Chefe pode gritar, decide Justiça paulista

Ordens do chefe dita aos gritos não são consideradas ofensas, segundo juízes da 2º Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 2º Região (TRT-SP). Segundo a decisão, desde que este não xingue, humilhe ou ofenda um funcionário o chefe tem direito de se alterar e elevar o tom de voz.

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    - S.O.S para quem ouve e para quem grita

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Chefe pode gritar, decide Justiça paulista

“A meta tem que ser cumprida, hoje ainda, entendeu?” Uma frase como esta não contém ofensa pessoal, mesmo que dita aos gritos por um chefe. Pelo menos no entendimento dos juízes da 2 Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 2 Região (TRT-SP). Segundo o juiz Sérgio Pinto Martins, relator de um processo movido por um ex-funcionário contra a Livraria Siciliano, gritar pode, ofender é que não. Para o magistrado, desde que não xingue, humilhe ou ofenda um subordinado, o chefe tem, sim, o direito de se alterar e elevar o tom de voz ao se dirigir a ele:

“Mesmo falando baixinho, um chefe não pode chamar o funcionário de medíocre ou burro, por exemplo. Mas não vejo problema em cobrar de forma severa os serviços, inclusive elevando o tom de voz. No caso da livraria, o chefe em questão era cobrado da mesma forma por seus superiores,” disse o juiz Martins ao Globo.

Profissionais da área de Recursos Humanos condenam veementemente esse tipo de tratamento. Para a diretora do Grupo Foco no Rio de Janeiro, Ruth Elvira Muraro, por exemplo, “quem grita perde a razão, no ato”:

“Na minha opinião, nem gritar sem ofender e nem ofender em voz baixa são atitudes válidas. Mesmo que fique com raiva, o chefe deve deixar o sentimento passar e, depois, ter uma conversa mais racional em outro momento e longe das outras pessoas que trabalhem no setor. É o chamado feedback sob controle.”

O autor da ação contra a Siciliano é o advogado José Carlos da Souza Vieira, ex-analista de sistemas da empresa, que entrou com uma ação por danos morais, dois meses após ter deixado o emprego, por ter se sentido humilhado enquanto exercia suas funções. Ele conta que foi uma maneira de protestar contra o tratamento que lhe era dispensado pelo gerente:

“Tudo o que meu antigo chefe pedia era aos berros. “Quero já” e “quero para hoje” são algumas das frases que ouvia, mas em altos decibéis. E isto na frente de pessoas estranhas ao setor. Procurei a Justiça para inibir esse tipo de ação e mostrar que a escravidão já passou.”

O advogado da Livraria Siciliano, Olindo Liberatoscioli, justifica o comportamento, dizendo que o tom de voz era algo inerente à personalidade do gerente: “As testemunhas confirmaram que ele falava da mesma forma com todo mundo e que era incisivo. Mas é um profissional competente e que goza da confiança da empresa”.

Por unanimidade, a 2º Turma do TRT acompanhou o voto do relator do processo, suspendendo o pagamento de indenização por dano moral. O ex-funcionário já havia conseguido um parecer favorável em primeira instância. O ex-funcionário recorreu e o processo está agora no Tribunal Superior do Trabalho (TST).

O que leva alguém a se submeter a esse tipo de tratamento? Rejane Linhares trabalhava como secretária em uma empresa e conta que suportou uma chefe que gritava, e muito, por dois motivos: primeiro porque precisava do emprego e, depois, por ser uma oportunidade de crescimento profissional. Por três anos e meio, ela ficou no escritório de marketing e eventos, onde não tinha a quem recorrer por uma razão: a chefe era a dona do escritório. Os gritos não continham ofensas pessoais e xingamentos, mas eram mais do que suficientes para deixar o clima pesado e o trabalho, estressante:

“Continuei porque sabia que a experiência me acrescentaria profissionalmente. Ela chegava de manhã de um jeito e, depois do almoço, já estava de mau-humor. Não gosto nem de lembrar daquele tempo”.

(O Globo – 04/09/05)

   

S.O.S para quem ouve e para quem grita

Profissionais de Recursos Humanos afirmam que tanto quem grita com um subordinado quanto quem é submetido a berros precisa de ajuda. Segundo Jacqueline Resch, da Resch Recursos Humanos, para o superior mudar um comportamento negativo, a ajuda de um funcionário pode ser fundamental. Ela afirma que o primeiro passo para tentar resolver uma situação tão delicada é o funcionário deixar claro que se sente desrespeitado com o tom de voz.

“Subordinados também podem ajudar o chefe a desenvolver competências e mudar atitudes,” diz Jacqueline.

A advogada Patricia Oliveira conta que já conseguiu ajudar um chefe a mudar o comportamento e ser menos agressivo na hora das cobranças de trabalho. “Procurei a hora em que ele estava mais calmo para uma conversa super franca. Mostrei a ele que afetava a minha produtividade e que eu não estava feliz com o tom de voz que ele falava comigo. Combinamos que ele passaria a mandar e-mails com as reclamações. Deu certo.”

Jacqueline concorda que combinar formas através das quais o chefe possa mostrar claramente sua insatisfação, discordância ou ansiedade em relação a alguma tarefa que está sob sua responsabilidade pode render resultado:

“Deixe-o saber a forma como você melhor recebe e aproveita um feedback, conseguindo redirecionar rapidamente sua atuação.”

Por outro lado, o chefe que grita deve fazer um exercício de auto-reflexão, identificando as situações que o fazem perder o controle e gritar. Segundo Jacqueline, é possível pedir o apoio do setor de Recursos Humanos da empresa. Neste caso, se a empresa acredita que ele tem competências e, portanto não pensa em dispensá-lo, deve ajudá-lo a modificar este comportamento:

“Há programas de coaching (aconselhamento), que podem ajudá-lo a refletir e conseqüentemente mudar. Antes de tudo, é preciso admitir que gritar não é uma atitude respeitosa“.

Segundo profissionais de RH, empresas modernas, voltadas para pessoas, respondem ao paradigma da gestão participativa, modelo que acredita no autocontrole.

“Na gestão participativa, a comunicação é feita mais a partir de informações e sugestões do que a partir de decisões e instruções. E a emoção básica, que regula a relação, é a confiança, não o medo,” observa Jacqueline.

(O Globo – 04/09/05)

   
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