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Desemprego
leva graduados a buscarem cargos menos qualificados
O desemprego
tem levado profissionais graduados a procurarem trabalhos que exigem
menos qualificação. Pesquisa da Secretaria Municipal
do Trabalho de São Paulo aponta que, dos 3,3 milhões
de brasileiros formados no Ensino Superior entre 1992 e 2002, 8%
exercem funções abaixo de sua qualificação.
Leia
mais:
- Graduado se vê expulso
da área de formação
- Indecisão na carreira
começa no vestibular
- Medo e ansiedade acompanham
mudança
- Salário menor e insegurança
são empecilhos
Graduado se vê expulso da área de formação
São 528
mil novos profissionais "despejados" anualmente no mercado
de trabalho, segundo o MEC (Ministério da Educação).
Na bagagem, além do certificado de conclusão do ensino
superior, está muita vontade de trabalhar na área
de especialização. Experiência e faculdade conceituada
no currículo ajudam, mas, em geral, não bastam para
que o profissional fuja das estatísticas de desemprego. Com
isso, muitos, ao procurarem uma função que assegure
seu sustento, acabam "engavetando" o diploma.
A advogada Luciana
Prevideli, 27, escolheu a graduação em direito porque
considerava que a área oferecia bom campo de trabalho. Bastou
obter o certificado, em 2001, para perceber que estava enganada.
Chegou a advogar e até teve seu próprio escritório.
Porém os custos da infra-estrutura superavam seus rendimentos
mensais. O jeito foi fechar as portas e procurar emprego. "Tinha
experiência em diversas áreas e seria fácil
encontrar algo. Mas, para advogar, é preciso ter a indicação
dos amigos na maioria das vezes. E eles, naquela época, também
estavam sem trabalho", lembra.
Desempregada,
aceitou o convite de uma colega para gerenciar uma empresa de montagem
de estandes. "Estava ociosa, e ela me fez uma proposta de salário
razoável", conta Prevideli. Hoje é gerente de
um salão de cabeleireiros. "Para voltar a advogar, teria
que me atualizar, fazer cursos, me reciclar. Isso me desanima ainda
mais", diz, ressaltando que, mesmo há mais de três
anos fora da área, não sentiu falta de voltar a atuar
em direito.
A advogada não
é exceção. Pesquisa da Secretaria Municipal
do Trabalho de São Paulo aponta que, dos 3,3 milhões
de brasileiros formados no ensino superior entre 1992 e 2002, 8%
exercem funções abaixo de sua qualificação.
São mais
de 260 mil profissionais trabalhando em funções como
açougueiro e empregador na indústria alimentícia
(19,1%); droguista, florista, galinheiro, lenheiro, peixeiro e sorveteiro
(17,8%); ou atendente (12,6%).
Recrutadores,
no entanto, vêem com desconfiança candidatos que possuem
mais titulação do que a exigida para o cargo. "Se
estiver fora da área de atuação, o profissional
mostrará descontentamento e vai querer sair da função",
explica André Medina, presidente da Luandre (consultoria
de RH).
Segundo levantamento
feito pela consultoria com 1.858 estudantes de graduação
e profissionais que já concluíram o ensino superior,
quase um terço deles busca empregos que requerem apenas o
ensino médio completo.
Egressos de
cursos de letras, economia, administração ou geografia
buscam um posto em telemarketing. Graduados em engenharia e em química
candidatam-se a cargos técnicos. Psicólogos e publicitários
concorrem a vagas para recepcionistas bilíngües.
"O mercado
de trabalho está mais restrito. É melhor arriscar-se
em outra área do que ficar esperando um emprego que não
vem", decreta a consultora Vera Sylos, da Alexander Mann.
Foi o que o
advogado Henrique Ribeiro da Costa Aguiar, 27, fez. Trabalhou na
área por dois anos depois da graduação, em
2001. No ano passado, conquistou um emprego de gerente de vendas
em uma loja de artefatos de couro. "Se tivesse feito um curso
de piloto de helicóptero, estaria melhor."
A dúvida
quanto à trajetória profissional permanece: "Não
sei se vou ser camareiro no Canadá ou se faço pós-graduação
em marketing para continuar na loja". Mas o desejo está
bem longe dessas opções: "No fundo, não
abandonei o projeto de advogar".
(Folha de
S. Paulo – 10/07/05)
Indecisão na carreira começa no vestibular
Foram dois anos
e meio no curso de publicidade e propaganda antes de mudar de idéia
e de graduação. Insatisfeita com o rumo de seus estudos,
a universitária Maria Cecília Gomes Botelho, 22, passou
a questionar sua aptidão para a área.
Fez teste vocacional e, desde agosto de 2003, é estudante
de desenho industrial. Conversando com colegas, descobriu que essa
também não era a carreira que queria seguir. Agora
quer ser maquiadora em espetáculos.
"Quero
trabalhar nos estúdios de cinema dos Estados Unidos, rodeada
de artistas, brilho e fama", planeja. Mas não pensa
em deixar a graduação, que só tem fim em 2007.
"Só saio do Brasil quando terminar a faculdade. Diploma
é importante para conseguir emprego."
