| |
Empresas incentivam profissionais a exercer várias funções
ao mesmo tempo
Talvez uma coisa
as mudanças no mercado de trabalho trouxeram de bom: permitiram
ao profissional atuar em diversas frentes, transformar-se em um
especialista em vários assuntos, conhecendo a fundo as atividades
que giram em torno de sua função principal. Entenda-se
por profissional multifunção aquele que consegue desenvolver
várias atividades dentro da empresa, seja pelo corte de profissionais
ocorrido nos últimos anos em muitas empresas - o que obrigou
uma única pessoa a assumir a função de várias
-, ou pelo conhecimento amplo que todos os profissionais se vêem
obrigados a adquirir para continuar competindo no mercado.
"Conceituando
função como o conjunto de tarefas realizadas e que,
conseqüentemente, formam o cargo, podemos entender que o profissional
multifunção engloba muitas tarefas que extrapolam
as nomenclaturas tradicionais de muitos cargos. Por exemplo, na
área da comunicação, o videorepórter
entrevista e manuseia o equipamento de filmagem. Este profissional
quebra o paradigma operador de câmera e jornalista/repórter,
mas embora quebre este paradigma, continua sendo um jornalista/repórter,
mas multifunção", explica Renato Dias Baptista,
professor universitário e psicólogo organizacional.
O mesmo acontece
com os fotojornalistas, que vêm perdendo seu espaço
para os jornalistas que empunham, além do bloco de anotações
e caneta, uma câmera fotográfica nas mãos. Na
opinião de Baptista, em primeiro lugar as organizações
passam por transformações crescentes ligadas aos avanços
na área científica e tecnológica. E estes avanços
levam à modificação dos processos de trabalho
e dos modelos de gestão de pessoas. Aqueles que estão
no mercado de trabalho há mais tempo podem recordar o grau
de valor que era concedido aos que se especializavam em apenas uma
função. Hoje, esse é um paradigma superado:
"Quem está no mercado de trabalho sabe muito bem que
tal idéia já mudou completamente. O valor está
no ecletismo, ou seja, no profissional polivalente, multifunção
e multitarefa".
Na profissão
de jornalista, avalia o jornalista e escritor Eliziário Goulart
Rocha, pode-se considerar multifunção o profissional
que apura bem as reportagens, edita bem e trata de qualquer assunto
com a mesma eficiência. "Multifunção não
é fazer de tudo um pouco,
e mal, mas sim fazer bem tudo que diz respeito ao seu ofício."
Rocha alerta para o fato de que não devemos confundir versatilidade
com acúmulo de função. "Uma coisa é
o jornalista, nos últimos anos, ter agregado às suas
tarefas diárias o bom manejo do computador ou o razoável
domínio das artes gráficas. Estes são instrumentos
de trabalho que precisamos dominar para bem exercer a nossa função
hoje em dia. Outra coisa é o repórter apurar a matéria,
fotografar, dirigir o carro da empresa etc. Isso é acúmulo
de função", analisa.
Evidentemente
que um repórter de TV que tem de se preocupar também
com a imagem acaba se descuidando um pouco do conteúdo. Neste
caso, perdem os profissionais e o público; ganham apenas
os empresários, com a economia de salários, mas é
ganho no curto prazo. "Uma empresa jamais ganha quando abre
mão da qualidade", diz Rocha. Para Baptista, a multifuncionalidade
pode ocorrer na maioria das funções do mercado de
trabalho. O que determina isso é uma cultura que fomente
a atividade e uma tecnologia de suporte. "Se não houver
cultura apropriada e tecnologia, a multifuncionalidade pode ficar
muito perto da exploração no trabalho", comenta
Baptista.
Um exemplo de
multifuncionalidade também pode ser encontrado nas atividades
exercidas pelos profissionais de TI. Este novo profissional, na
opinião do diretor de RH da Embratel, Joaquim de Sousa Correia,
exige, simultaneamente, características generalistas e específicas,
já que também atua em outras funções
agregadas ao "produto telecomunicações"
(marketing, contratação, vendas e financeiro), e não
se limita somente à questão tecnológica.
"O profissional
procurado pelas empresas é uma pessoa com idéias mais
generalistas. Entretanto, isto dependerá dos requisitos necessários
que a posição apresenta e da atividade que o profissional
vai desempenhar. Quanto mais técnica for a função,
a tendência é termos profissionais mais especializados,
o que não significa dizer que competências como criatividade,
flexibilidade e outras não sejam consideradas", diz
Correia.
Imagine-se,
por exemplo, um profissional de RH que, no passado, só selecionava
pessoas. Hoje, com as mudanças organizacionais, processos
de terceirização e novas tecnologias, selecionar pessoas
é apenas uma tarefa de um profissional de RH. Na opinião
de Baptista, se as tarefas de um profissional forem muito distintas
em termos de exigências de comportamento, serão raros
os profissionais multifunções eficientes e eficazes
de fato. "Em funções muito distintas, que exigem
perfis psicológicos diferenciados, a pessoa pode executar
várias tarefas, mas será de fato eficaz em algumas",
diz ele.
Para que o profissional
exerça diversas funções é necessário
ter algumas cautelas como, por exemplo, contar com uma empresa que
fomente a integração entre as pessoas, invista em
processos de comunicação e em tecnologia na gestão
de pessoas. Deve também possuir gerentes com competência
para gerir este novo ambiente de trabalho. Não se pode, simplesmente,
acredita Baptista, aumentar as atividades dos funcionários
e chamar isso de multifunção.
Para o diretor
do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São
Paulo, Rudinaldo Gonçalves, a atividade do jornalista deve
ser desenvolvida necessariamente em uma das funções
na qual o profissional está qualificado. "A exploração
do jornalista em mais de uma atividade de maneira rotineira representa
um desrespeito a regulamentação profissional. Com
isso, o empregador sobrecarrega o profissional, sem a correspondente
remuneração, além de estar impedindo que outro
colega ocupe uma das vagas. O jornalista deve conscientizar-se de
que, enquanto profissional, deve lutar por melhores condições
de trabalho e pela qualidade do serviço que está prestando
à sociedade".
(Catho -
01/08/02)
|
|