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Trabalhadores têm jornada acima do limite previsto na legislação
Existem no país
hoje 59,1 milhões de trabalhadores exercendo dupla atividade,
dos quais 72,2% têm jornadas acima do limite previsto na legislação.
Nos últimos anos, 1,2 milhão de aposentados e pensionistas
ingressaram no mercado e, além deles, mulheres, jovens, crianças
e chefes de família cumprem expediente superior ao oficial,
de 44 horas semanais.
Leia mais:
- Jornada longa, renda curta
- Um em cada três aposentados se vê obrigado
a voltar a trabalhar
Jornada longa, renda curta
A queda acumulada
na renda e o medo de ficar desempregado estão fazendo com
que dois terços dos trabalhadores brasileiros tenham mais
de uma ocupação e cumpram expediente superior ao oficial,
de 44 horas semanais. Existem no país hoje 59,1 milhões
de trabalhadores exercendo dupla atividade, dos quais 72,2% têm
jornadas acima do limite previsto na legislação. São
aposentados, mulheres, jovens e crianças, além dos
chefes de família.
Entre 1996 e
2004, o segmento com jornada extraordinária e duplo trabalho,
tanto no setor formal quanto no informal, cresceu 37,5%, o que representou
16,1 milhões de trabalhadores a mais nos oito anos. A parcela
é significativa e representa quase 18% da População
Economicamente Ativa (PEA), formada por 91 milhões de pessoas
que estão empregadas ou à procura de uma vaga. Nesse
período, a renda domiciliar acumulou uma perda de 14,6% e
a taxa de desemprego subiu de 7% para 9%, fazendo com que 8,218
milhões de pessoas procurassem um trabalho.
Os dados constam
de um estudo do professor da Unicamp Marcio Pochmann, feito com
base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad)
de 2004, do IBGE. O trabalho aponta para um movimento que ganha
força no mercado de trabalho brasileiro, chamado de multiatividade.
O conceito define o exercício de pelo menos duas tarefas
— uma das quais remunerada — por uma mesma pessoa ou
o aumento excessivo da carga horária do trabalhador.
De acordo com
a pesquisa, as vagas abertas no mercado não são suficientes
para absorver o contingente de desempregados, além de não
terem qualidade (remuneração) para fazer com que um
pai de família, por exemplo, sustente o domicílio
com apenas um emprego. Ou, em outro caso, que o valor dos benefícios
pagos aos aposentados assegure sua retirada permanente do mercado.
“Esses fatores geram uma enorme instabilidade no mercado de
trabalho,” disse o professor.
Segundo ele,
isso leva a uma maior desigualdade na repartição do
trabalho. Enquanto alguns segmentos têm sobrecarga, outro
universo de desempregados e contratados trabalha menos de 40 horas.
Pochmann explica que 20% dos trabalhadores brasileiros têm
carga inferior a 40 horas e gostariam de trabalhar mais. Um dos
motivos, diz, é a queda na participação dos
rendimentos do trabalho na renda nacional e o aumento da PEA, o
que empurrou mais gente para o mercado, aumentando a concorrência.
Entre 1970 e
2004, houve uma queda de 30,7% na contribuição da
renda do trabalho na economia, passando de 52% para 36%. Ganharam
relevância outros ganhos, como aluguéis e juros, por
exemplo. Já a força de trabalho aumentou em 61,9%,
puxada pelo ingresso de mulheres no mercado. No período,
houve um crescimento de mais de 146% na taxa de participação
feminina, contra algo em torno de 11% de alta na masculina.
Enfermeira no
Hospital Universitário de Brasília, com pós-graduação
em obstetrícia, Iracy Maria da Silva tem uma jornada que
supera 60 horas por semana. Além do emprego no hospital,
trabalha com medicina estética em três clínicas,
onde consegue uma renda extra entre R$6 mil e R$7 mil por mês.
Ela conta que, com o salário de R$1.300, do principal trabalho,
pagaria somente o condomínio e as despesas com combustível
durante a semana. “O dia e a noite estão curtos para
mim,” disse ela.
Casada e mãe
de dois filhos, Nadir Angélica Arruda cumpre expediente de
seis horas à tarde no Ministério da Fazenda, mas trabalha
na lanchonete do marido pela manhã. Com a ajuda, a família
consegue economizar um salário-mínimo por mês
e os encargos que seriam pagos para um atendente.
