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Currículo on-line facilita golpe do emprego
Após
incluir dados em sites de recolocação, 76% dos candidatos
recebem ligações de outras consultorias.
Leia
mais:
- Currículo on-line facilita
golpe do emprego
- Prática abusiva fere
direito do consumidor
- Consultor tenta atrair profissional
de fora
- Estudante vira alvo de vagas
inexistentes
- Denúncias à
Justiça incentivam investigação
- Consultorias provocam desconfiança
- Pronúncia similar
faz cliente confundir nomes de empresas
- Regras claras mostram idoneidade
das empresas
Currículo on-line facilita golpe do emprego
O que todo desempregado
espera é que o telefone toque. Mas atendê-lo é
cada vez mais arriscado. Do outro lado da linha, pode estar alguém
que se diz "head- hunter" (caçador de talentos)
repetindo um texto decorado: "Tivemos informações
sobre você no mercado e temos uma vaga exata para o seu perfil.
Vamos marcar uma entrevista com urgência".
É um
dos sinais do golpe. A proposta é tentadora, o potencial
empregador "adorou" o profissional, e a contratação
será imediata. Mas, após o pagamento pelo serviço
(outro sinal de alerta, já que os verdadeiros "head
hunters" são pagos pelas contratantes e não pelos
profissionais), o "quase empregado" não é
chamado para trabalhar.
Segundo levantamento
feito pela Folha com pessoas que caíram ou quase caíram
no golpe, 80% receberam o telefonema. Dessas, 76% tinham incluído
recentemente seus currículos em sites de grandes empresas
de recolocação.
Anselmo Zacaria
Portes, 25, diz que recebeu ligação da Marca RH dias
depois de se cadastrar em um site de empregos. Perdeu R$ 300. "Não
tenho dúvida de que me escolheram a partir do banco de dados
do site. Me senti enganado duas vezes: ao assinar o contrato e quando
ouvi que esperar [pela vaga] fazia parte do processo."
A Folha tentou
contatar a Marca RH, mas, até o fechamento da edição,
ninguém atendia o telefone presente no site da consultoria.
O tradutor G.L.,
48, que prefere não se identificar, diz que foi enganado
por dez consultorias depois de cadastrar seu currículo em
sites. O prejuízo total foi de R$ 10 mil. "Você
fica desesperado e sempre acha que vai dar certo."
A economista
carioca Janaína de Lima Carvalho, 30, só se deu conta
de que tinha caído em uma armadilha quando saiu da Interview
RH, em São Paulo. "Foi quando reli o contrato."
Após se cadastrar no site da Manager, ela recebeu uma ligação.
Na entrevista, questionou o valor a pagar (R$ 700). A resposta:
"Não tirei você do Rio à toa". Ela
perdeu o dinheiro e o que gastou com a viagem.
André
Chede, advogado da Interview RH, confirma que a empresa procura
currículos em sites. "Não vou dizer que não
fazemos. Mas não é crime, já que pesquisamos
em sites de acesso gratuito. Qualquer um pode ligar para ele."
Para a advogada
do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) Maíra
Feltrin, o cliente é a parte vulnerável no processo.
"Dados do consumidor não podem ser passados adiante
sem o conhecimento dele."
O diretor-executivo
da Manager Online, Leandro Idesis, diz que a tecnologia é
segura. "A consultoria só consegue ter acesso aos currículos
ao se cadastrar falsamente como empresa. Estamos sempre correndo
atrás delas e tirando-as do site."
"É
impossível evitar a disponibilização dos dados
de contato dos clientes, pois o convite para a entrevista verdadeira
se dá por esse meio", justifica o diretor-geral do Grupo
Catho, Adriano Arruda. "Mas só empresas inspecionadas
têm acesso aos currículos".
A Catho é
ré em processo aberto em 2002 pela Curriculum, pela Manager
e pela Gelre por "furto" de dados. A Catho diz que está
segura de que ganhará o processo, já que não
fez nada de errado.
(Folha de
S. Paulo – 31/10/04)
Prática abusiva fere direito do consumidor
Mesmo que a
garantia de emprego dada ao cliente tenha sido verbal e não
conste no contrato, a atitude pode configurar crime. Das 50 pessoas
consultadas pela Folha, só 12 procuraram órgãos
de defesa, isso porque a maioria acredita que o contrato assinado
não pode ser contestado.
Mesmo que não
exista uma cláusula abusiva no contrato, "a prática,
o acordo verbal estabelecido entre as partes, também deve
ser levada aos órgãos de defesa do consumidor",
diz a promotora Deborah Pierri, do Ministério Público
de São Paulo.
