Brasil desperdiça jovens com doutorado

Começa a aparecer um contingente de profissionais superqualificados que fazem parte dos milhões de desempregados brasileiros. Eles acabam seu doutorado e encontram as portas do mercado de trabalho fechadas.

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Informalidade atinge 38,1 milhões no país

Segundo dados de estudo feito pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o trabalho informal atinge 58,1% dos ocupados no Brasil, ou seja, cerca de 38,1 milhões de pessoas.

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Carnaval gera 185 mil vagas na BA

Durante o Carnaval, segundo a Emtursa (Empresa de Turismo de Salvador), serão criados 185 mil empregos diretos na região metropolitana de Salvador. Serão diversas vagas de: artistas, pessoal operacional, técnicos de som e luz, seguranças, faxineiros, motoristas, cordeiros, decoradores e funcionários contratados por hotéis, pousadas e restaurantes, entre outros.

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Brasil desperdiça jovens com doutorado

Entre os milhões de desempregados brasileiros, começa a crescer um contingente de profissionais superqualificados que não consegue colocação ou tem de se contentar com ocupações para as quais a sua formação é irrelevante. Eles acabam seu doutorado e encontram as portas do mercado de trabalho fechadas.

São cerca 6 mil jovens que se doutoram todos os anos e a meta do governo é chegar a 10mil. Ao contrário do que pode parecer, não estão sobrando doutores no Brasil. “Na verdade, o País tem um número pequeno deles, em relação à sua população ou ao Produto Nacional Bruto (PNB), se tomarmos como referência países em estágio de desenvolvimento comparável”, diz Adalberto Fazzio, presidente da Sociedade Brasileira de Física. “O problema é a falta de estímulo para criação de posições para esses jovens.”

Num trabalho intitulado A Regionalização da Pesquisa e da Pós-graduação – o Desafio Amazônico, o pesquisador Adalberto Luís Val, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), mostrou essa situação em números. Entre 2000 e 2002 formaram- se 16.130 novos doutores no Brasil, dos quais menos da metade, 7.758, foram fixados, isto é, conseguiram emprego na área de sua formação.

A má distribuição dos doutores pelo País é outro complicador. complicador. Dos 16.130 formados, nada menos que 13.476 fizeram seu doutorado na região Sudeste. Na hora de oferecer emprego,
no entanto, essa região deixa muito a desejar. Dos 13.476 doutores formados apenas 3.186 foram fixados, um déficit de 10.290 vagas. Todas as outras regiões empregaram mais doutores do que formaram. Não basta formar recursos humanos”, diz Val. “É preciso ter políticas de fixação desse pessoal e para romper o desequilíbrio regional. Se não, vamos continuar com excesso de doutores
no Sudeste, com muitos deles subempregados e com falta deles nas outras regiões.”

O presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), EnnioCandotti, dá exemplos dessa carência. Na maioria das universidades públicas fora do Sudeste apenas cerca de 30% dos docentes têm doutorado”, diz. “Em regiões de fronteira, como Acre e Amapá, esse índice é ainda menor. Apenas 10% 20% dos professores são doutores.” Como se vê, vagas existem. Segundo Candotti, o que falta são programas e projetos para aproveitar os doutores que se formam todos os anos no Brasil.

Uma boa saída seria investir mais em pesquisa na Amazônia, por exemplo. “Para estudar toda a biodiversidade que existe lá seriam necessários de 5 mil a 10 mil doutores”, calcula Candotti. Outra alternativa seria as universidades voltarem a contratar docentes com doutorado. Há anos, os seus quadros estão praticamente congelados.

De acordo com Fazzio, o problema é mais grave no Brasil, porque as empresas não costumam Contratar doutores. “Nos países avançados isso é diferente”, diz. “Uma fração considerável de jovens com formação científica faz sua carreira fora dos laboratórios universitários, criando um vínculo essencial entre ciência, setor empresarial e agências estatais. No Brasil, este tipo de experiência é bastante limitada. Seria muito importante criar mecanismos para estimular este processo, essencial para a competitividade internacional das empresas brasileiras.

”Enquanto isso não ocorre, a opção dos jovens doutores é viver de bolsas fornecidas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) ou pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Ou então arrumar trabalho em área diferente de sua formação ou onde ela é irrelevante.

