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Brasileiros
arriscam-se por salário melhor
Mesmo com o
risco de serem presos e deportados alem de trabalhar em empregos
que passam longe de sua formação profissional, imigrantes
insistem em ir para o exterior em busca de melhores salários.
Leia
mais:
- Brasileiros arriscam-se por
salário melhor
- Retorno ao país é
marcado por crise pessoal
- Carreira de quem troca diploma
de graduação e trabalho especializado por serviços
braçais no exterior fica bloqueada
- "Foram dias difíceis
lá fora", relata brasileira
Brasileiros arriscam-se por salário melhor
Arrumou as malas,
despediu-se da família e deixou o país com um sonho:
ganhar dinheiro para mudar a realidade na volta ao Brasil. Após
quatro anos em Londres, o mineiro Jean Charles de Menezes, 27, foi
assassinado no metrô pela polícia britânica no
último dia 22. Morreu com ele a esperança de dar um
futuro melhor aos pais.
Assim como Menezes,
milhares de pessoas seguem anualmente para o exterior atrás
de dinheiro, glamour ou novas experiências. Segundo o Ministério
das Relações Exteriores, mais de 2 milhões
de brasileiros vivem nos principais destinos de trabalhadores, Estados
Unidos, Paraguai, Japão, Reino Unido e Portugal.
O que encontram,
muitas vezes, é algo bem distante do almejado. Depois de
um ano e nove meses em Londres, do qual um mês na ilegalidade,
a publicitária P.L., 27, embarcou para uma temporada na Índia.
Confiante de que não encontraria problemas no retorno à
Inglaterra, deparou-se com uma experiência desagradável.
"Foi muito
humilhante. Nunca imaginei passar por uma situação
dessas", diz, ao lembrar-se das duas horas em que ficou trancada
no aeroporto enquanto oficiais decidiam seu destino. Com o passaporte
detido, ela pôde permanecer por quatro dias em terras inglesas,
tempo suficiente para cancelar sua conta bancária e dizer
adeus a seu emprego.
De acordo com
a advogada especialista em imigração Vitória
Nabas, 90% dos brasileiros que moram no Reino Unido e têm
visto de estudante, que permite trabalhar até 20 horas por
semana, excedem essa carga horária.
Ela afirma que
a prática de permanecer na ilegalidade é punida severamente
pela lei daquele país. "Antes, o mais comum era simplesmente
deportar o estrangeiro. Hoje, a ilegalidade pode resultar em nove
meses de cadeia. Se a pessoa tem um passaporte falso, a pena chega
a 14 anos de prisão."
Cada um encontra
a maneira mais plausível para tentar driblar a ausência
do visto, mas nem todos têm sucesso. Só neste ano,
a advogada recebeu cerca de 700 brasileiros em seu escritório
na capital britânica. Pelo menos dois de seus clientes estão
presos. "É preciso legalizar-se, mas da forma correta",
aconselha.
As leis rígidas
não assustaram o publicitário R.F., 26, que comprou
um documento falso para trabalhar em San Diego, nos Estados Unidos.
Foram oito meses no país, dos quais só um de estudos.
Quando suas
reservas estavam no fim, conquistou um emprego de limpador de frutos
do mar e lavador de pratos. Foi o meio encontrado para não
ver naufragar o sonho de viajar pela América.
"Mesmo
nas atividades mais básicas, as pessoas conseguem ter lá
fora melhores condições de vida do que no Brasil.
Foi marcante entrar em contato com brasileiros que iam para os Estados
Unidos só para ganhar dinheiro", lembra.
Para comprar
o "social security" (equivalente ao CPF daqui), o publicitário
foi até Tijuana, no México, enviou uma mensagem via
bipe e recebeu o documento mediante o pagamento de US$ 50. "A
falsificação era tão malfeita que qualquer
um perceberia. Mas, para estabelecer-se em um trabalho, é
preciso assinar papéis que atribuem ao empregado qualquer
responsabilidade quanto à documentação. Por
isso eles contratam deliberadamente", afirma.
Mesmo correndo
o risco de ser pego na fronteira, o publicitário diz que
a ilegalidade dos imigrantes nos Estados Unidos é mais comum
do que se imagina. "O fato de fazer algo errado nos deixa temerosos,
mas o mercado está completamente prostituído."
Depois de ter
o visto vencido em Londres, o bailarino Pedro Rinaldi, 28, resolveu
continuar por lá mesmo com a situação irregular.
"Falava que era italiano, e (os policiais) me liberavam",
conta.
Também
sem visto e trabalhando na construção civil, o fotógrafo
Gustavo Gaspari, 28, garantia um bom salário, suficiente
para as despesas básicas e um pé-de-meia para a volta
ao Brasil. "Ainda que ilegalmente, é possível
ganhar mais de 2.000 por mês. Mas é preciso enfrentar
uma difícil jornada diária de mais de 12 horas em
atividades que não pensaria em fazer se estivesse no Brasil."
(Folha de
S. Paulo – 31/07/05)
Retorno ao país é marcado por crise pessoal
Conhecer novos
hábitos, padrões sociais e atitudes faz parte do roteiro
da maioria dos que deixam o país em busca de uma oportunidade
no exterior. O que muitos não esperam é enfrentar
mais obstáculos para a adaptação na volta do
que na ida.
"Ingresso
e retorno são movimentos migratórios e apresentam
dificuldades comuns", explica Sylvia Dantas DeBiaggi, do Instituto
de Psiquiatria da USP. Para ela, o contato com outra cultura faz
com que o estrangeiro "sinta estranhamento ao que fazia parte
de seu sistema de valores".
