Título estrangeiro "congela" exercício da profissão no país

Estudar no exterior atrai os brasileiros não só pela oportunidade da experiência internacional como também pela idéia de que um diploma estrangeiro tem poder de impulsionar a carreira na volta ao país.

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Título estrangeiro "congela" exercício da profissão no país

Estudar no exterior atrai os brasileiros não só pela oportunidade da experiência internacional como também pela idéia de que um diploma estrangeiro tem poder de impulsionar a carreira na volta ao país. Exercer a profissão em terras brasileiras, porém, pode levar mais tempo que o imaginado. Passada a fronteira, um entrave deve ser encarado pelo profissional: a necessidade de ter seu diploma validado no país.

Elaine Chun, 23, enfrenta essa via-crúcis (conheça o trajeto ao lado). Formada em nutrição pela Universidade de Notting-ham, na Inglaterra, ela não sabe quanto tempo levará para colocar o saber em prática."Fui estudar fora achando que teria uma vantagem [no mercado de trabalho], mas hoje não tenho nada", conta ela, que, ao procurar a USP, diz ter ouvido que "seria muito difícil porque o processo era complicado para a área de saúde".

Agora, Chun aguarda a resposta de outra universidade pública para a qual se candidatou há dois meses, depois de gastar cerca de R$ 2.000 com o processo. "Foi complicadíssimo", conta. Se precisar cursar disciplinas adicionais, terá de se deslocar para o interior do Estado. "Estou desiludida", diz.

Apesar de haver uma resolução que aponta seis meses como período máximo para avaliar a documentação, as universidades, em geral, levam um prazo maior -o que pode fazer com que um médico, por exemplo, leve anos até começar a exercer de fato a profissão.

A Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) não oferece validação de diploma estrangeiro há quatro anos. Segundo a instituição, a não-abertura se deve ao fato de o governo exigir que elas acolham como alunos seus os candidatos que tiverem o pedido negado.

Já a USP endureceu, a partir de 2003, o acesso ao processo para filtrar os candidatos, que "vinham do país todo", informa Osvaldo Bueno de Moraes, diretor da divisão de registros acadêmicos da universidade.Em 2005, a USP recebeu 220 pedidos para o exame de diplomas, sendo 174 de pós. Só de pedidos de médicos, a Universidade Federal de Mato Grosso avaliou, em 2005, mais de 350.

Segundo Renato Janine Ribeiro, diretor da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), "a preocupação do sistema é proteger o país de maus profissionais e evitar o prejuízo causado por teses de má qualidade". "E elas abundam", aponta.

Um projeto de lei em tramitação na Câmara pretende facilitar o processo. "Sugiro que o MEC especifique qual universidade fará o reconhecimento de determinado curso naquele ano", explica o autor do projeto, Paulo Bauer (PSDB-SC).
Daniel Melo Martins, 26, ainda não pôde validar seu diploma, mas já trabalha na área. Formado em finanças há dois anos pela Ohio State University, nos EUA, Martins penou para desvendar a burocracia brasileira e perdeu, por duas vezes, o prazo para candidatura por falta de documentação."Acho que [ter um diploma estrangeiro] pesou a favor ao ser contratado pela empresa atual", conta ele, que é trainee da GE. "Mas se eu dependesse do diploma?", questiona, acrescentando que teve de adiar o desejo de voltar a estudar.Para saber mais sobre validação de diplomas, acesse o site do MEC www.mec.gov.br

(Folha de S.Paulo – 29/05/06)

 

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Concurso que pede título no ato da inscrição é ilegal

Com doutorado nos Estados Unidos financiado pelo governo brasileiro, o pesquisador Carlos Oliveira já perdeu diversas vezes a chance de concorrer a concursos públicos do país.

O problema não foram os prazos, mas as exigências: os editais pediam que, para a inscrição, o diploma obtido no exterior fosse validado no Brasil. "Agora, depois de muitos concursos perdidos, ainda estou a esperar a revalidação de meu diploma", diz ele, que há 14 meses fez o pedido de validação, mas ainda não obteve resposta.

A docência é, se não o maior, um dos principais destinos ocupacionais de pesquisadores que retornam de seus doutorados no exterior. Entretanto, os concursos públicos têm incorrido no erro de exigir a validação do diploma, seja obtido no exterior ou não, no ato da inscrição -o que é ilegal, pois, segundo a súmula 266 do Superior Tribunal de Justiça, o diploma só pode ser solicitado no ato da posse, jamais antes.

"O Brasil vai precisar cada vez mais de mestres e doutores, mas o país já pagou demais ao "bacharelismo", ou seja, à situação em que se tem um título que não corresponde ao conhecimento", adianta Renato Janine Ribeiro, diretor de avaliação da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), entidade ligada ao Ministério da Educação.

Na primeira tentativa de revalidar o título, Oliveira descobriu que faltavam documentos. Na segunda, a universidade alegou que não tinha o curso. Em outra, ouviu mais uma recusa."Para minha surpresa, fui informado de que, devido à natureza do meu trabalho, aquela não era uma linha de pesquisa da instituição e fui desestimulado a submeter meu processo", reclama. "O que propus não seria nada estranho, pois, muitas vezes, estamos pesquisando assuntos que são novos para instituições brasileiras."

Para Rodrigo de Souza, presidente da Apeb-Fr (Associação dos Pesquisadores e Estudantes Brasileiros na França), a existência de editais exigindo o diploma revalidado no ato da inscrição no concurso é um dos problemas enfrentados pelos pesquisadores brasileiros hoje."Se um candidato é impedido de fazer a prova de um concurso por não ter seu diploma revalidado ainda, trata-se de uma situação injusta", afirma ele. E acrescenta: "O pesquisador carece de uma referência geral, devendo procurar de concurso em concurso as melhores possibilidades que possam contemplar seu diploma".

Já Thaís Marini Aun, 24, pensa em começar outra carreira para obter o diploma de curso superior reconhecido no Brasil. Ela morou por cinco anos no Canadá, onde cursou graduação e pós. Aqui, depois de passar no vestibular de uma instituição privada, descobriu que não consegue sequer pedir equivalência dos créditos para seguir estudando. "Mas consegui um bom emprego", diz Aun, que trabalha no Centro de Estudos Canadenses.

(Folha de S.Paulo – 29/05/06)