Cerca de 250 mil estão desempregados em São Paulo

Mais de 250 mil pessoas não conseguem ingressar no mercado de trabalho, só na região metropolitana de São Paulo. É o que indica uma pesquisa da Fundação Sistema Estadual de Dados (Seade) e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio- Econômicos (Dieese).

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- A batalha pelo primeiro emprego
- Programa ainda está engatinhando

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A batalha pelo primeiro emprego

O estudante Viviano Rodrigues da Silva Conti, de 19 anos, é um exemplo da dificuldade enfrentada por todo jovem brasileiro para encontrar o seu primeiro emprego. Cursando o último ano do ensino fundamental, Viviano já está há mais de dois anos à procura de algum tipo de ocupação, mas sempre que é selecionado para uma entrevista acaba esbarrando no mesmo obstáculo: falta de experiência. Ele aponta ainda um segundo motivo para não ser contratado: o fato de ser morador de favela.

“Preciso trabalhar para ajudar minha mãe. Só faço bicos em feira livre, tomando conta de automóveis ou puxando carrinhos, e consigo ganhar de R$ 12 a R$ 20 por domingo”, diz o jovem. Viviano mora na favela Heliópolis, a maior de São Paulo, na zona sul, e esteve no Centro de Solidariedade do Trabalhador, da Força Sindical à procura de emprego. “Teve entrevistador que me aconselhou a dar outro endereço e não o da favela. Dá para perceber pelo rosto o preconceito.”

Assim como Viviano, só na região metropolitana de São Paulo mais de 250 mil pessoas não conseguem ingressar no mercado de trabalho, indica uma pesquisa da Fundação Sistema Estadual de Dados (Seade) e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio- Econômicos (Dieese). É muito mais do que a população de uma cidade do porte de Praia Grande, no litoral paulista, de 215 mil habitantes. Para complicar, essa turma chega num momento em que as empresas investem no aumento da produção, mas têm cada vez menos funcionários.

“A vida está difícil também para as empresas, que lutam para sobreviver num mercado competitivo”, diz o empresário Roberto Faldini, diretor do Departamento de Economia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). “Esta é uma realidade no mundo todo, mas ela poderá ser amenizada caso economia brasileira volte a crescer acima de 5% ao ano.”

O problema é que a onda de reestruturação de empresas nos últimos anos vem desempregando profissionais experientes, que se mostram dispostos a abrir mão dos salários e das funções que exerciam anteriormente para conseguir uma nova colocação. Só em janeiro, 103 mil pessoas perderam o emprego na região metropolitana de São Paulo e entraram nessa disputa.Com isso, as chances de quem está atrás do primeiro emprego ficam cada vez menores.

Dados do serviço de intermediação de mão-de-obra do Centro de Solidariedade do Trabalhador não deixam dúvidas. De uma média diária de 3 mil pessoas que procuram a agência do Centro, no bairro da Liberdade, cerca de 650 são jovens de 16 a 25 anos à procura do primeiro emprego. “As empresas não querem dar emprego para quem não tem experiência”, diz o coordenador nacional do Centro, Tadeu Morais de Sousa.

O reflexo disso está expresso na proporção de jovens entre os desocupados. Dos 1,944 milhão de desempregados existentes na região metropolitana de São Paulo no ano passado, nada menos do que 44,1%, ou cerca de 857 mil, tinham entre 15 e 24 anos. A estudante Thaís Neves, de 18 anos, por exemplo, procura emprego desde 2001. Ela já perdeu a conta do número de currículos que entregou e de entrevistas feitas nesse período.

Mas o discurso é sempre o mesmo, diz ela: “Primeiro perguntam o que eu sei fazer, depois falam que vão analisar outros candidatos em breve entram em contato. Até hoje, ninguém me ligou. Isso é desanimador”. Thaís, que está no segundo ano do curso universitário de sistema de informação, já estudou informática e inglês, até o nível intermediário. Nada disso, no entanto, ajudou na busca do primeiro emprego. “Tenho esperança que as oportunidades comecem a surgir a partir do terceiro ano da faculdade.”

