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Para fascinar, contação de histórias exige
grande preparação
Julia Dietrich
Olhos bem abertos e atentos. Sorrisos, sustos, lágrimas
e, de repente, uma baita gargalhada. Mais suspense, alguma indignação
e a espera ansiosa pelo “viveram felizes para sempre”.
Presente na vida humana desde que o mundo é mundo, o ato
de contar histórias há cerca de 15 anos ganhou espaço
comercial no Brasil e cada vez mais livrarias, escolas e até
empresas abrem as portas para esse mundo da imaginação.
Porém,
conduzir o público pelas histórias nem sempre é
tarefa fácil e não significa ler um livro em voz alta.
“Preparação é fundamental. É preciso
ensaiar e pensar como a história quer ser contada”,
explica a contadora de histórias profissional há mais
de 15 anos Marília Tresca (www.wooz.org.br/contadora/historia.htm).
Dentre outros recursos, a contadora faz uso de origamis, objetos
e fantasias. “Na preparação penso quem será
o narrador. Decido que uma história deve ser contada no ponto
de vista de determinado personagem, que não é necessariamente
o protagonista ou o narrador do livro original”, diz.
Talvez o mais
famoso contador de histórias brasileiro, Ilan Brennan (www.ilan.com.br)
insiste que para se tornar um contador é necessário,
antes de mais nada, ser apaixonado por livros e organizar previamente
o material. Na estrada há 15 anos, ele explica que, antes
de se apresentar, monta um roteiro a partir das 700 histórias
que estão compiladas em sua memória. “Embora
faça esse tipo de atividade há bastante tempo, ainda
sinto um comichão na barriga. Acho que não teria mais
graça continuar sem esse nervosismo”, explica.
Além da preparação, Tresca
e Brennan insistem no estudo. Ambos oferecem cursos de formação
para contadores de história e explicam que existem outros
profissionais que prestam esse tipo de serviço com qualidade.
Mesmo aqueles que querem trabalhar voluntariamente com a atividade
precisam investir no treinamento. Prova disso é Associação
Viva e Deixe Viver que, desde 1997, entre outras ações,
trabalha com contação de histórias para crianças
internadas em hospitais e para seus funcionários e voluntários
exige formação.
“É um processo super longo. Durante
um ano a pessoa tem que comparecer em palestras mensais sobre diversos
temas que vão de formas de combater as doenças, lidar
com a morte e até como utilizar determinados acessórios
para áreas hospitalares específicas”, explica
Tresca. “Depois assistimos a um contador experiente em uma
visita ao hospital e preenchemos um relatório para ser analisado.
Posteriormente vem a formatura e começamos a exercer a função
sozinhos”, completa, lembrando que, mesmo sendo contadora
experiente e com atuação profissional, também
teve que passar por todo processo educativo.
Além das óbvias boas lembranças,
Tresca conta que aprendeu muito nos dois anos de voluntária
na associação. “Uma vez fui contar uma história
para uma bebê de apenas três meses que estava inquieta
e sua mãe exausta da estadia no hospital. Quando cheguei
no quarto, a mãe se perguntou porquê eu contaria uma
história para um nenê, mas depois de eu contar os três
porquinhos, não só a criança se acalmou como
ela também”, lembra.
Não são só as crianças
e mesmo bebês que ficam fascinados pelo mundo das narrativas.
Brennan realiza mensalmente uma noite de degustação
de histórias na Livraria da Vila, na cidade de São
Paulo (SP). Durante a atividade, ele conta histórias eróticas
de diferentes regiões do globo, acompanhadas de uma refeição
especial e em alguns casos, até de dançarinas do ventre,
sonoplastas e músicos.
Para os dois profissionais, contar histórias
para adultos é igualmente surpreendente e as reações,
embora no começo sejam mais tímidas, acabam similares
às da juventude. “Os olhos brilham e eles vão
se envolvendo na história, se divertem, se emocionam”,
explica Tresca. “Quando toca um celular em cena, incluo o
aparelho na trama ou aproveito o caso Renan Calheiros dentro da
narrativa”, complementa Brennan, sobre as diferenças
de se trabalhar com os mais velhos.
O segmento adulto abre um novo espaço no
mercado. Embora o campo tradicional (em livrarias e escolas) esteja
bastante saturado, a figura do contador de histórias cativa
cada vez mais empresas que visam motivar ou entreter seus funcionários.
Tresca lembra que já contou histórias vestida de fada
para adultos de uma agência bancária. “Dá
super certo, pois as histórias se relacionam com nosso inconsciente
e com sentimentos e sensações que muitas vezes deixamos
dormentes”, conclui.
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