60,7% dos jovens entre 15 e 24 anos estão desempregados

Pesquisa realizada pelo Instituto Polis e o Ibase, mostra que o desemprego atinge 60,7% dos jovens brasileiros com idade de 15 a 24 anos. Outra pesquisa, feita pelo Dieese, aponta que só na Grande São Paulo são 27,2% de jovens fora do mercado de trabalho.

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Desemprego vira drama para jovens até 24 anos

São Paulo, quinta-feira, meio dia. Danilo da Silva, 24 anos, 6ª série, busca coragem para sair de casa. Vai checar a dica de um amigo. “Um trampo ali, do outro lado da marginal (sic)”, resmunga. Nos últimos tempos tem sido assim. Danilo desistiu de rodar a metrópole, sequer dinheiro para tanto tem. A rotina de carroceiro é o que sobra para sustentar a mulher e dois filhos. Do outro lado da cidade, Rodrigo dos Santos, 22 anos, pós-graduando, aproveita o pouco tempo para pensar numa alternativa. Pensa no que pode fazer para encontrar um trabalho, além de tudo o que já fez. “Penso noutra graduação. Penso até em ir embora do país”.

Danilo e Rodrigo não se conhecem e, provavelmente, jamais se conhecerão. Se encontram apenas na estatística de desemprego, drama que atinge atualmente jovens de todas as classes sociais em São Paulo, a maior cidade do país, um retrato, avalia especialistas, do que ocorre hoje no Brasil. Segundo a Fundação Seade e o Dieese, instituições que assinam a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) feita na Grande São Paulo, o desemprego entre jovens de 18 a 24 anos é de 27,2%.

“O desemprego neste grupo realmente está excessivamente elevado”, diz Marise Hoffmann, socióloga e pesquisadora do Dieese. O índice é dez pontos porcentuais maior ao índice geral, hoje em 17%. É também o dobro do nível de desemprego na faixa etária imediatamente seguinte, de 25 a 39 anos, que registra número de 13,4%. Este, aliás, é também chamado de força de trabalho plena.

Não no Brasil. A oferta de mão-de-obra entre trabalhadores de 18 a 24 anos e entre 25 e 39 anos é praticamente a mesma, 83,3% e 84,4%, respectivamente, em São Paulo. “Não é um porcentual visto em países desenvolvidos, mas é uma tradição no país. Os jovens brasileiros ingressam em massa ao mercado de trabalho. Precisam ajudar a família. O problema é que agora topam uma situação muito adversa: não há trabalho para todos”, explica Marise.

A escassez não é fenômeno paulista. Pesquisa nacional com oito mil jovens entre 15 e 24 anos, coordenada pelo Instituto Polis e o Ibase, realizada em sete regiões metropolitanas do país mais o Distrito Federal, mostrou que o problema do desemprego juvenil é nacional, atinge 60,7% dos jovens. “O levantamento mostra que a situação é pior entre jovens com pouca escolaridade e de renda baixa. Mas a falta de emprego é tão crônica que também atinge quem tem escolaridade e qualificação mais elevadas”, afirma Anna Luiza Salles Souto, pesquisadora do Instituto Polis.

(O Estado de S. Paulo – 10/07/06)

 

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Governo reconhece que apoio está aquém do problema

O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), responsável pelos principais programas de atendimento ao jovem no Brasil, reconhece que o problema do desemprego neste grupo já tomou proporções “preocupantes”. O governo já desistiu de tentar alcançar uma medida para dar conta do problema como um todo. Segundo o secretário de políticas públicas de emprego do MTE, Remígio Todeschini, o esforço em atender aos jovens não está mais na “quantidade”, mas na “qualidade” do que o governo oferecerá.

De 2003 até agora, os oito programas do ministério alcançaram cerca de 1,4 milhão de jovens no Brasil. O ministério não admite de forma clara, mas considera este um número pequeno para o tamanho do desafio existente atualmente. “O foco não é quantidade, mas qualidade. Embora nos preocupe o número de desempregados jovens”, afirmou Todeschini.

