualização). Os jornais alcançam 67,1% dos respondentes, como veículo preferencial de atualização. Dos mais lidos, a Gazeta Mercantil mereceu menção por parte de 34,7% dos 3.658 profissionais consultados na pesquisa.

É interessante salientar que 9,3% do universo pesquisado é composto por ocupantes de cargos de alta gerência, o que explica o fato de a Gazeta Mercantil, jornal mais amplamente divulgado nos ambientes de empresas - e que também é um jornal nacional e portanto mais acessível do que o Wall Street Journal, por exemplo -, seja consultado por mais de um terço dos respondentes.

A Internet, como veículo de atualização, bateu todos os demais meios na pesquisa: 62,6% dos respondentes utilizam a rede com o fim específico de se atualizarem por, pelo menos, uma hora por dia.

Partindo do pressuposto de que a leitura compreensiva de um jornal ou uma revista toma de uma pessoa aproximadamente uma hora por dia, pode-se considerar que o uso da Internet com o objetivo de atualização deveria ocupar volume comparável de tempo - e esta é a razão de considerarmos a alternativa dos respondentes que afirmam utilizar a Internet por seis ou mais horas por semana (62,5%). Quanto à leitura de livros, seis livros por ano de, em média, 200 páginas, significa a leitura de três a quatro páginas por dia - o que pode levar uma hora por dia.

Entrevista - Vê-se, pois, que a Internet está na ordem do dia como instrumento de atualização. O crescimento da possibilidade de ensino a distância vem despertando o interesse de algumas universidades e diversos websites.

Para debater esse assunto, fomos procurar um especialista. Descobrimos Paulo Milet, diretor de Consulting do site www.eschola.com, que está promovendo no Brasil um seminário com Jeanne Meister, autora do livro "Educação Corporativa", publicado pela Makkron Books no Brasil. Jeanne é considerada hoje o principal nome mundial no tema Universidades Corporativas, um modelo de educação orientado para o mercado no século XXI. Empresas como a Universidade GM, Petróleos Venezuela, Corporação Unysis e Sears Roesbuck utilizam o conceito com grandes resultados.

Entrevistamos o especialista Paulo Milet sobre este assunto:

Carreira & Sucesso: Temos mostrado nas edições do jornal virtual Carreira & Sucesso o dilema que está posto para o futuro, que é a falta de profissionais qualificados para assumir posições de alta gerência. É onde a educação corporativa é mais necessária? E como esta modalidade de educação pode melhorar a situação?

Paulo Milet: Uma Universidade Corporativa é o guarda-chuva estratégico para o desenvolvimento e educação, não apenas de funcionários de alto escalão, mas de todos os níveis, alem de clientes e fornecedores, com o objetivo de atender às estratégias empresariais de uma organização. Isso é conseguido porque a Universidade Corporativa é um processo onde os empregados, em parceria com os membros da cadeia de valor, constróem as competências individuais e organizacionais aumentando a performance da organização.

C&S: A empresa pode confiar na qualificação de um empregado que só teve educação virtual? Que grau de profundidade de aprendizado uma pessoa pode ter somente com a educação virtual?

Paulo Milet: Uma Universidade Corporativa não é apenas aprendizado a distância. Na realidade, tornou-se um terreno fértil para a experimentação de novas maneiras dos empregados aprenderem novos perfis e papéis dentro da organização. Quando, em nossa pesquisa sobre melhores práticas, perguntamos a 120 universidades corporativas quantas estavam usando novas tecnologias para o aprendizado, elas responderam que, hoje, 20% de todo o treinamento era desse modo e que por volta de 2003, mais de 50% de todo o treinamento estaria utilizando-se de tecnologias do tipo Internet ou Intranet. Muitas dessas organizações estão focadas em desenvolver um currículo equilibrado, em que tanto a tecnologia quanto a sala de aula estejam integradas em uma única experiência. Os ambientes de aprendizagem online não são uma mera reprodução de uma sala de aula tornada virtual, mas o conceito que vai se firmando é o de um ambiente de apoio à performance individual, gerando a performance organizacional baseada em um processo de aprendizado contínuo e permanente.

C&S: A Universidade Corporativa, como por exemplo a que a Motorola instituiu com a sua ajuda, não corre o risco de se tornar uma espécie de tutela do empregador sobre o empregado? Quais são os principais problemas para implementação de uma universidade corporativa? Que ações devem ser tomadas para evitar falhas?