Daniel de Oliveira
Gonçalves, 30, gerente de consultoria, é um exemplo.
Ele aguarda a decisão final ganhou em primeira instância
no processo por danos materiais e morais movido contra uma consultoria.
"E ainda preciso recuperar os cheques sustados que estão
em poder da empresa."
Como
proceder
A via-crúcis de quem se sentir prejudicado começa
com a tentativa de recuperar o dinheiro entregue à empresa.
Se foi pago em prestações, é preciso sustar
os cheques ou pedir o cancelamento das parcelas do cartão
de crédito e solicitar formalmente o rompimento de contrato
com a firma.
Em seguida,
a pessoa pode procurar órgãos de defesa do consumidor
da sua própria cidade, como a Fundação Procon
ou o Idec, em busca de um acordo entre as partes. "A falsa
promessa de emprego está entre as principais reclamações
recebidas", diz Leila Cordeiro, assistente do Procon.
Outro caminho
é recorrer diretamente ao Juizado Especial Cível para
solicitar reparação por danos morais e materiais,
desde que, juntos, somem até 40 salários mínimos
(o equivalente a R$ 14.400).
A internet também
é uma forma de evitar problemas futuros. Consultar o nome
da empresa em sites de busca pode ser um alerta antes de ir à
consultoria. Em caso de dúvidas, consulte o Código
de Defesa do Consumidor no site
.
(Folha de
S. Paulo – 31/10/04)
Consultor tenta atrair profissional de fora
A distância
que separa Florianópolis de São Paulo é de
700 quilômetros. O trajeto, para a farmacêutica V.M.,
24, que pediu para não ser identificada, seria curto se ela
trouxesse na bagagem de volta o emprego que procurava.
"Ligaram
para o meu celular dizendo que tinham uma oportunidade para mim,
mas que eu deveria estar na empresa no dia seguinte", conta
ela. Ao chegar à CCConection RH, o emprego "sob medida"
exigia um laudo psicológico de R$ 2.000.
Ela percebeu
a situação es tranha e decidiu não assinar
o contrato. "Mas me sinto totalmente prejudicada e enganada.
Gastei com a viagem e ainda perdi um dia de trabalho."
O documento
redigido pela empresa e assinado pela candidata estabelece São
Paulo ou a cidade-sede da instituição como local para
possíveis ações judiciais ou reclamações.
Até o
fechamento desta edição (sexta-feira), não
foi possível entrar em contato com a empresa CCConection
RH. No telefone divulgado em seu site, há apenas a mensagem
de que o número está temporariamente fora de serviço.
Lado
mais frágil
Mesmo tendo assinado um contrato, é possível recorrer
ao Código de Defesa do Consumidor. "Considerando-se
a situação de vulnerabilidade do consumidor, o código
defende a inversão do ônus da prova assim, a empresa
é quem deve provar que não cometeu o crime e também
estabelece que o cliente tem foro privilegiado, podendo recorrer
na própria cidade", alerta Maísa Feltrin, advogada
do Idec.
Foi o que fez
o engenheiro químico A.M., 32, que, depois de se deslocar
de Joinville (SC) para Curitiba e de ter pago R$ 1.500, entrou com
uma reclamação no Procon em agosto deste ano, cancelou
os débitos no cartão de crédito e aguarda o
resultado. "Se, no Procon, não houver acordo, o caso
vai para o Juizado Especial Cível", diz ele, que prefere
omitir o nome da empresa.
"Bastou
colocar meu currículo nos sites de vagas e comecei a receber
várias ligações, o que acontece até
hoje. Até a empresa que processei continua me oferecendo
vaga com a mesma conversa", diz o administrador de empresas
Jander de Melo Pereira, 46, que também não quer identificar
uma consultoria de Campinas (SP).
Quando foi contatado
para uma vaga de gerente de tecnologia numa multinacional, Pereira
resolveu arriscar. Levou a mulher e a filha para a cidade, a 95
km de São Paulo. Ele conta que, além do desgaste emocional,
teve prejuízo de R$ 300 pelo pagamento de testes que dariam
acesso a entrevistas das quais ele nunca participou.
Para evitar
esses problemas, Leila Cordeiro, da Fundação Procon,
recomenda que o candidato busque informações sobre
a empresa e consulte reclamações em órgãos
de defesa do consumidor mas antes de sair de casa.
(Folha de
S. Paulo – 31/10/04)
Estudante vira alvo de vagas inexistentes
Muda o público,
mas a intenção é a mesma. Desde julho deste
ano, alunos do ensino médio têm recebido por telefone
ofertas para estágio. A agência diz que basta fazer
um treinamento de uma semana e passar em um teste para ter a vaga.