É o que fez, por exemplo, Ademar de Azevedo Cardoso, de 36 anos, doutor desde 1999 em estruturas, na área de Engenharia Naval, pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). “Nunca consegui emprego na minha área”, diz. “Só existem vagas para as quais o doutorado não é um dos requisitos.” Como precisa trabalhar, o jeito foi Cardoso se virar. “Desde que me doutorei, tenho dado consultoria para a indústria automobilística”, conta. “Para completar o salário, também dou aula numa faculdade privada, no curso de computação e informática, que não tem nada a ver com minha especialização.

Como as consultorias estão meio paradas, estou pensando em aumentar minha carga horária na faculdade. Preciso pagar minhas contas.” Sérgio de Figueiredo, de 46 anos, doutor em Física pela
USP, está nessa vida alternativa há mais tempo. “Sem vagas na minha área, quando me doutorei, em 1992, fui trabalhar como perito radiológico em consultórios odontológicos”, conta.“Depois, resolvi abrir uma empresa de plotagem (impressão de projetos de engenharia), que
tenho até hoje.”

Segundo Fazzio, os dois são exemplos de profissionais superqualificados que o Brasil está desperdiçando.“ O País precisa criar programas que estimulem as empresas a absorver estes jovens”, diz. “Isso produziria uma mudança de cultura, levando-as a uma melhor absorção de avanços científicos e conseqüente ganhos de produtividade. Programas estratégicos, tais como as
atividades espaciais, as nanociências, os novos materiais, problemas de segurança, questões associadas à biodiversidade, alternativas energéticas, tudo poderia gerar oportunidades para esses jovens.”

(O Estado de S. Paulo – 09/02/03)

   

Informalidade atinge 38,1 milhões no país

O trabalho informal atinge 58,1% dos ocupados no Brasil -ou 38,1 milhões de pessoas, segundo estudo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), concluído neste mês.

A partir de dados do Censo Demográfico de 2000, que abrange 556 microrregiões do país, o Instituto de Economia da UFRJ fez um retrato do trabalho informal no Brasil, a pedido da OIT (Organização Internacional do Trabalho).

O estudo detalhou a informalidade do trabalho em três níveis. O percentual de 58,1% é identificado no nível três -o mais abrangente-, já que considera também trabalho informal a doméstica que possui registro em carteira e o trabalhador por conta própria que contribui para a Previdência.

Ao considerar apenas os trabalhadores não registrados e os que não contribuem para a Previdência -nível um-, o trabalho informal no país chega a 48,5% dos ocupados. No nível dois, que leva em conta as domésticas e os empregados que não têm registro em carteira, mas que são contribuintes, sobe para 50,8%.

Apesar de o estudo se basear em informações do Censo de 2000, os dados são importantes para guiar as políticas de emprego do governo, dizem a OIT e a UFRJ, já que detalham o perfil do emprego em todo o país -capital e interior.

A PME (Pesquisa Mensal de Emprego) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) acompanha o mercado de trabalho e tendências do emprego em seis regiões metropolitanas do Brasil por meio de amostragem.

João Saboia, diretor do instituto, diz que os números que apareceram no seu estudo já são surpreendentes e devem ser mais altos hoje, considerando o baixo crescimento do país e a queda de renda do trabalhador de 2000 até agora. Isto é, o trabalho informal já pode ter ultrapassado 38,1 milhões de pessoas em todo o país.

"Os números que aparecem no estudo são preocupantes, mesmo considerando somente os trabalhadores que não têm direito a nada e não são contribuintes, que participam com 48,5% da população ocupada do país", diz Saboia.

Para ele, o que mais retrata o tamanho do trabalho informal no Brasil é o nível três de seu estudo, no qual ele leva em conta, além da formalização da relação de trabalho, o fato de a atividade ser ou não tipicamente capitalista.

Para ele, a relação entre uma empregada doméstica e sua patroa não é tipicamente capitalista, o que torna assim essa atividade informal.

Ao analisar o perfil do trabalho em nove regiões metropolitanas, além de Brasília (DF), o estudo do Instituto de Economia verificou que a informalidade é maior no Norte e no Nordeste. Em Belém, a informalidade chega a 59,9% do pessoal ocupado, considerando o nível mais abrangente -o três. Desse grupo, Brasília registra o menor percentual -41,8%.

Saboia diz que o mercado de trabalho no Norte e no Nordeste do país é mais frágil porque as atividades nessas regiões são menos organizadas, diferentemente do que acontece no Sul do país.

Um dado que mostra a fragilidade do mercado de trabalho na região Norte e Nordeste, diz ele, é o tamanho do emprego doméstico sobre a população ocupada. Em Belém, por exemplo, chega a 10,5%, dos quais 7,9% dos trabalhadores não possuem registro em carteira. Em Porto Alegre, esse percentual é de 6,7% -3,2% dos trabalhadores domésticos não possuem carteira assinada.