Além
de mulheres, aposentados e pensionistas, há um contingente
de crianças e adolescentes até os 16 anos que desenvolve
alguma tarefa, mesmo contra a lei. “As longas jornadas de
trabalho estão ligadas à queda do rendimento, que
leva as pessoas a trabalharem horas adicionais para compensar em
parte a perda do rendimento,” reforçou o professor
João Sabóia, da UFRJ.
É o que
faz Antônio Costa Rego, funcionário terceirizado que
presta serviços no Tribunal Superior Eleitoral. Com salário
bruto de R$1.200, ele faz bico como técnico de áudio
e vídeo em eventos e consegue um extra de R$2.500, quando
o movimento está bom no mês: “Só com o
salário do tribunal não consigo sustentar a minha
família.”
Para Marcelo
de Ávila, consultor do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea), a multiatividade tende a crescer como conseqüência
da expansão menor do mercado de trabalho e maior crescimento
da PEA — o que contribui para que se perpetue o pagamento
de baixos salários. Alardeados pelo governo, os empregos
formais registrados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados
(Caged), que superam um milhão por ano, raramente ultrapassam
os quatro salários-mínimos.
Já para
o professor da PUC-Rio José Márcio Camargo, os trabalhadores
brasileiros têm baixos salários porque são poucos
qualificados. Para resolver o problema, ele defende que o governo
invista em educação: “O governo só investe
no ensino superior, o gargalo está no médio.”
(O Globo
– 28/05/06)
Um em cada três aposentados se vê obrigado a voltar a trabalhar
Ao contrário
de países onde os aposentados se retiram do mercado de trabalho,
no Brasil eles continuam mais ativos do que nunca, acirrando a disputa
por vagas. Entre 1996 e 2004, 1,2 milhão de aposentados e
pensionistas ingressou no mercado — uma alta de 23,5%, como
mostra estudo do professor da Unicamp Márcio Pochmann sobre
o duplo emprego e a jornada extra. Hoje, um em cada três aposentados
está empregado ou à procura de trabalho: um universo
de 6,4 milhões de pessoas pressionando o mercado.
“A queda
nos rendimentos provenientes de aposentadorias e pensões
e no poder de compra das famílias resulta numa maior pressão
para que os idosos voltem a campo para ajudar na renda domiciliar,”
explicou Pochmann.
Aos 66 anos,
o aposentado José Maria Neto trabalha como taxista em dois
pontos de Brasília. Consegue uma renda extra de 50% sobre
o benefício de R$1.500 que recebe do governo do Distrito
Federal. Ele disse que trabalha para ajudar em casa, onde divide
o teto com dois filhos casados e três netos, além da
mulher. “Trabalho para ajudar meus filhos, que não
têm emprego fixo,” disse.
Para o chefe
do Centro de Políticas Sociais da Fundação
Getulio Vargas (FGV), Marcelo Neri, a abertura da legislação
brasileira — que permitiu a permanência do aposentado
em atividade, inclusive no serviço público —
a expectativa de vida em alta e ações nos últimos
15 anos, consolidadas no Estatuto do Idoso, colaboram para a maior
participação do segmento.
Não à
toa, disse ele, está surgindo a profissão de office-old-boy,
tarefa tipicamente de jovens que está sendo desempenhada
por aposentados porque têm facilidades como gratuidade no
transporte e filas exclusivas nos bancos.
Neri disse que,
ao permanecer no mercado, o segmento teve ganhos acima da média
da população. De 1991 a 2003, a renda per capita das
pessoas com mais de 60 anos subiu 43% e a do conjunto da população,
24%.
“O número
de aposentados no mercado resulta em parte dos baixos valores dos
benefícios. E a aposentadoria por tempo de serviço
faz com que pessoas relativamente jovens se aposentem quando estão
em forma para o trabalho,”
disse o professor da UFRJ João Sabóia.
O trabalho de
Pochmann mostra ainda que o ingresso das mulheres no mercado funciona
como fator de pressão e ajuda a explicar a multiatividade
(dupla tarefa) e a jornada extra. E há uma relação
com inovações, diz Odair Furtado, professor de Psicologia
do Trabalho da UnB: “As pessoas podem ter mais de uma ocupação,
trabalhar em casa, usar o celular, o computador.”
(O Globo – 28/05/06)
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