O detalhe: é preciso pagar pelas aulas.
A estudante
Helen Cristina da Silva, 17, recebeu em agosto três chamados
para vagas. Como não tinha experiência, teria de assistir
às aulas no valor de R$ 500.
A empresa se
apresentou como sendo o Nube (Núcleo Brasileiro de Estágios)
e se disponibilizou a custear metade do curso. Silva fez o primeiro
pagamento. "Com cartas de recomendação do Instituto
de Tecnologia e Ensino Profissionalizante [firma que fazia o contato]
e do Nube, fui à empresa indicada. Mas eles não sabiam
do que se tratava."
O Nube diz que
seu nome foi usado indevidamente, registrou a ocorrência e
acompanha o caso na Justiça.
O instituto
está registrado na Receita Federal como varejista de livros.
Até a última sexta, a firma não havia sido
localizada pela Folha.
(Folha de
S. Paulo – 31/10/04)
Denúncias à Justiça incentivam investigação
O sentimento
de impotência diante do golpe, menos do que o lamento pelo
dinheiro perdido, é a principal queixa dos consumidores que
caem nas armadilhas da recolocação profissional. O
desconhecimento das formas de denunciar colabora para que os golpes
continuem acontecendo.
Para defender
direitos coletivos do consumidor e investigar crimes que lesam a
sociedade há o Ministério Público (Promotoria
de Justiça do Consumidor). A investigação pode
se dar de duas formas: por iniciativa própria ou por provocação
das partes, quando o cliente, por exemplo, denuncia o caso ao Ministério
Público. "É importante que haja denúncia
para que possamos checar os fatos.
Se constatamos
que muitos foram enganados por uma mesma empresa, pode-se configurar
estelionato", diz o coordenador do Centro de Apoio Operacional
(CAO) das Promotorias de Justiça do Consumidor, Marco Antonio
Zanellato.
"Os consumidores
lesados não são somente aqueles que de fato contrataram
as empresas, mas todos aqueles que, na busca do emprego, estejam
expostos às práticas irregulares", diz o texto
do Ministério Público de São Paulo, que propôs
uma ação civil pública contra a Dow Right e
a Alphalaser em 2003. Os três juízes que avaliaram
o processo se manifestaram favoráveis ao recurso. O voto
do juiz Rizzato Nunes diz que "a prática enganosa era
flagrante".
Essa ação
requer que as empresas se abstenham de anunciar vagas falsas, de
captar clientes de forma desleal, de anunciar parcerias inexistentes
e condena as rés a indenizar seus clientes.
Consultada pela
Folha, a empresa Dow Right informou que seu departamento jurídico
está viajando. Lucia Dias, do departamento de qualidade da
Dow Right, diz que a empresa "mudou, implantou um sistema de
qualidade e tem clientes recolocados e satisfeitos". Para o
advogado da Alphalaser, Marco Antonio Sadeck, é dever do
Ministério Público investigar, "mas essa ação
é um exagero". E completa: "A Alphalaser está
propensa a indenizar qualquer pessoa que se sentir prejudicada".
Já a
Fan Assessoria Profissional não pôde ser localizada
pela Folha para comentar as ações sofridas porque
o telefone que consta em seu registro não é atendido.
Relação
de consumo
Para Antonio Zanellato, "como os contratos são de adesão
e não decorrem de um acordo de vontades, os clientes merecem
defesa pelo código do consumidor. É o Ministério
Público que pode acabar com essa prática abusiva".
"O grande
problema do país em casos de ação civil pública
é que as empresas descumprem a obrigação da
liminar porque só serão punidas depois de julgadas",
diz.
Para denunciar
casos que ferem os direitos coletivos, basta enviar um e-mail para
comunicacao@mp.sp.gov.br.
(Folha de
S. Paulo – 31/10/04)
Consultorias provocam desconfiança
Não há
estimativas confiáveis do número de prejudicados por
consultorias de recolocação nem de quantas empresas
agem de má-fé.
Com a intenção
de construir um perfil dos profissionais que tiveram contato com
essas consultorias, a Folha fez uma enquete com 50 pessoas, participantes
do grupo de discussão sobre o tema do UOL
e do site Reclame Aqui.
Uma das conseqüências
da experiência é a descrença em consultorias
de RH. Trinta e uma das 50 pessoas (62%) dizem que nunca mais contratarão
esse tipo de serviço.
Com diferentes
profissões, os consumidores revelaram que incluir o currículo
em sites de emprego é prática comum -98% deles já
usaram o recurso. Mais de 83% deles se submeteram a testes psicológicos,
sendo que a maior parte viu nisso uma prática normal no processo
de seleção, apesar de avaliar que foi "mal aplicada".