A desigualdade do emprego entre as regiões do país também pode ser constatada em levantamento do Instituto de Economia que mede a renda do trabalhador nessas regiões. Em Belém, por exemplo, o rendimento médio era de R$ 422 mensais em 2000. Em São Paulo, de R$ 942, e, em Porto Alegre, de R$ 664. Essas diferenças, diz Saboia, se mantêm hoje.

A PME, do IBGE, também constata um aumento do trabalho informal no país. Apesar de o instituto não adotar a divisão de emprego formal e informal, as pessoas que trabalham sem registro e por conta própria acabam fazendo parte do mercado informal, na análise de economistas. As que têm registro em carteira já fazem parte do mercado formal.

Por esse conceito, a informalidade registrada nas seis regiões metropolitanas do país é a mais alta desde março de 2002. O número de pessoas que trabalham sem registro em carteira e por conta própria bateu em 43% sobre a população ocupada em dezembro de 2003. Recife apresentou a maior taxa: 50,4%. Porto Alegre, a menor -38,2%.

"Há um avanço do trabalho precário e da queda da renda do trabalhador no país", afirma Cimar Azeredo Pereira, gerente da pesquisa de emprego do IBGE.

A informalidade e a queda na renda do trabalhador são reflexos do baixo crescimento do país e da redução do emprego industrial na década de 90, na análise de Fabio Silveira, diretor da MS Consult. "Quem perdeu o emprego acabou se transformando num subempregado, aquele que não tem proteção trabalhista e social", diz.

Para ele, a situação do mercado de trabalho está tão precária no Brasil que, "independentemente de o trabalhador receber a etiqueta de informal ou formal, o fato é que ele deve continuar a ter grande dificuldade para consumir".

(Folha de S. Paulo – 08/02/04)

   

Carnaval gera 185 mil vagas na BA

Durante o Carnaval, segundo a Emtursa (Empresa de Turismo de Salvador), serão criados 185 mil empregos diretos na região metropolitana de Salvador, reunindo artistas, pessoal operacional, técnicos de som e luz, seguranças, faxineiros, motoristas, cordeiros, decoradores e funcionários contratados por hotéis, pousadas e restaurantes, entre outros.

A última pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelou que 15,7% da população economicamente ativa da região estava desocupada em dezembro de 2003 -143.672 pessoas. Ou seja: o total de vagas geradas suplanta o de desempregados.

"O Carnaval é uma indústria de geração de emprego e renda muito importante", disse o prefeito de Salvador, Antonio Imbassahy (PFL). De acordo com a presidente da Emtursa, Eliana Dumêt, pelo menos 75% das vagas oferecidas para o Carnaval não têm registro em carteira, o que mantém as pessoas no mercado informal. "O importante é que estamos dando oportunidade de emprego para quem estava sem esperança."

É o caso do carpinteiro Idelfonso de Souza Ribeiro, 44, desempregado há seis anos. Ribeiro foi contratado temporariamente por uma empresa que monta camarotes e arquibancadas. "Estou ganhando R$ 35 por dia, o que alivia um pouco a minha situação financeira", disse o carpinteiro, casado e com três filhos.

Por muito menos -R$ 10 por dia-, o ajudante de montador Gilmar de Santana Oliveira, 31, também encontrou no Carnaval o seu emprego temporário. "O importante é que estou recebendo alguma coisa para comprar alimentos para o meu filho."

Mesmo quem não está envolvido na folia lucra. "Proprietários de apartamentos e salas comerciais instalados no corredor da folia também ganham muito dinheiro com a festa", disse o presidente da Associação de Blocos de Trios, Fernando Bulhosa.

O presidente da Abav-BA (Associação Brasileira das Agências de Viagens), Domício Brito, diz que as contratações temporárias relacionadas ao turismo crescem 15% às vésperas do Carnaval.

"Oferecemos mais vagas para guias, motoristas e pessoas que trabalham com receptivo." Eliana Dumêt mostra, com números, a importância do Carnaval de Salvador para reduzir o desemprego: "Só como exemplo, os trios elétricos vão contratar 80 mil cordeiros". Os cordeiros, que recebem em média R$ 20 por oito horas diárias, seguram cordas para impedir a entrada de foliões sem abadás (fantasias) nos trios. "Para quem está desempregado como eu, o pouco vale muito", disse Josenilton Santana, 23.

(Folha de S. Paulo – 08/02/04)

   
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