Magistrados têm carreira mais bem paga, diz IBGE

Segundo o Censo 2000 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) não existe profissão no país que oferece salário tão alto quanto a de juiz ou desembargador. Entre outras profissões, destacam-se a de médico e a de engenheiro metalúrgico. Apesar das diferenças salariais nessas profissões entre negros, pardos e brancos, os dados do IBGE mostram que o rendimento do trabalhador é alto para os padrões brasileiros.

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     - Magistrados têm carreira mais bem paga, diz IBGE
     - Negros perdem em 92% das categorias
     - Branco é maioria nas profissões mais valorizadas

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Magistrados têm carreira mais bem paga, diz IBGE

Não existe profissão no país que ofereça rendimento mínimo tão alto quanto a de juiz ou desembargador. Segundo o Censo 2000 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), é nessa profissão que se encontra a maior proporção de trabalhadores que ganham mais de 20 salários mínimos.

Praticamente 9 em cada 10 juízes ou desembargadores (89,5% do total) ganhavam, em 2000, mais de R$ 3.020 por mês, o que equivalia a 20 vezes o valor do salário mínimo na época (R$ 151).

Logo após a profissão de juiz vinha outra ligada ao meio jurídico: a de promotores e defensores públicos, na qual 71,1% ganhavam mais de 20 salários mínimos. Entre as dez profissões mais bem pagas por esse critério, estão outras do setor público, como delegados de polícia e dirigentes da administração pública.

Entre as profissões que não fazem parte da administração pública, destacam-se a de médico (39,5% com renda superior a 20 salários mínimos) e a de engenheiro metalúrgico (42,1%).

Apesar das diferenças salariais nessas profissões entre negros, pardos e brancos, os dados do IBGE mostram que o rendimento do trabalhador é alto para os padrões brasileiros.

Em medicina, por exemplo, 40,6% dos trabalhadores que declararam cor branca apresentavam rendimento superior a 20 salários mínimos. Entre negros e pardos, essa porcentagem era menor (34,4%), mas indicava que, uma vez que se chega a uma profissão mais qualificada, há significativos ganhos na renda.

No outro extremo, as profissões que apresentaram maior proporção de trabalhadores com renda muito baixa são, como era de esperar, as de menor qualificação.

Entre trabalhadores artesanais da tecelagem, por exemplo, 73% não ganhavam sequer um salário mínimo. Essa proporção também era alta para condutores de veículos de tração animal e de pedais (65,2%), trabalhadores artesanais em confecção de roupas (60,9%) e trabalhadores dos serviços domésticos em geral (60,4%).

Para o juiz Paulo Feijó, diretor da Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro, é preciso levar em conta, quando se analisa a proporção de juízes e desembargadores que ganham mais de 20 mínimos, que se trata de uma carreira muito homogênea.

"A categoria de juízes tem uma característica de pouca distorção nos salários. A diferença entre o maior e o menor salário não passa de 25%. Entre médicos, jogadores de futebol, advogados ou em outras profissões, há quem receba salários muito maiores do que o de juízes, mas, quando se calcula a média, ela é menor porque mistura tanto o craque de um time de futebol que tem salário milionário quanto um jogador que ganha só um salário mínimo", afirma o diretor da associação.

Outro ponto que, na avaliação de Feijó, pode causar distorções é que os juízes não têm como esconder seu rendimento: "Na hora de declarar a renda no Censo, um empresário ou profissional liberal pode ter declarado uma receita menor do que a que ele efetivamente tem. No caso de um juiz, isso é mais difícil porque há apenas uma fonte de pagamento e não há como omitir a receita".

(Folha de S. Paulo – 02/05/05)

   

Negros perdem em 92% das categorias

Com raras exceções, negros e pardos convivem com a mesma realidade em quase todas as profissões no Brasil: ganham menos que seus colegas brancos.
A pedido da Folha, o IBGE comparou o rendimento de trabalhadores brancos com o de negros e pardos em todas as 509 profissões do Censo de 2000. O resultado mostra que em apenas 42 profissões, ou 8% do total, o percentual de negros e pardos que ganham mais de dez salários mínimos é igual ou maior do que o de brancos na mesma profissão.