A diretora da consultoria de Recursos Humanos Adecco, Sylmara Valentini, conta que as empresas fazem exigências crescentes de qualificação nos processos de seleção. Quase 99% das vagas intermediadas pela Adecco são para candidatos com experiência, inclusive estagiários.

“Diversas empresas estão substituindo funcionários experientes por estagiários, devido ao custo menor de remuneração. Por isso os pré-requisitos mudaram, e os candidatos têm de estar mais preparados para os desafios.” Diante desse quadro, a orientação é ampliar a qualificação, com cursos técnicos.

Esse foi o caminho escolhido pela estudante Dayane Cristine dos Santos, de 15 anos. Depois de bater perna e não conseguir emprego, ela resolveu fazer um curso de aperfeiçoamento em recursos humanos e informática oferecido pelo governo. “Cansei de receber não, por causa da idade e falta de experiência. Mas preciso trabalhar para reforçar a renda familiar”, diz a estudante, cuja mãe é costureira e o pai, jornaleiro. Dayane está no segundo ano do ensino médio e sonha cursar uma faculdade de turismo.

(O Estado de S. Paulo – 02/03/04)

   

Programa ainda está engatinhando

Anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em julho do ano passado, com a pretensão de criar 250 mil postos de trabalho até o fim deste ano, o programa Primeiro Emprego ainda está engatinhando. Com a demora na aprovação do projeto de lei, que só foi sancionado no fim de outubro, o programa começou a funcionar no fim de 2003. Além disso, da promessa de 250 mil empregosem12 meses, o Ministério do Trabalho acredita que só poderá cumprir 145 mil, devido à contenção de gastos do Orçamento da União, que cortou pela metade os recursos para subvenção econômica de empresas dispostas a empregar jovens.

“O programa ainda está começando”, disse o secretário de Políticas Públicas de Emprego, Remígio Todeschini. Ele argumentou que, além do corte no orçamento, que reduziu a disponibilidade de recursos a apenas R$ 188 milhões em 2004, é preciso ampliar o trabalho de sensibilização dos empresários, o que depende também da retomada do crescimento. “O programa não cria empregos automaticamente. Ele vai deslanchar, na medida em que a atividade econômica também deslanche.”

Segundo o secretário, o balanço até o momento indica que a subvenção às empresas que contratam jovens foi responsável por apenas 2.050 vagas. Para empregar jovens de 16 e 24 anos, incentivo do governo às micro e pequenas empresas é de R$ 200 por mês durante seis meses. O valor cai pela metade para as grandes e médias empresas. As empresas que não precisam do incentivo também podem aderir ao programa. Nesse caso, elas arcam sozinhas com a contratação e recebem um selo denominado “Empresa Parceira do Programa Primeiro Emprego”.

De acordo com Todeschini, no entanto, é preciso entender o Primeiro Emprego de um ponto de vista mais amplo, já que ele prevê desde a qualificação profissional ao trabalho comunitário, serviço civil voluntário até o incentivo às empresas para a contratação.O secretário definiu o programa como um pontapé inicial para que os jovens possam se preparar melhor para o mercado de trabalho e, dessa forma, conseguir um emprego mais duradouro, ou até mesmo se tornarem pequenos empreendedores.

O balanço do governo mostra que 40 mil jovens receberam treinamento em cursos com carga horária média de 120 horas. Outros 60 mil serão treinados este ano. No trabalho comunitário combinado com qualificação profissional serão aproveitados 12.200 jovens. Eles receberão, pelo prazo de quatro a seis meses, uma bolsa no valor de R$ 150 por mês. Os consórcios sociais da juventude, em sete Estados, estão atendendo 7.200 jovens. A expectativa é que 40% deles sejam colocados no mercado.

Além disso, o projeto desdobra-se no serviço civil voluntário, voltado para o atendimento de jovens socialmente mais vulneráveis e em conflito com a lei. O programa pretende atingir 25 mil jovens nessa situação.

(O Estado de S. Paulo – 02/03/04)

   
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