(Folha de
S. Paulo – 31/10/04)
Pronúncia similar faz cliente confundir nomes de empresas
Empresas de
RH têm levado prejuízo por tabela em função
da semelhança entre o nome delas e o das consultorias de
recolocação que recebem reclamações
dos clientes por seus métodos. Como elas têm sites
e cadastro na lista telefônica, viram vítimas da confusão
do cliente, que se sente lesado por não achar a "outra".
As sócias
da Connection Assistência em Recursos Humanos desconfiaram
do problema quando começaram a receber telefonemas e e-mails
com ameaças e reclamações de clientes que nunca
foram seus. Descobriram que existia outra empresa de RH em São
Paulo com pronúncia idêntica à delas, a CCConection
RH.
"Essa confusão
tem dado muita dor de cabeça e queda no faturamento. Passo
o dia atendendo reclamações e respondendo e-mails
de pessoas desesperadas, que imploram ajuda", afirma Brenda
Dias, sócia da Connection.
Uma investigação
feita por ela mostra que a CCConection, constituída em 1998,
era, até maio deste ano, uma empresa de motoboys. Com a morte
do sócio majoritário em 1998, foram admitidos outros
dois, que alteraram a razão social e o nome fantasia da firma.
Já a
Definite Soluções em Talentos Profissionais está
há quatro anos no mercado e há um ano sofre com a
semelhança nominal com a Definity Recursos Humanos, que é
ré em pelo menos 37 processos em andamento no Tribunal de
Justiça de São Paulo. "Meus clientes começaram
a desconfiar da idoneidade que levamos anos para construir.
Até meus
amigos me ligam para tirar satisfação", conta
a sócia da Definite Sueli Cândido. "Somos uma
empresa pequena e trabalhamos seriamente. Não queremos que
usem nosso nome para iludir pessoas", afirma Dias, que registrou
boletim de ocorrência e cogita processo judicial.
A CCConection
RH e a Definity Recursos Humanos não foram localizadas pela
reportagem. O telefone que consta no site da CCConection está
fora de serviço e, dos seis números apresentados na
lista telefônica como sendo da Definity, nenhum é atendido.
(Folha de
S. Paulo – 31/10/04)
Regras claras mostram idoneidade das empresas
Não é
só de problemas de abordagem e transparência vive o
mundo da recolocação profissional. Como em todos os
setores, há as consultorias que realmente orientam o candidato
na busca pela vaga e trabalham com oportunidades reais.
Três dias
depois de ser demitida, Karina Paganelli, 27, procurou auxílio
de uma firma de recolocação para voltar ao mercado.
Dois meses depois, além de várias entrevistas, encontrou
o emprego que buscava.
Desembolsou,
de forma parcelada, valor equivalente ao seu primeiro salário
para pagar os serviços prestados pela consultoria, mas somente
depois de contratada. "Assisti a cinco palestras e tive assessoramento
de consultores via internet", relata ela, que atualmente é
gerente regional de implementação da DHL Express.
De acordo com
Elaine Saad, da consultoria Right Saad Fellipelli, geralmente grandes
companhias do setor atendem apenas pessoas jurídicas.
"A diferença
é que o perfil dos consultores de "outplacement"
serviço pago pela empresa para recolocar o funcionário
demitido é de orientação. Já o de empresas
de "hunting" caçadores de talentos é de
avaliação, não de direcionamento de carreira",
explica a consultora.
Na hora de contratar
funcionários para seus clientes, a principal fonte de profissionais
é o banco de currículos do próprio site das
consultorias. Por isso é preciso cuidado ao receber telefonemas
de "headhunters".
Para a diretora
financeira Angela Pugliese, 37, o serviço oferecido pela
Right Saad Fellipelli e pago pela empresa da qual estava saindo
foi o suporte necessário para encontrar uma nova vaga no
mercado.
"Em conjunto
com a consultoria, pude fazer um mapeamento da carreira e das oportunidades
na área. Surpreendi-me com a qualidade. Eu tinha receio desse
mercado", conta.
"Um profissional
que nunca repensou a carreira precisa de apoio para rever a construção
do currículo e conhecer melhor o mercado em que quer atuar",
emenda.
Se mantidos
os cuidados com ofertas de vagas "tentadoras" recebidas
por telefone, cadastrar o currículo no site das empresas
pode ser também um caminho para a auto-recolocação.
"Na hora de contratar, consultamos o nosso próprio banco
de currículos on-line", informa Beatriz Schmidt, superintendente
de treinamento e seleção do Unibanco.
(Folha de
S. Paulo – 31/10/04)
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