Outra maneira de comprovar essa diferença é comparar a proporção de trabalhadores ganhando menos de três salários mínimos. Por essa análise, os resultados revelam uma desigualdade ainda mais gritante: em 493 profissões (ou 97% do total), a proporção de negros e pardos entre os mais pobres supera a de brancos na mesma carreira.

A desigualdade persiste mesmo em profissões em que todos os trabalhadores têm o mesmo nível de escolaridade, como é o caso de carreiras em que, por exigência legal, é necessário ter completado o nível superior, como médicos, dentistas ou engenheiros.

Nesses casos, não se pode dizer que isso aconteça por causa de diferença na qualidade da educação universitária, já que, segundo dados do questionário socioeconômico do Provão (exame que foi extinto no ano passado pelo MEC), a proporção de negros e pardos é maior em universidades públicas, que têm melhores notas, do que em privadas.

"Essa desigualdade se mantém tanto nas profissões de maior qualificação quanto nas de menor exigência de escolaridade, como garçons, recepcionistas ou trabalhadores domésticos", diz Nilza Martins Pereira, pesquisadora do IBGE que fez a tabulação.

A dificuldade na análise de diferenças salariais por cor ou raça é determinar até que ponto isso é fruto de racismo ou de condições desiguais no acesso à educação ou ao mercado. A Folha pediu que dois ex-presidentes do IBGE, Simon Schwartzman e Sérgio Besserman, analisassem os dados para tentar responder à questão.

"A explicação corrente para essas diferenças é que existe discriminação contra os negros. Pode ser. Mas também pode acontecer que os negros ou pardos não tenham os recursos sociais necessários para conseguir as posições de melhor remuneração, em termos de redes de contatos", diz Schwartzman, que atualmente preside o Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade.

Besserman, hoje diretor de Informações Geográficas do Instituto Pereira Passos, dá um exemplo de como pode funcionar essa rede de contatos: "Acho que os dados estão mostrando, sim, uma discriminação de cor. Mas é preciso considerar também que um dentista branco, por exemplo, tem chances muito maiores no mercado de trabalho porque o pai dele pode ter sido dentista. Nesse caso, ele herda renda, clientela e equipamento do pai".

Entre as poucas carreiras em que não há diferença em favor de brancos estão profissões em que negros e pardos sempre tiveram acesso e cuja contratação e promoção depende de critérios iguais para todos. É o caso da profissão de bombeiro militar. Entre cargos de comando, a proporção de profissionais com rendimento superior a dez salários mínimos chega a ser favorável aos negros e pardos em comparação aos colegas.

Essa constatação pode ser confirmada no gabinete do tenente-coronel Délio Neri e Silva, 45, que é negro e comanda o 20º Grupamento de Bombeiro Militar de São Gonçalo (região metropolitana do Rio). As fotos de seus antecessores mostram que, desde a década de 80, outros negros e pardos estiveram no cargo. "As regras de promoção aqui são claras e qualquer um pode chegar ao posto de comando por méritos próprios", afirma.

(Folha de S. Paulo – 02/05/05)

   

Branco é maioria nas profissões mais valorizadas

Além de ganharem menos atuando na mesma profissão, negros e pardos também têm menos acesso às profissões mais valorizadas e com os melhores salários. Segundo o Censo do IBGE, esse grupo populacional representa 44,7% da população. No entanto, em algumas profissões, a porcentagem chega a ser inferior a 10% do total.

Esse é o caso das carreiras de engenheiros de minas (6%), engenheiros mecânicos (8,7%), dentistas (8,9%), engenheiros metalúrgicos (8,9%), engenheiros químicos (9,2%), psicólogos e psicanalistas (9,5%) e arquitetos (9,7%).

No outro extremo, em que negros e pardos são maioria, estão profissões de baixíssima qualificação e de pior rendimento. O setor em que há maior proporção desse grupo populacional é o de pescadores e caçadores, no qual eles representam 72,3% do total. Essa população também é maioria absoluta entre garimpeiros e operadores de salinas (70,6%), moleiros (68,2%), carpinteiros navais e de aeronaves (64,3%) e extrativistas florestais (64,1%).

Para o ex-presidente do IBGE Simon Schwartzman, esses dados não trazem surpresa: "Como os negros e pardos têm menos educação, eles ficam nas profissões menos qualificadas e, em grande medida, fora das profissões universitárias".

(Folha de S. Paulo – 02/05/05)

   
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