Paulo Milet: Uma das preocupações das Universidades Corporativas é com a empregabilidade e com o desenvolvimento integral do indivíduo, alinhando suas capacidades e interesses com os da organização. Os riscos são o de tentar uma implantação sem a preocupação de aprender com as melhores e, principalmente, sem o envolvimento da alta cúpula e sem o desenvolvimento de uma visão compartilhada pelas gerências. Uma maneira de facilitar o sucesso é com o estabelecimento de indicadores que possam medir os resultados alcançados e a satisfação dos clientes e colaboradores, desse modo permitindo o aperfeiçoamento contínuo e evitando qualquer risco como o citado na pergunta.

C&S: A educação corporativa pretende prover o que o governo e as instituições tradicionais de ensino falham em oferecer? Você tem informação sobre o panorama brasileiro - quer dizer, o país está no momento adequado para receber a implementação de universidades corporativas? Ou ainda temos que aprender e pesquisar para implantar adequadamente este tipo de educação?

Paulo Milet: O conceito de Universidade Corporativa que nós defendemos não pretende substituir o rigor da educação tradicional, mas uma Universidade Corporativa pode ser o meio ideal para as empresas abastecerem seu pessoal com o conhecimento prático de negócios, a competência gerencial, e a formação orientada para as tarefas, tudo projetado para tornar a organização mais competitiva. Nos Estados Unidos, nos últimos 13 anos, mais de 100 faculdades fecharam as portas, enquanto que no mesmo período o número de organizações com Universidades Corporativas passou de 400 para 1.600. Mantidas essas taxas, prevemos que o número de Universidades Corporativas vai superar o de universidades tradicionais em dez anos, ou menos. Em relação ao Brasil temos tido muitos participantes de empresas brasileiras em nossos eventos e sabemos, através deles, que o mercado de Universidades Corporativas está no seu início, mas com grande potencial de crescimento, principalmente com aquelas empresas que estão em mercados competitivos e globalizados e que não podem deixar de dar atenção especial a sua força de trabalho. O que eu sugiro para começar é que façam comparações (benchmarking) com as melhores do mundo e montem seus planos para sair do estado atual e alcançar padrões mundiais.

C&S: Que tipo de empresa está mais preparada para promover o modelo da educação a distância?

Paulo Milet: As empresas que demonstram alto nível de interesse em lançar uma Universidade Corporativa tendem a ser aquelas dos setores de alta tecnologia, manufatura, serviços financeiros, telecomunicações, saúde e serviços públicos. Os motivos variam desde um alto grau de consolidação, normalmente evidentes nessas indústrias, até o advento de novas tecnologias e a redução do prazo de validade do conhecimento exigido para que se tenha êxito operando esses segmentos. As mais preparadas são aquelas que reúnem os quatro motivos básicos para isso:

* Vincular o aprendizado e o desenvolvimento às principais metas da organização;
* Criar uma abordagem sistemática ao aprendizado e ao desenvolvimento;
* Difundir uma cultura e valores comuns em toda a organização; e
* Desenvolver a empregabilidade dos empregados.

C&S: A proliferação de sites de educação a distância, especialmente em idiomas, representa uma complementação da educação formal?

Paulo Milet: O grande desafio atualmente, no campo do desenvolvimento profissional, é a aprendizagem permanente. Isso significa a necessidade de os profissionais darem continuidade a sua educação e desenvolvimento em todos os períodos da vida, ao mesmo tempo em que lidam com carreiras divergentes, nas mais diversas circunstâncias econômicas. Em segmentos tão diferentes quanto os de computadores, saúde, serviços públicos, telecomunicações e até mesmo treinamento e desenvolvimento, nossos conhecimentos e qualificações só são adequados para um período de no máximo 12 ou 18 meses. Com a introdução do aprendizado a distância, o centro do paradigma do ensino está deixando de ser o professor para ser o aluno e a responsabilidade também passa para este. Desse modo serão cada vez mais comuns as alternativas para o aprendizado contínuo das pessoas, seja através de sites, de universidades corporativas ou mesmo de novas tecnologias aplicadas ao ensino formal.

 
   
BIOGRAFIA
Joaquim Maria Botelho é jornalista, especializado em Jornalismo Internacional e Fotojornalismo pela Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos. Atualmente é Gerente de Comunicação do Grupo Catho.

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