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1,6 milhão de pessoas perde 15 dias do ano só para ir ao trabalho
A supervisora administrativa Regiane Coelho, de
28 anos, já fez as contas e concluiu que, somente no caminho
para o trabalho, gasta mais dias de sua vida presa no trânsito
do que com as próprias férias. Ela anda de carro e,
nos últimos nove meses, não conta nem com rádio
para se distrair no trajeto de mais de uma hora e meia entre os
municípios de São Caetano do Sul, no ABC paulista,
e Cotia, na Grande São Paulo. "Ainda não sobrou
tempo para mandar instalar."
A doméstica Teresinha de Jesus Barros Costa,
42, poderia praticamente dobrar suas horas de sono se não
demorasse tanto para chegar ao serviço. Além de não
ter música à disposição, a situação
dela é pior: só viaja em pé - caminhando ou
apertada dentro do trem - nas mais de duas horas e meia para ir
do município de Suzano, onde mora, até a casa da patroa,
na Vila Mariana, na zona sul da capital paulista. "Eu já
chego para trabalhar cansada", conta.
A rotina de Regiane ou de Teresinha não reflete
casos tão isolados, entre ricos ou pobres. Elas fazem parte
de um grupo de 1,6 milhão de trabalhadores da região
metropolitana de São Paulo que perdem, no mínimo,
uma hora por dia no percurso de ida da residência ao serviço.
Essa quantidade é superior à soma das populações
inteiras de Campinas, no interior paulista, e de Santos, no litoral
sul.
Se trabalharem 24 dias em um mês, significa que eles perderão,
pelo menos, um dia por mês para chegar ao trabalho. Ou ainda,
os números mostram que o trânsito consome no mínimo
15 dias para cada 360 trabalhados por 1,6 milhão de moradores
da região metropolitana de São Paulo.
Isso sem contar com a volta para casa, que tende
a ser um sofrimento semelhante, e com outros tipos de deslocamento
inevitáveis na vida de qualquer cidadão - por exemplo,
ao supermercado, à padaria, ao médico ou à
faculdade. Os dados constam da Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios do IBGE de 2004 e foram tabulados pela Folha,
que comparou essa situação em dez das principais regiões
metropolitanas brasileiras.
São Paulo teve a maior proporção
de trabalhadores que perdem mais de uma hora para chegar ao trabalho:
21% deles enfrentam essa condição. Em seguida apareceram
as regiões metropolitanas do Rio (18%), Belo Horizonte (14%),
Fortaleza (11%) e Recife (10%). Se for levado em conta o número
daqueles que gastam mais de meia hora somente na ida para o emprego
- e certamente algo semelhante na volta para casa, à proporção
de trabalhadores da Grande São Paulo atinge 52%. São
3,9 milhões de pessoas.
"Perder mais de uma hora do dia desse jeito
já impacta a qualidade de vida do cidadão", avalia
o professor da USP (Universidade de São Paulo) Jaime Waisman,
que também é especialista na área de transporte.
(Folha de S. Paulo – 25/06/06)
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