Destes 1,4 milhão de jovens que passaram por algumas das modalidades de programa em funcionamento, 841,5 mil brasileiros com idade entre 16 e 24 anos foram encaminhados para algum emprego. O governo não faz a menor idéia sobre qual o destino deste grupo. Uma boa parte desses já não deve estar no trabalho para o qual foi indicado. Não há estatísticas sobre a permanência destes nos postos de trabalho. Receberam a oportunidade de trabalho a partir do Programa Primeiro Emprego ou pelo Sistema Público de Emprego.

O enfoque dos atendimentos do governo é o jovem de baixa renda, com pouca escolaridade e nenhuma formação profissional. “É o grupo social que tem menos oportunidade”, argumenta Todeschini. Para o secretário, os jovem de classe social mais elevada, com maiores acessos à formação e qualificação profissional, têm naturalmente mais chances no mercado de trabalho. Os pesquisadores reconhecem esta condição, mas afirmam que, para isso ocorrer, é imprescindível um outro fator: crescimento econômico sustentado, o que o Brasil não consegue há muito tempo. O ministério admite que falta este requisito, até para começar a haver uma queda das taxas de desemprego entre jovens.

O foco exclusivo em baixa renda também gera críticas. Eliane Camargo, estudante de 21 anos, recorreu à ajuda do Primeiro Emprego. Não obteve sucesso. Tinha qualificação demais, foi a explicação que recebeu. “Esta resposta que recebi foi inexplicável. Não fui aceita porque tenho muita qualificação”, reclama Eliane.

Responsável por uma pesquisa sobre o Primeiro Emprego, Marcos Mesquita, sociólogo e pesquisador do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH/Unicamp), afirma que o foco no jovem de baixa renda é correta, mas é também uma deficiência do programa. “Há muitos jovens qualificados que não conseguem ingressar no mercado de trabalho”, afirma.

(O Estado de S. Paulo – 10/07/06)

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gravidez precoce e crime são efeitos

A falta de trabalho para a juventude brasileira não é mais um mero problema econômico, virou social - e grave. Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (CPS/FGV), relaciona os altos níveis de desemprego a dois problemas sociais que paulatinamente vai minando a juventude: a gravidez entre as adolescentes e a criminalidade entre os jovens.

É resultado da combinação, segundo Neri, da falta de emprego com baixa escolaridade e nenhuma qualificação profissional. O Centro de Políticas Sociais da FGV fez uma pesquisa sobre o perfil da população carcerária paulista e descobriu para onde vão os jovens desempregados paulistas.

De acordo com o levantamento, 97,7% dos presos em São Paulo são homens e 54,6% têm idade entre 20 e 29 anos. A população paulista da mesma faixa etária é de apenas 28,5%. Tomando aqueles com idade entre 20 e 24 anos, a população carcerária de São Paulo é de 27,8%. A população paulista nesta faixa etária é de 14,95%. A pesquisa mostra situação similar no Rio de Janeiro.

Segundo Marcelo Neri, o número mostra que o cárcere é o destino do jovem, solteiro, de baixa escolaridade e quase sempre sem qualificação profissional. “A miséria não é, mas o desemprego é um motivador para o ingresso de jovens ao mundo do crime”, afirma.

Na avaliação do pesquisador, a gravidez entre as adolescentes também tem relação com a baixa escolaridade, a falta de oportunidades. Ele explica que, de 1980 a 2000, a taxa de fecundidade das mulheres brasileiras caiu. Passou de uma média de 4,4 filhos para 2,3 filhos por mulher.

Chama a atenção, diz, a situação das adolescentes de 15 a 19 anos. O porcentual de mulheres grávidas nesta faixa etária cresceu. Em 1980, era de 7,9%. Em 2000, esse porcentual havia subido para 9,1%. Segundo ele, a situação dos jovens requer do País uma ação mais consistente do que as iniciativas atuais. “O Estado e a sociedade não conseguiram desenhar políticas para o público jovem, são rarefeitas as iniciativas para a população acima de 16 anos”, afirma o pesquisador.

(O Estado de S. Paulo – 10/07/06)