As conseqüências
desse outro choque cultural vão de confusão mental
a depressão, muitas vezes seguidas de um ímpeto incontrolável
de retornar ao outro país.
A nutricionista
Aline Cortina Martins, 24, não esconde a vontade de regressar
à Inglaterra, onde viveu por dois anos. Abandonou a vida
de classe média no Brasil para trabalhar dia e noite em um
supermercado. Ao fim da jornada, restavam-lhe quatro horas para
dormir. Porém parece não se lembrar das agruras da
experiência. "Estou perdida desde que cheguei ao Brasil."
(Folha de
S. Paulo – 31/07/05)
Carreira de quem troca diploma de graduação e trabalho
especializado por serviços braçais no exterior fica
bloqueada
Um litro de
cerveja. Essa era a dose necessária para W.N., 23, despir-se
da vergonha e garantir o salário de 4.000 libras (equivalente
a quase R$ 20 mil) por mês. Dançarina de striptease
em Londres há um ano e meio, no início, tinha dúvidas
se conseguiria encarar o palco.
"Eu ficava
constrangida, mas ganhava em dois minutos o mesmo que tirava em
um dia de trabalho num restaurante." Durante um ano, a dançarina
atuou como garçonete em um restaurante e camareira, em uma
jornada de 12 horas diárias. Atualmente, dança 15
horas por semana e gasta suas economias em passeios ao redor do
mundo.
Vinda de uma
família simples do interior de Minas Gerais, ela afirma não
gostar do que faz. Mas não vai deixar o emprego. "Pago
minha faculdade e comprei um imóvel para os meus pais",
diz.
O maranhense
José de Jesus Cutrim Campos, 37, também comemora a
aquisição de alguns bens, entre dois carros, um imóvel
no Brasil e aplicações financeiras. Há cinco
anos, teve um projeto aprovado pelo governo francês e tem
direito a permanecer com visto de trabalho por tempo indeterminado.
Professor de capoeira, ele assegura que só está na
Europa pela importância dada a seu trabalho em terras estrangeiras.
"Se a valorização da atividade fosse a mesma
no Brasil, já teria voltado."
Para garantir
a renda, os emigrantes não se importam em apagar da memória
o diploma de graduação. Estão dispostos a aventurar-se
em atividades que nem de longe exigem competências adquiridas
na universidade.
A situação
financeira ruim e a falta de oportunidades de emprego fizeram com
que Leandro Kuraoka, 26, abandonasse o curso de ciências da
computação para abraçar uma vaga no Japão.
Foi contratado
por uma fábrica de peças automotivas. Sobre a nova
função, diz: "É serviço braçal".
Kuraoka mantém a esperança de que, ao retornar ao
Brasil após sete anos fora, encontrará sucesso na
conquista de uma vaga no mercado de trabalho brasileiro.
No entanto,
ainda que a fluência em uma língua estrangeira e o
contato com outras culturas sejam valiosos, a qualidade dessas experiências
é questionada pelo consultor Mauro Hollo, da Konsult. "Para
o selecionador, a viagem só terá valor se gerar conhecimentos
relacionados à área de atuação do profissional."
As dificuldades
de conseguir recolocar-se profissionalmente trazem à tona
o arrependimento de ter trocado o Brasil pela Espanha. Em 2002,
Mari Aznar Farias, 44, deixou o cargo de analista de processos de
habitação em um banco, no qual estava havia 20 anos,
e embarcou com os dois filhos para o continente europeu.
"Trabalhava
14 horas por dia e não tinha folga nos fins de semana."
Enfrentou preconceito, não conseguiu fazer amizade com os
espanhóis e perdeu todas as economias. "Voltei sem nada",
desabafa. Retornou aos bancos escolares no ano passado para um curso
de gestão bancária. Ela explica a opção
pela graduação: "Estou desempregada desde que
cheguei".
A presidente
do Grupo Foco, Eline Kullock, diz que o currículo de quem
"saiu de sua zona de conforto" deve ser valorizado. "Hoje
procuram-se pessoas empreendedoras", opina. Para ela, o erro
de quem não consegue emprego está na distância
do mercado de trabalho. "Não se pode perder o networking",
finaliza.
(Folha de
S. Paulo – 31/07/05)
"Foram dias difíceis lá fora", relata brasileira
Valia tudo para
esperar a colheita das cerejas. Nessa época, diziam, ganhavam-se
mais de cem dólares neozelandeses. Nada mal se comparados
aos parcos 40 dólares das vinícolas locais. A perspectiva
de bom salário alterou o dia-a-dia da relações
públicas Vanessa Machado, 22, na Nova Zelândia.
Logo no início,
descobriu que teria de trabalhar nas baixíssimas temperaturas
das planícies do sul do país. "Em alguns dias,
não sentia os dedos da mão", conta. O pior viria
a seguir: "As costas doíam tanto que passei a trabalhar
arrastando-me".
Duas semanas
após o Ano Novo, passou a colher cerejas. "Não
tinha o menor talento. Tinha de agüentar o chefe gritando e
ganhava menos, pois o pagamento era feito por produção."
Bastou um mês
para que partisse, sem dinheiro, em busca de um emprego de garçonete.
"Tive de comer restos de sanduíche porque não
tinha nem um centavo."
(Folha de
S. Paulo – 31/07/05)
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