Segundo Renata
Balazini, consultora da Boucinhas & Campos Talentos Humanos,
o jovem, em razão da idade, está mais preparado para
mudar de área. "Mas falta maturidade na escolha da carreira",
acrescenta.
Aos 17 anos,
Ricardo Malerbi, hoje com 24, não sabia se prestava vestibular
para direito, jornalismo ou publicidade. Optou pelo primeiro e estagiou
no Tribunal Regional Federal. Lá, conheceu um colega que
lhe apresentou o mundo da mágica.
Interessou-se
pelo tema e largou a graduação. Freqüentou dois
cursos até decidir-se pela comunicação das
artes do corpo. Hoje se mantém financeiramente com apresentações,
shows e aulas. "De qualquer forma, vou concluir a graduação."
(Folha de
S. Paulo - 10/07/05)
Medo e ansiedade acompanham mudança
Trocar o diploma
por um sonho. Deixar para trás um caminho de frustrações
e desgosto para seguir uma trilha de satisfação. Esse
é o ideal de graduados que, com o diploma na parede, descobrem
que a felicidade profissional está em direção
bem diferente. A realidade, no entanto, não é cor-de-rosa.
"A transformação vem acompanhada de questionamentos,
dúvidas e medo", explica a psicóloga Fabiana
Takiuti Duarte, da Oficina de Carreira.
Seis meses de
trabalho na área foram suficientes para que o engenheiro
Renato Epstein, 34, descobrisse que não era "empreendedor
de terno e gravata". Estava no último ano do curso quando
quis investir no mundo artístico. Criou sua banda de forró,
participou de serenatas e compôs trilhas para histórias
infantis. Levou, contudo, três anos para aposentar a idéia
de ser engenheiro. "O diploma não serviu para nada."
A falta de ânimo para continuar a trajetória profissional
é a principal queixa antes de mudar.
Formada em odontologia
em 1995, Tuty Mekhitarian, 30, diz que era uma cirurgiã-dentista
"competente, mas desmotivada". "Era cada dia mais
difícil acordar com vontade de trabalhar." A mudança
veio há três anos, quando resolveu abandonar as brocas
pela redação de livros. Na avaliação
da escritora, "havia, e há, muita ansiedade no processo
de troca de profissão". O sentimento só se esvaiu
quando ela viu publicado seu primeiro livro, em dezembro do ano
passado. "Hoje sou uma mulher realizada profissionalmente",
comemora.
"Não
teria me desenvolvido como representante comercial ", analisa
Augusto Cesário, 48, formado em marketing. Há 15 anos,
ele renunciou a um emprego que lhe garantia carteira de trabalho
assinada, viagens e plano de carreira pelo amor ao automobilismo.
Depois de acumular títulos de campeão paulista e de
vice-campeão brasileiro de kart, criou uma escuderia e fez
do hobby seu ganha-pão. "Consegui graças à
vontade de vencer", conclui.
(Folha de
S. Paulo – 10/07/05)
Salário menor e insegurança são empecilhos
"Você
tem certeza de que vai largar tudo o que conquistou?" Em geral,
essa é a reação da família e dos amigos
ao saber que o profissional vai abandonar a carreira à procura
de novos rumos. Entre os principais receios estão o fracasso
profissional e a possibilidade de redução significativa
dos rendimentos mensais.
A resposta que
a administradora de empresas Giuliana Cupini, 30, deu aos pais,
há um ano, foi: "Tenho, sim". Estava decidida a
deixar o cargo de analista de marketing em uma empresa de telefonia
pelo posto de confeiteira.
"Foi um
risco fabuloso", diz, ao lembrar que deixou para trás
o seguro-saúde, o plano de previdência e a carteira
de trabalho assinada, além, é claro, do salário
fixo. Cupini justifica a decisão: "Tinha gastrite todos
os dias. Hoje tenho mais qualidade de vida e sou mais feliz com
o que faço".
Do ateliê
no apartamento do pai, vai se mudar para uma casa em um bairro nobre
de São Paulo. Tem agendada uma viagem à Europa para
se aperfeiçoar na elaboração de guloseimas.
"O retorno financeiro veio em um ano."
Segundo a consultora
de recursos humanos Mariá Giuliese, da Lens & Minarelli,
é possível mudar de carreira, mas o profissional deve
ter em mente que, para isso, há um preço, muitas vezes
alto. "Pode haver uma redução salarial e é
imprescindível estar preparado para isso sob o risco de se
arrepender da escolha mais tarde."
Em vez de renunciar
aos projetos de casas, escolas e hotéis, o arquiteto João
Belezia, 40, passou a acumular a função de "personal-chef".
Assim, garantiu os rendimentos da primeira profissão e o
prazer das atividades culinárias. Durante cinco anos, revezou-se
entre o escritório e a cozinha. A tarefa não foi das
mais fáceis: chegava a trabalhar cerca de 18 horas diárias
e houve épocas em que esteve à beira do estresse,
como quando perdeu 8 kg em apenas três meses. Só abandonou
a arquitetura no começo de 2004, após formar uma clientela
cativa. "Agora que tenho retorno financeiro e que acumulei
sucesso na profissão, meus pais me entendem. Mas houve uma
resistência no começo", comenta Belezia.
(Folha de
S. Paulo – 10/07/05)
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