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Ministério
Público investiga venda de vagas de emprego
O Ministério Público está investigando
empresas de recolocação que são acusadas de
vender vagas de emprego. Que, aliás, mesmo que existissem,
não poderiam ser negociadas, acentua Cássio Casagrande,
procurador do MP do Trabalho no Rio. Com base em denúncias
feitas por profissionais que se sentiram lesados, o MP tem convocado
as agências para assinar um termo de compromisso de ajustamento
de conduta. Em outras palavras: deixar de prometer um serviço
que não têm como prestar.
“Temos
recebido inúmeras denúncias. A queixa é sempre
a mesma: as empresas venderam ao candidato uma vaga, e não
cumpriram o acordo. O que essas firmas têm feito é
estelionato” diz Casagrande.
O esquema clássico funciona assim: as empresas retiram de
sites currículos cadastrados por profissionais à procura
de emprego. Daí, entram em contato com eles por telefone.
Garantem que têm uma vaga que se encaixa perfeitamente em
seu perfil. E pressionam, dizendo que, para aceitar a oferta, é
preciso ir à agência de imediato. Chegando lá,
uma surpresa: o emprego é garantido, se o candidato pagar
por um serviço de consultoria. Na expectativa da vaga, o
candidato paga.
O preço
cobrado pelo serviço varia caso a caso, podendo ultrapassar
a faixa dos R$ 3 mil. Esse custo, justificam as empresas, é
proporcional ao valor de mercado do candidato. O economista Pedro
Zander, por exemplo, pagou R$ 3.948 — parcelado em três
cheques — à HCO Internacional. E se sente lesado:
“Recebi,
no ano passado, uma ligação da HCO, que dizia ter
um emprego perfeito para mim. O salário era excelente: R$
14 mil mais benefícios. Fiquei um pouco desconfiado, a princípio,
mas a proposta era bem sedutora. Participei de treinamentos, mas
a vaga até hoje não apareceu. Assim como nunca fui
chamado para qualquer entrevista ao longo de um ano de contrato.
Gastei dinheiro e não consegui trabalho pela empresa”.
Segundo Adriano
Oliveira, gerente-geral da HCO Internacional, não foi dada
a Pedro — nem a outro cliente — a garantia do emprego.
O que é vendido, afirma Oliveira, é um serviço
de consultoria para ajudar o profissional a se recolocar no mercado.
Esse trabalho custa de R$ 2 mil a R$ 4 mil e, quando é recolocado,
o cliente precisa pagar 60% do primeiro salário. Na HCO,
diz, a recolocação se dá em 95% dos casos:
“Pedro
caiu nos 5%”.
O que se percebe,
diz Casagrande, é que as empresas negociam uma oportunidade,
sem nem ter a vaga prometida:
“E ainda
negociam um percentual sobre o primeiro salário, sem qualquer
respaldo na lei. O salário é inatingível e
não pode, portanto, ser objeto de negociação.
Cobrar qualquer custo em cima de remuneração é
ilegal. Vamos combater esse esquema, que fere a legislação
e as normas da Organização Internacional do Trabalho
(OIT)”.
O Procon do
Rio também vem recebendo denúncias semelhantes. Nesse
caso, a consultoria Alphalaser lidera o ranking das agências
acusadas. São 61 reclamações contra a empresa,
que já se apresentou com endereços e números
de CGC diferentes.
“A empresa
em que eu trabalhava ia fechar e quis me ajudar a encontrar outro
emprego. Pagou cerca de R$ 3 mil à Alphalaser, que garantiu
que me empregaria. O tempo passou e nada. Quando fui averiguar,
levei um susto: a agência já não funcionava
no Rio” conta a publicitária Sandra Alencar.
Andréa
Costalonga, advogada da Alphalaser, afirma que a empresa jamais
garantiu emprego para qualquer cliente “’o que deixa
claro nas cláusulas de seu contrato. Por outro lado, informa
que a agência já assinou um termo de compromisso de
ajustamento de conduta que lhe foi encaminhado pelo Ministério
Público do Estado de São Paulo”.
“Melhoramos
as cláusulas dos contratos, frisando que não há
como garantir nada” diz Andréa, advogada também
da Dow Right Recursos Humanos, outra empresa que assinou um termo
de compromisso com o MP.
O procurador
do Trabalho acentua que as empresas de recolocação
que não enquadrarem seus contratos nos termos exigidos pelo
MP serão denunciadas à Justiça, podendo ser
processadas:
“É
difícil provar a má-fé. Mas é possível”.
Mas é
preciso saber separar o joio do trigo no mercado de agências
de recolocação. Nem todas, afinal, são motivo
de insatisfação. O administrador Edson Alves, por
exemplo, conseguiu dois empregos através de uma delas. Três
meses após a assinatura do contrato, Alves participara de
mais de cinco entrevistas.
“Eu estava
trabalhando numa empresa, mas me sentia insatisfeito. Sem custo
adicional, fui recolocado. E, além das vagas, recebi também
orientações que valem para minha carreira como um
todo”.
(O Globo
– 11/04/05)
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