Perguntas indiscretas podem constranger o candidato

Além de ter de lidar com sentimentos típicos que precedem uma entrevista de emprego, como tensão, ansiedade e nervosismo, alguns candidatos têm de driblar outros inconvenientes. Desta vez, dentro da sala do recrutador.

Leia mais:
    - Candidato deve driblar questões delicadas
    - Questões sobre crença e política são reprovadas

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Candidato deve driblar questões delicadas

É o que indica um levantamento elaborado em dezembro pela consultoria internacional Michael Page, a pedido da Folha, com 141 profissionais de áreas gerenciais.

Ter jogo de cintura para deixar de responder perguntas que não tinham relação direta com a vaga foi realidade para 7% das pessoas consultadas. Entre os entrevistados, 4% sentiram-se discriminados durante o processo seletivo.

Ainda de acordo com o levantamento, questões familiares vieram à tona durante o processo seletivo para 61% dos profissionais ouvidos. Orientação sexual foi um dos tópicos da entrevista de 4% desses gerentes. Os candidatos que tiveram de comentar sobre sua situação financeira totalizam 26% e os que expuseram crença ou religião atingem 19%.

"Deve haver um limite entre o que é pessoal e o que é necessário questionar para que o profissional conquiste a vaga. Perguntas sobre orientação sexual são discriminatórias e não devem ser feitas", afirma o consultor Paulo Pontes, da Michael Page.

Segundo o consultor, há perguntas formuladas por selecionadores especialmente para desestabilizar o candidato. "As muito íntimas não deveriam fazer parte das seleções. Nada acrescentam ao selecionador e não influem no desempenho do profissional."

Sete entrevistas em seis meses. Esse é o balanço feito pela relações-públicas M.A., 31, sobre o período de desemprego.

Entrevistas em grupo e bate-papos de menos de dez minutos viraram rotina para a profissional. "Fui a uma seleção em que o avaliador não sabia meu nome. Não tinha o meu currículo e não estava preparado para me entrevistar."

Mas a circunstância que mais constrangeu a profissional não foi essa entrevista. Aconteceu durante um processo seletivo com outros três candidatos, todos entrevistados simultaneamente.

"A selecionadora perguntou qual era minha orientação sexual na frente de todos. Queria saber se eu era a favor ou contra relacionamentos homossexuais", lembra.

A tentativa da profissional de contra-argumentar, questionando a relevância da informação para o cargo, não foi bem-sucedida. "Fui "imobilizada" pela resposta que recebi: "Você está reticente porque tem algo a esconder?'"

A relações-públicas respondeu, mesmo consciente de que suas chances de conquistar a vaga, devido ao questionamento anterior, eram praticamente nulas. O sócio-diretor da Konsult Consultoria em Recursos Humanos Mauro Hollo afirma que a melhor atitude a adotar diante de uma pergunta que o candidato considere invasiva ou desnecessária para avaliar suas habilidades é a tática do "espelho burro". "Devolver a questão, de forma educada e simpática, é uma estratégia. Mas é preciso estar preparado para a reação do entrevistador", diz.

(Folha de S.Paulo)

   

Questões sobre crença e política são reprovadas

Perguntas sobre orientação sexual, crença e política dão margem para que o profissional acione judicialmente o selecionador. É o que afirma o especialista em direito trabalhista Luiz Antonio dos Santos Junior. "Se as respostas forem utilizadas para criar um obstáculo à contratação, caracterizando preconceito contra o candidato, é possível processar a empresa contratante", diz.

As mulheres estão protegidas também com relação a questões sobre a intenção de ter filhos ou a pedidos de exame. A lei nº 9.029/95 proíbe que empregadores exijam atestados de gravidez ou mesmo de esterilidade.

Certidão de antecedentes criminais também é vetada na lista de documentos que o candidato tem de apresentar durante o processo de seleção. "Se a pessoa já cumpriu pena, não há mais dívida com a sociedade. Ela não pode ser discriminada."

Segundo Santos Junior, o maior problema para o candidato é provar que sofreu discriminação. "A firma pode dizer, por exemplo, que a pergunta não foi feita ou que a informação não foi usada na seleção de candidatos."

Para o advogado Amilcar Aquino Navarro, da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil), não há muito o que fazer diante de perguntas sobre a intimidade do trabalhador. "O recomendado, já que ainda não há vínculo empregatício, é que entre em contato com o Ministério Público para fazer uma queixa", indica Navarro.

(O Globo )

   
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